“Essa é minha vida e isso é o que fotografo”
Por Natália Arend
Um dueto de Johnny Cash com Chavela Vargas. Assim seria a trilha sonora das fotografias de Adelaide Ivánova, caso elas exigissem melodia para serem entendidas. Pernambucana, radicada em São Paulo, 20 e poucos anos, Ivi, como é conhecida, já trabalhou fazendo fotos das penitenciárias de Pernambuco e para o site Chic. Talvez, por ter circulado por ambientes tão distintos, as fotos de Adelaide não tenham nem um vestígio de afetação.

Recentemente expôs em Berlim a série 100 Men, onde reuniu fotos de 100 meninos (veja aqui) por quem ela não esteve necessariamente apaixonada, mas sim envolvida de alguma forma, ao longo dos anos. Outra série de Adelaide que chamou a atenção e provocou alguns risos, mesmo que tensos, foi a Fashion Victim (veja aqui), onde as personagens das fotos tem os rostos substituídos por uma cabeça de palhaço.
Por acreditar que é importante se colocar, assumir a sua personalidade, seus valores, Ivi se recusa a simplesmente seguir o briefing e deixar o feeling de lado na hora do trabalho. “Não tiro mais foto de festa de dondoca com câmera digital pra revistas que não respeito.”, diz a fotógrafa.
Influenciada por gente que vai de Frida Kahlo a Robert Mapplethorpe, ela já teve suas fotos em diversas publicações entre jornais, zines e revistas. No blog Vodca Barata, que atualiza quase diariamente, Ivi escreve sobre suas experiências atrás das lentes. Quem acessar o blog vai poder comprovar que a moça também manda bem nas palavras.

Entrevista
Quando você começou a fotografar? Trabalhar com fotografia?
Eu fotografo, como todo mundo, desde pequena. Todo mundo fotografa, desde que a Kodak fez a bondade de criar câmeras portáteis, né? Mas profissionalmente, ganhando dinheiro e tal, foi em 2002. Eu fotografava as penitenciárias de Pernambuco, para a Secretaria de Justiça de lá. Eu tinha 19 anos.
Você trabalhou no Chic, faz fotografias de moda. Como é a tua relação com esse mundo?
Hum… Eu fiz grandes amigos, grandes mesmo. É isso de mais fundamental que me deixou essa fase. E amo olhar fotografia de moda, apesar de não ser fotógrafa de moda.

Ainda falando sobre moda, você fez a série Fashion Victim (veja aqui). Dá para dizer que ela é uma crítica ao mundo da moda, a todo esse universo?
É mais uma crítica à forma como a mulher é representada em veículos de moda e de comportamento. Acho que a moda é um universo incrível, criativo e inspirador — os fotógrafos, os estilistas, os stylists, os maquiadores… — Mas os veículos de moda (não todos, óbvio, há coisas maravilhosas por aí) não agregam nada à chamada “imagem de moda”, muito menos à mulher.
Como foi apresentar a série 100 Men (veja aqui) em Berlim? Quando você começou a fotografar os meninos já tinha vontade de montar uma série com os seus “musos”?
Vixe, eu comecei a fotografar meus “musos” desde que comecei a fotografar. Fazia tempo que eu queria juntar esse “inventário” de homem bonito. Quando o Ricardo Domeneck, da SHADE inc. (um coletivo multimídia baseado em Berlim) me convidou para ocupar uma das salas onde eles fazem o evento semanal, foi a primeira coisa que eu pensei.
Em um dos teus posts no blog, você escreve sobre o desapego com a imagem. Você consegue se desapegar das fotos que você faz? Consegue, por exemplo, seguir um briefing deixando um pouco do teu feeling de lado?
Consigo, mas não quero, nem faço mais isso. Não tiro mais foto de festa de dondoca com câmera digital pra revistas que não respeito. Nunca vou ficar rica desse jeito, eu sei. Mas é importante se colocar no mundo como pessoa, assumir sua personalidade e seus valores, assim como é importante se colocar no mercado (de trabalho, de arte, do que for) como profissional, com seus valores e personalidade. A questão do desapego é em relação a outros tópicos, menos práticos e mais conceituais.

Ainda no blog você escreveu que estava aceitando seus cacoetes de fotografia? Quais seriam esses “cacoetes”?
Hum, são os caminhos que você usa para se exprimir. São as coisas na qual você “rely on” na hora de criar alguma coisa. No meu caso, fotografar as pessoas que eu amo (ou que eu admiro), com filme, luz natural, na casa delas, depois de uma longa conversa… Essas coisas de fotógrafo antiquado e chato.
Quem são os fotógrafos que mais influenciam o teu trabalho?
Marcelo Gomes, Heinz Peter Knes, Wolfgang Tillmans, Nan Goldin, Timo Klos, Cindy Sherman, Clarice Lispector e Frida Kahlo.
Se as tuas fotos tivessem trilha sonora, qual seria?
Hum… um dueto de Johnny Cash com Chavela Vargas.

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