Holmes, Sherlock Holmes
por Marcus Vinícius Freitas & Marina de Campos
Seus olhos enigmáticos estão escondidos por uma grossa névoa de fumaça que sai vagarosa do cachimbo em dissipados aspirais. O característico chapéu xadrez não permite que se veja o perfeito mecanismo que começa a trabalhar incansável em sua mente, basta que surja um intrincado mistério e o infinito de possibilidades. Reflete profundenzas enquanto parece mirar sua imponente lupa, mas tem o olhar perdido no vazio do indesvendável. Atormentado por seus próprios segredos, gostaria de descobrir apenas a resposta para aquilo que já sabe: é claro, este é mais um grande caso para Holmes, Sherlock Holmes.

Se o detetive mais famoso de todos os tempos tem dúvidas, quem somos nós para qualquer certeza? É preciso analisar friamente todos os indícios, elaborar comparações, investigar os envolvidos, se dirigir até o local do crime com discrição e sair do cinema com suas próprias conclusões. Afinal, em casos como estes, jamais poderá existir verdade absoluta. Foi sabendo disso que o diretor inglês Guy Ritchie arriscou-se a buscar em um dos personagens mais simbólicos do reino britânico a essência para o seu mais novo filme, e, mais do que isso, ousar trazer à tona facetas quase secretas do carismático investigador. Esperto, sim, mas também fisicamente habilidoso, aventureiro, um pouco atrapalhado e muito mulherengo? Chega a lembrar outro ilustre britânico, um agente secreto de movimentos decididos e olhar extremanete sedutor…
Seguindo as pistas
Diretamente baseado na história em quadrinhos assinada por Lionel Wigram – talvez daí venha o destaque à ação e ao humor -, o filme tem no elenco um de seus grandes trunfos. Com o sempre competente Robert Downey Jr. no papel de Sherlock e Jude Law como o fiel e elementar caro Watson, o longa conta ainda com Rachel McAdams, Mark Strong, Kelly Reilly, James Fox e Hans Matheson, que juntos conduzem uma trama, apesar de tudo, pertencente ao padrão das clássicas histórias de Sir Arthur Conan Doyle: a dupla inseparável precisa encontrar o responsável por uma série de assassinatos violentos que têm perturbado a população de Londres. Quando o culpado é preso e aguarda por sua execução, revela que sua morte não será suficiente para conter a onda de violência que vem assolando a cidade, ligada a algo muito maior que todos eles. Em uma entrevista coletiva via satélite, o diretor Guy Ritchie resolveu temporariamente algumas dúvidas mas, é claro, não solucionou a questão – até ele sabe que a missão agora recai apenas sobre as mãos curiosas e os olhos atentos do espectador. Que comecem as investigações!
Quando teve início a sua relação com Sherlock Holmes?
Guy Ritchie – Meu contato com Sherlock Holmes começou quando eu tinha seis anos e fui enviado a um colégio interno inglês. A única diversão que tínhamos à noite, caso todos se comportassem, era através de fitas que tocavam algumas histórias nos alto-falantes dos dormitórios e que eram repetidas às vezes. As fitas mais populares eram as do Sherlock Holmes. Minha infância foi embalada por Sherlock Holmes dos seis aos dez anos, e tenho boas lembranças.
Holmes sempre foi retratado de maneira mais intelectual. Quais foram os desafios para fazê-lo como personagem de um filme de ação?
Ritchie – Os desafios foram constantes e lidamos conforme iam aparecendo. Eu procurei não me deixar levar pela visão de que Sherlock Holmes era um ser puramente intelectual. Um dos pontos mais interessante para mim, e acho que único deste projeto, foi a possibilidade de confluência entre o intelectual e o físico. Obviamente, nas produções anteriores sua intelectualidade prevaleceu, mas por outro lado, Conan Doyle era um entusiasta de artes marciais muito antes delas estarem na moda, pelo menos na Europa. Queria que este fator influenciasse a narrativa, de forma que apresentássemos o lado físico de Sherlock de modo muito mais marcante que em outras interpretações. Foi, portanto, uma questão de encontrar o equilíbrio entre apresentar seu lado intelectual e físico. Tentamos estabelecer isso no começo do filme, de que ele podia processar intelectualmente uma enorme quantidade de informações em tempo rápido mas que podia também utilizá-las fisicamente.
Quais as características de Robert Downey Jr. que o convenceram de que ele seria o ator certo para interpretar o personagem?
Ritchie – Acho que Robert Downey Jr. foi mais adequado para o papel do que eu pensava originalmente. Eu achei que ele seria uma boa escolha, mas tinha um certo receio sobre se um ator norte-americano poderia absorver tão perfeitamente o sotaque britânico. Eu me comprometi com o Robert Downey Jr. antes de assistir ao Chaplin. Todos me diziam que deveria assisti-lo e não me preocupar com o sotaque, mas ousei não assistir ao filme porque eu estava tão paranóico com a ideia de que estaríamos perdidos caso ele não pudesse absorver perfeitamente o sotaque. Porém, na sua primeira leitura do roteiro, meu medo desapareceu. Ele tem uma voz profunda e forte e ele é tremendamente intelectual e rápido. De fato, eu não consigo acompanhá-lo (risos). Seu cérebro se adequa ao modo de pensar de Sherlock Holmes. Não consigo imaginar outra pessoa interpretando o papel, e também gosto da ideia de que é um ator norte-americano interpretando um ícone inglês.

O que mantém Sherlock Holmes imortal?
Ritchie – Acho que ele foi o primeiro detetive popular. As pessoas são fascinadas por detetives porque a vida é uma jornada filosófica, e eles revelam os mistérios. Acredito que, de alguma forma consciente ou inconsciente, sempre estaremos interessados em alguém que tenha a habilidade de acrescentar magia a um entendimento literal. Sherlock Holmes foi o pioneiro neste movimento. Arthur Conan Doyle transformou Sherlock Holmes em um ícone popular de forma fantástica, e o legado continua.
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SHERLOCK HOLMES (Guy Ritchie, 2009)
Falando sério: somente um alienígena não deve conhecer a sentença “Elementar, meu caro Watson”. Sherlock Holmes é um dos grandes personagens da literatura, mas que há tempos ultrapassou a barreira dos livros e marca presença no cinema, passando pelo teatro e chegando até os quadrinhos. Aliás, quando se pensa num detetive famoso, o primeiro nome que vem a cabeça é o de Holmes. Ele já habita o imaginário popular, mesmo de quem nunca passou perto dos livros.
Dirigida por Guy Ritchie, a nova versão cinematográfica de Sherlock Holmes se baseia num gibi criado por Lionel Wigram (que o autor deste texto confessa não ter lido). Tendo isso em conta, o filme não empolga tanto quanto os quebra-cabeças resolvidos nas páginas escritas por Doyle, porém está bem longe de ser um caso perdido.
E se há uma pista importante neste caso, ela se chama Robert Downey Jr. Um ator excepcional que passou por períodos problemáticos, mas que vem ressurgindo em papeis interessantes e personagens importantes. Ultimamente, fez a gente rir bastante com Kirk Lazarus em “Trovão Tropical” – ‘Never go full retard’ eterno – e interpretou ninguém menos que Tony Stark, também conhecido como “Homem de Ferro”. Sherlock é um cara observador, inteligentíssimo, que está se lixando para o resto do mundo, além de ser muito debochado, preguiçoso e que não larga do seu cachimbo e violino. Como é um ‘Ritchie-movie’, adicione aos seus passatempos favoritos o boxe e um espírito de autodestruição. Apenas o doutor Watson (Jude Law) consegue aguentar e lidar com tal gênio difícil.
A visão de Guy Ritchie está lá, mesmo que mais ‘limpa’. Ele é um diretor sujo, um marginal de rua, um cara underground. O mais marcante nos seus filmes são a pancadaria e a violência, daquelas bem boas que podem ser vistas em “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” e “Snatch”, por exemplo. Ok, a Londres do século XIX foi bem retratada, as cenas em slow-motion das lutas tiveram um resultado bem interessante e com uma estética estilosa, mas ficou a impressão de que falta alguma coisa. Ritchie é das bocadas, assim como David Fincher e Danny Boyle no começo de suas carreiras. Poxa, quando falo destes dois, esqueçam a imagem recente de velinhos que ficam novos e melodramas indianos digno de novelas e lembrem da loucuragem de “Trainspotting” e “Clube da Luta”.
Mesmo sendo divertido, no fim das contas, os problemas existem. Primeiro, a solução para o caso todo. Pode ter sido intencional, para fazer comédia mesmo, mas usar um raciocínio lógico copiado de “Scooby-Doo” não pegou bem, soou forçado demais até para o pressuposto propósito. A dedução lógica e racional, que é tão frisada nas histórias, vai por água abaixo. Você fica procurando dicas e pistas, mas chega ao fim e uma sensação “puta merda, pra que fazer isso, diretor?” toma conta do espectador. Outra coisa que ficou meio sem sal é a relação entre Holmes e Watson. Ela poderia ter sido muito mais explorada, já que ambos se complementam muito mais do que fora mostrado na obra, mas isto foi posto de lado.
Reinventar grandes ídolos é algo sempre complicado. É um terreno perigoso, ainda mais um personagem com nome e a história como Sherlock Holmes. Mas Ritchie não é um cara afrescalhado, teve culhões e meteu a cara na empreitada, nos entregando um filme divertido até, mas que fica bem aquém do legado literário. Ele vai para outro caminho, foca mais na correria do que no raciocínio e na lógica. Apesar dos pesares, vale a pena pela diversão e principalmente para ver Robert Downey Jr., mas por via das dúvidas fique com os livros.
Saindo do filme, uma curiosidade: atualmente, o mais próximo do personagem de Doyle talvez seja um médico marrento viciado em sarcasmo e Vicodin. Exato, se você quiser ver uma espécie de Holmes moderno, ligue a televisão no premiado e renomado House MD. A mecânica (ou seria fisiologia?) da série foi baseada nas histórias do detetive: um cara cínico, extremamente inteligente e que é fascinado pelo enigma que envolve seus casos. O criador, David Shore, já comentou em várias entrevistas que Holmes foi o ponto de partida para o seriado. E caso não tenha percebido: Holmes – House, Watson – Wilson. Elementar, meu caro, elementar.

Saindo do filme, uma curiosidade: atualmente, o mais próximo do personagem de Doyle talvez seja um médico marrento viciado em sarcasmo e Vicodin. Exato, se você quiser ver uma espécie de Holmes moderno, ligue a televisão no premiado e renomado House MD. A mecânica (ou seria fisiologia?) da série foi baseada nas histórias do detetive: um cara cínico, extremamente inteligente e que é fascinado pelo enigma que envolve seus casos. O criador, David Shore, já comentou em várias entrevistas que Holmes foi o ponto de partida para o seriado. E caso não tenha percebido: Holmes – House, Watson – Wilson. Elementar, meu caro, elementar.
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