Graham Coxon revitaliza o Blur
Por Cezar “Dudy” Duarte
Há bandas que tem um integrante que é considerado a alma musical do grupo. Tente desassociar Keith Richards dos Rolling Stones, Pete Townshend do Who e Jimmy Page do Led Zeppeling. Com certeza, essas bandas não teriam se tornado grandes ícones do rock como as conhecemos, sem esses mestres da guitarra e arranjadores.

Algo semelhante aconteceu com o Blur, um dos expoentes responsável pela renovação do rock britânico da década de 90 em diante. Graham Coxon, guitarrista que representa a essência do melhor que o Blur já produziu, havia saído do grupo no início deste novo milênio por divergências musicais, deixando a banda capenga, descaracterizada sem o seu principal membro. Eles tentaram continuar, mas era visível o estrago que a falta de Graham provocara dali pra frente.
O renascimento do verdadeiro Blur ocorre com a volta do guitarrista para a realização de shows em 2009. O resultado disto é o lançamento do DVD duplo No Distance Left To Run e do CD igualmente duplo, All The People: Blur Live in Hyde Park (capa ao lado). Este pacotaço foi lançado no último dia 15 de fevereiro. O primeiro DVD traz um documentário sobre a banda. O segundo contém o show da volta realizado no Hyde Park de Londres, em 7 de fevereiro de 2009. A banda tocou 25 músicas de todas as fases da carreira. O CD apresenta o concerto que está no DVD.
É incrível constatar a importância que Grahan dispensa à banda. Sua guitarra, invariavelmente, dá o tom e é o instrumento de maior destaque em quase todo set list apresentado. Assim, muitos arranjos ficaram mais empolgantes e vigorosos em detrimento às gravações originais. Um único ponto falho que se constata nos CDs é o intervalo excessivo que existe entre algumas faixas. Funciona no DVD. No disco estas brechas poderiam ter sido reduzidas. Apesar disso, o registro revela a grandiosidade da formação clássica de um dos maiores e melhores grupos dos anos 90.
Uma breve retrospectiva discográfica
Um dos maiores representantes do chamado Britpop, surgido no início dos anos 90 é, sem dúvida, o Blur.
O grupo foi formado em 1989 em Londres com o seguinte lineup: Damon Albarn (vocal e teclados), Graham Coxon (guitarra), Alex James (baixo) e Dave Rowntree (bateria). Na sua gênese, o Blur era chamado de Seymour, mas esse nome durou apenas 12 shows. Por pressão da primeira gravadora, mudam para Blur. O single de estreia é She’s so high (1990), seguido de There’s no other way e Bang, ambos de 1991. Estes compactos tiveram relativo sucesso. A inclusão do clip There’s no other way na programação da MTV ajudou muito a chamar a atenção de um público maior para a banda.

Ainda em 91 é lançado o primeiro disco, Leisure, que incluía as faixas citadas. Tanto os músicos quanto a gravadora (Food Records) não ficam totalmente satisfeitos com o resultado. O próximo passo é criar uma sonoridade diferente. O single Pop Scene (1992) mostra uma evolução com uma levada mais rápida e com a inclusão metais. A repercussão é baixa. Partem para a gravação do segundo disco, Modern Life is Rubbish (1993), nome tirado de uma pichação. A gravadora examina o material e pede que um hit seja gravado. O mesmo pedido é feito pela gravadora americana. Daí nascem For Tomorrow e Chemical World, realmente pontos altos de Leisure. Em abril de 1994 é a vez de Parklife, uma espécie de Sgt. Pepper’s dos anos 90 (guardadas as devidas proporções, é claro), dada a riqueza musical perfilada por todo álbum. É o disco mais criativo, inspirado e, por que não dizer, o mais revolucionário do cenário Britpop até aquele momento, recebendo com justiça, o disco triplo de platina. O single de maior impacto do grupo é lançado em 1995, Country House, rivalizando com Roll With It de outra grande banda inglesa que estava se firmando, Oasis. Uma rixa entre elas é criada naquele ano para a alegria da mídia sensacionalista.

O quarto petardo é The Great Escape (1995), que trilha o caminho de Parklife. A concepção musical é praticamente a mesma, como se fosse um vol.2 do antecessor. Sucesso garantido. Passado um tempo, a banda é acometida por uma instabilidade pelo pouco respaldo que começava a ficar aparente, muito devido às atenções voltadas ao seu co-irmão-rival Oasis que não parava de tomar conta da cena roqueira. Os membros chegam a pensar numa ruptura que acaba não acontecendo. Decidem trabalhar em um novo material. Desta vez, a ideia era fugir do pop que os consagraram nos dois últimos CDs. O lançamento recebe o nome da banda, Blur (1997). Há uma guinada radical nas novas composições, o som fica mais experimental e sombrio. A crítica simpatiza com a novidade. O mesmo não acontece por parte dos fans, e alguns torceram o nariz pela mudança apresentada. Beetlebum e, sobretudo, Song 2 são as faixas que puxam as vendagens do quinto disco. O fascínio pelo som eletrônico e pelos recursos de efeitos sonoros chega ao máximo com 13 (1999), um verdadeiro desafio de fidelidade ao fan. É de 13 os hits Tender e Coffee and Tv (faixa cantada por G. Coxon). Curiosamente, são as canções que não se encaixam no clima experimental-psicodélico que pontua o trabalho.

O Blur faz apresentações até 2000. Há uma pausa para as atividades. Começam as gravações para o sétimo álbum em 2002. No estúdio, Damon e Graham acabam não chegando a um acordo quanto às novas criações. O guitarrista abandona o grupo. O restante dos membros finaliza o sétimo CD batizado de Think Tank (2003). Registro que pode ser esquecido. Não por coincidência, a baixa qualidade deste último, se credita à carência da genialidade de Graham Coxon, que lança, adiante, o maravilho solo Happiness in Magazines, fazendo de Think Tank uma caricatura mal acabada do que sobrou do Blur.

Além dos discos citados, também foram lançadas 4 compilações e 3 discos ao vivo da banda. As coletâneas: The Special Collectors Edition (1994) reúne lados B dos três primeiros discos; The 10 Year Limited Edition Anniversary Boxset (1999)é uma caixa que reúne os 22 primeiros singles do grupo; The Best Of Blur (2000) reúne os maiores sucessos acrescidos de uma faixa inédita, tem saído também em uma edição especial com 2 CDs, contendo gravações ao vivo em Wembley; e Midlife: a beginner’s guide to Blur (2009), com dois discos, cujo foco era apresentar o grupo para uma geração nova, que não conhecia a banda. Os títulos ao vivo, além do recente All The People: Blur Live in Hyde Park, há também: Live at the Budokan (1996), duplo, lançado apenas no Japão; e Live in Holland (1998) com 6 faixas e funciona mais como um EP estendido. Esse último acabou sendo incluído integralmente na coletânea de remixes Bustin’ + Dronin’ (1998).
Junto com o Supergrass e o Oasis, O Blur foma a “Santíssima Trindade” do Britpop, o último grande movimento musical inglês, dentro do Rock, e o mais significativo de toda a década de 1990.

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