Um herói dividido entre o amor e a cidade
Por Pablo Tavares
Era uma vez um cara, ou melhor, um garoto. Um garoto assim como eu, ou você. Um “piá” que saiu do interior e procurou vencer a loucura e as idiossicrasias da cidade grande com uma guitarra nas mãos e um discurso na ponta da língua, já que, segundo ele mesmo diz, não conseguiria vencer pela aparência. “Quando me mudei pra capital (Curitiba, a quem possa interessar), tinha essa angústia de não ser da ‘turma da cidade’, mas logo vi que quase ninguém da ‘tchurma’ era cidade na verdade. Como dizem, você tira a pessoa do interior e não o interior da pessoa”.
Giancarlo Rufatto, atualmente 29 anos, é esse cara, esse garoto, esse “piá”. Ou melhor, é um cantor de “musica popular melodramática”, uma espécie de Cosmic American Music, se Gram Parsons tivesse vivido em terra brasilis e sua Joshua Tree fosse o pé de jequitibá da novela Renascer. “Seria música pop — que é como eu defino tudo, música pop tem violão, tem refrão, tem música alegre, tem música triste. O melodramático é a parte que me deixa desafinar com vontade, porque artista pop não pode desafinar”. E, por mais inclinado que você esteja a acreditar que a história dele acaba aqui, engana-se, pois “Frases de caminhão não são clichês”.
“… aquele ali, com as mãos sobre os olhos…”
Mas a cidade grande, de começo, não foi tão fascinante como Rufatto podia pensar que seria. Todos tinham os seus afazeres, suas ideias. Não tinham tempo para um cara que nunca havia dado certo em nenhuma banda “pelo fato de não conseguir tocar blues e rock’n’roll”.
Giancarlo se escondia atrás de um codinome, um alterego, o Lo-Fi Dreams, um homem travestido de banda que cantava “uma historinha de amor e pé na bunda em 25 minutos” em seu EP de boas-vindas ao mundo pitoresco da Curitiba, o chamado “disco do tênis”, em referência ao par de All-Star surrado estampado na capa. Capa essa que mostrava que aquele cara vindo de tão longe (Coronel Vivida, sudoeste do Paraná) tinha algo a dizer.
Mas Curitiba foi implacável com Rufatto (assim como é com qualquer um), tão cruel que o fez tentar montar, mais uma vez, uma banda, essa com sua sonoridade encharcada do “novo rock” ou do rock dos anos zero-zero. Durou um single e só serviu para que seu ego batesse de frente com o de outros egos maiores, mais velhos e com bem menos senso de humor. Diante disso, Rufatto vendeu sua guitarra, dobrou seu discurso e guardou no bolso, e embarcou para seu exílio, ou seja, voltou para Coronel Vivida, sua casa.
“Todas as mentiras são pra você”
De volta ao interior, muita coisa mudou. Percebeu que as pessoas não entendiam o que ele queria dizer quando cantava, sua mãe não o compreendia, e isso vindo de sua maior fã preocupava. “Não sei dizer ao certo. No começo [o que influenciava na hora de compor] era a minha vida, mas parei pra analisar e minha vida estava boa. Faltava o amor, aí o amor veio em doses cavalares. Aí faltava a casa e dinheiro e tudo tem se arranjado aos poucos. A grande influência do [disco] Machismo é a vida dos outros, da minha mãe, do meu pai, do meu outro pai, dos meus avós e da distância. Outro dia minha mãe ouviu o disco pela 1ª vez e disse: ‘Chocolate & flores, é um romântico’ e eu respondi: ‘essa musica é sobre o cara que te engravidou e fugiu.’ Basicamente é tudo sobre amor, mas amor doente”.
Após esse auto-exílio, criou coragem e novamente resolveu enfrentar a cidade grande chuvosa. Vieram os discos — nove no total, entre singles, EPs, e discos cheios em pouco menos de dois anos — todos carregados de referência e homenagens a seus ídolos, ídolos estes que vão de Renato Russo a Al Green. “O Tom Waits me ensinou caminhos para quando você não tem a voz certa para cantar músicas fofinhas e também que música pop não precisa ser baixo, guitarra, violão, bateria. Respeitava Bruce Springsteen mais pela hombridade artística do que pelas canções. Mas então passei a ouvir com atenção os B-sides da fase 73-80 e vi que o cara tinha uma urgência em produzir e isso me inspirava muito. Eram historia com começo meio e fim, atemporais — o que nos liga a Legião Urbana de certa forma. Muita gente me liga a Dylan, mas me sinto muito mais influenciado pelos que vieram depois (Tom Waits, Bruce Springsteen, Ryan Adams). Dylan está ali lado a lado com Stones e Beatles, não são humanos, são entidades que zelam pela musica pop, ou não. Hoje, minhas maiores influências vêm do Soul e do Hardcore americano dos anos 80″.
“Nas profundezas do coração e no fundo do copo”
Giancarlo Rufatto não faz muitos shows. Um mal que “está tentando contornar”. “O problema é que temos algumas metas na hora de marcar shows: gostamos de eventos gratuitos ao público ou com ingressos simbólicos. Usamos parcerias pra que a galera vá ao show de graça e a gente receba algum cachê simbólico. Meu sonho atual é voltar a tocar na rua, como em 2007, [quando] fiz alguns por diversão”.
Mas isso resultou numa extensa discografia, mesmo que em sua maior parte, seja apenas virtual (capas acima e abaixo). “A questão é: você lança discos físicos para quem? Para o jornalismo musical sério? Para sua mãe saber que você é músico de verdade? Para tocar na FM? Um reflexo de 2010 é aquela lista do Senhor F com vários discos que não tiveram edição física. Nem todo jornalista aceita disco virtual. Os meus são, mas todo o trabalho não é virtual, eu coloquei o encarte na web, qualquer um pode baixar e folhear o encarte sem precisar ter o disco, o disco físico tem 11 músicas, o disco da web tem 16 porque tem os b-sides e os covers. Faço questão de prestigiar quem baixar meus links via meu blog com um plus a mais. Acho que a internet me fez existir, sem ela eu ainda estaria apanhando pra gravar um CD via lei de incentivo ou via minha poupança no banco”.

Ryan Adams (por favor, não confundir com Bryan Adams) tinha nos idos de 2001 uma filosofia, onde ele dizia que “discos têm de ser gravados e lançados rapidamente, como uma droga viciante”. Giancarlo Rufatto faz coro a essa ideia. “(Risos), é bem por aí. Têm bandas que levam dois, três anos pra gravar meia dúzia de músicas. Em 1980, isso até era possível, mas em 2010/2011, você tem de lançar um single a cada dois meses e um disco cheio no ano com os singles + 10 musicas pra ter uma carreira de efeito. Tenho amigos que levaram dois anos pra gravar um álbum, ok, é um puta álbum, mas neste período o mundo mudou, o MySpace tá ali morrendo e minha banda já lançou dois EP’s e um DVD.
“Uma banda de ‘irmãos mais velhos’”
Nesse espírito, surgiu a Hotel Avenida, “uma fabulosa banda de canções à moda antiga”. “O Ivan (Santos), que era do OAEOZ, me chamou pra tocar teclados em uma música do disco deles. Foi uma merda, toquei mal e me desconvidaram (risos). Só que aí a banda dele — que já tinha uns 10 anos — parou e então gravamos um EP em dupla, quase uma dupla sertaneja indie: ‘Ivan e Gian’. Depois montamos a Hotel pra tocar esse EP e mais as canções do disco que eu havia lançado, o 14 Canções. Resultado: fizemos uma dúzia de canções novas e não tocamos as do EP.

Em 2010 a banda mudou de formação, os outros integrantes montaram outras bandas e a gente fez outra dúzia de musicas novas”. A “banda de irmãos mais velhos”, onde ele só teria de plugar seu violão e cantar suas histórias.
“É o que temos, até ir embora…”
O último trabalho de Giancarlo Rufatto é o disco Machismo (capa ao lado), uma espécie de disco de inéditas misturadas com o EP homônimo lançado anteriormente. “O Machismo EP foi uma derivação de uma ideia que acabou sendo esmagada pela banda Hotel Avenida. Entre 2009 e 2010 eu compus 50 músicas. Elas se dividiram entre meus EPs e os discos da banda. Ainda sobraram umas 10 que estão sendo brincadas com a nova formação da Hotel. Do Machismo EP só entrou Oquei no álbum cheio, quem se interessar pelo disco pode baixar o EP que tem duas musicas lá (em seu blog www.giancarlorufatto.blogspot.com, onde é possível encontrar toda sua obra, desde os primórdios). Até fiquei sentido de não incluir Como estão sendo seus dias sem mim (no disco), mas gosto de ter b-sides e sobras, faz me sentir como um artista de verdade. Mais artista que isso, só namorando uma fã”.
♦ ♦ ♦ ♦ ♦
E assim, a vida segue. E Rufatto planeja dominar outras terras, já que dominou Curitiba com Chocolate e Flores. No caso, São Paulo, onde a Hotel Avenida tocará com o Lestics, sem data definida. E para 2011, além de uma guitarra, Giancarlo tem outro desejo. “A ideia pra 2011 é tocar até cansar. Tem muitos lugares no Brasil que eu quero usar a banda pra conhecer (risos)”. É como ele mesmo diz na faixa que dá nome a seu último disco: “quem inventou tantos clichês?”
>>> Clique AQUI para baixar gratuitamente o álbum Machismo! <<<

Copyleft. Permitida a livre reprodução de todo o conteúdo do site. Pirateie e não peça para ninguém.