Os Armênios

Substituição

Postado em 9 de fevereiro de 2010

por Adriana Gehlen, a Drix

Baixou a cabeça. Pensava e olhava pro chão. O amigo nem se mexeu, olhou pro lado e continuou quieto. Os três estavam intactos, sem falar nada, formando um formato de triângulo frio. Juan na frente de Filomena, o amigo de Juan do lado dela com o braço esquerdo dele no dela. Como ela gostava, e os três virando o copo pra burlar o silêncio da garganta, e pelo menos de cerveja, a garganta de Fi, era molhada.

Pensou falar alguma coisa. Viu que dali Juan não ia sair. Falou:
- Talvez isso seja ridículo, mas vou falar.
- Hm?
- Tu foges de mim Juan. Vê ao teu redor essas desesperadas olhando e chegando em ti como se tu tivesses o último pau do mundo. Vê o amigo aqui do lado, ele não fala nada, olha pra mim e diz pra ele. Diz pra ele e pra mim que tens vergonha de mim, mas que pelada soy deusa. Tu és safado, Juan.
- Tá louca?
- Estou, e bastante. Estourei. E se estivesses louco também o faria. E me apertavas pra sufocar, davas um beijo daqueles e me puxava o cabelo me apertava contra esse balcão, fazia essas desesperadas ao redor arregalar os olhos e virarem sei lá! Corujas não, coruja já sou eu. Mas não, o máximo que consegues fazer é observar o braço do teu amigo no meu. Pra ti é bom? Dá tesãozinho? Bota falta de poesia nisso!
- Então é isso? Tudo bem. Mas nunca digas, Filomena, que não te dei amor, que não fiz de tudo, que não me puxei. Sou liberal, sabes disso. Ganho urtiga na pele ao pensar em caso sério. E pelo menos dá pra entender?
- Não. Toma esse remedinho pra urtiga, é calmante também. Tomou? Bem, queres casar comigo? É uma experiência. Primeiro no físico, após no papel, quando evoluir teu amor por mim.
- Linda… Só amo a ti. Mas …

Juan caiu ao chão como um butiá doce. Morreu ali. Filomena caiu junto, chorou sozinha, cheirou o pescoço, acariciou os cabelos rebeldes de Juan, lhe beijou a boca, e o braço do amigo de Juan, de repente deu lugar à mão. Segurou a mãozinha de Filomena, e falou sorrindo, confortavelmente galanteador secando suas lágrimas:
- Tu és minha arma secreta.
Filomena abraçou Juan, levantou-se e disse ao amigo:
- Quero que tu me carregues no colo.
(…)

Foi um caso sério.

♦ ♦ ♦ ♦ ♦

IxContornos

Adriana Gehlen, a Drix, escreve tudo o que os grandes olhos azuis veem e o coração sente. Apaixonada por literatura, faz da escrita sua existência.

Aqui n’Os Armênios, Drix escreve na koluna Contornos. Mais divagações ‘drixianas’ você encontra no blog Aquela Par Que Virou Ímpar.

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