Os Armênios

Postado em 12 de janeiro de 2010

por Adriana Gehlen, a Drix

Minha dualidade, minha Filomena queria sentar no muro do Malecón, ao lado, de quem sabe, Pedro Juan. Enquanto não chega o dia, e talvez nunca chegue o dia de saciar o amor platônico, segue aqui com outro. Na volúpia com sentimento de amante, de querer se entregar ao máximo pra não receber o que realmente quer. Mas quem falando! Aliás, não falando. Ela simplesmente não fala, nunca se incomoda com isso. Mas sabe que isso sugere entrega também. E não consegue entregar isso. Incomoda a tagarelice desenfreada de alguns. Como ele disse: a gente é poeta. Não um tentador de manchetes e atenções.

Tá todo mundo reclamando de todo mundo. As gurias reclamam dos homens que não chegam nelas. Os homens reclamam que não sabem o que as mulheres querem realmente. Filomena reclama dos tagarelas cheios de ego, do traste. Teve muitas reclamações nesse final de semana. As intelectuais também gostam de dar, não só conversar. E querem olhar, tentar, mas não tentam. Os hombres também gostariam que a mulher tomasse atitude. Aí uma moça chegou à conclusão de que devemos ir à luta pelos nossos homens, pelas nossas mulheres e não ficar esperando. Tá certa. A vida é sair pra seduzir, ser seduzido. Mesmo seduzindo amigas pra ganhar amizade, e tantos bons risos puros, ou desencadear pra si mesma algum par meio ímpar impetuoso com amor, algum homem com carne pra pegar, com olhar bonito, sedutor, cabeça feita, afeto a dar. Alguma amizade sedutora, sem beijo na boca. Afinal sedução não tem só a ver com o intuito final de ficar sem roupa. Tá longe de ser só isso.

Seduzir eleva tudo. Leva a tudo. Seduzir tudo o que é agradável é o que temos de missão neste mundo. Rir de canto.

Filomena tem um ritual. Acende incenso de Kama Sutra, vai pro banho com óleos, volta e deixa à fumaça rodear o corpão inteiro. Não coloca roupa, nem calcinha, até estar de maquiagem e cabelos feitos. Até a fumaça cessar e a rodear de energia sedutora. Não pode suar e então deixa o ventilador ligado. Enfim, tem que chegar ao rumo como uma fruta fresca. Sempre funcionou pra ela. Funciona talvez porque ela pensa que vai dar certo, e de tanto pensar, dá. E ela dá tudo ao seu amor, só pensando nos cheiros.  O prende com o cheiro, uma fraqueza pra qualquer seduzido. Só precisa fazer o cheiro chegar perto, e falar uma ou outra coisa que o faça não ter escolha, e acendê-lo de vez.

Uma pena que o efeito dura um dia. Depois ele fica frio como uma lata de cerveja saída do congelador.  Até lembra-se do cheiro. Mas nessa altura já não adianta mais.

♦ ♦ ♦ ♦ ♦

IxContornos

Adriana Gehlen, a Drix, escreve tudo o que os grandes olhos azuis veem e o coração sente. Apaixonada por literatura, faz da escrita sua existência.

Aqui n’Os Armênios, Drix escreve na koluna Contornos. Mais divagações ‘drixianas’ você encontra no blog Aquela Par Que Virou Ímpar.

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6 comentários

lili

os homens frios podiam dar tanto gosto quanto as latas de cerveja.

as vezes qdo eu tou tagarela demais eu mesma não me guento.

=***

Sentilavras

Muito interessante seu ritual pré-sedução. Com certeza dá certo!
Eu já me acostumei com homens frios como latas de cerveja. Geralmente fico tão fria quanto eles. Dá pra perceber com antecedência quem vai ficar frio e quem virá te aquecer mesmo depois da entrega.

Judas

Filomena é uma mal comida.

C.

Calcule quem é bem ‘comida’ então.

Macunaíma

Sou tão quente que derreteria teus ideais (platônicos), a ponto de que tu queimarias comigo por tanta força e presença de espírito. Sou o homem que todas as mulheres querem e nenhuma deseja, pois, em sua média, não suportam o desafio material da cotidiana política pertinente. Mas não é sua culpa, sofrem como eu com os condicionamentos sociais da poesia de viver; eu por sabê-los demais, elas por não quererem ter ideia do que se trata. É um amor desencontrado, dotado de preocupações dissonantes. A maioria apenas pode satisfazer seu ego com prazeres fáceis e fúteis, da cor sem brilho de uma cerveja longe dos holofotes comerciais. E eu, um homem de gênio, enérgico e inteligível aos olhos comuns fadados à mesmice, quanto a mim, o caminho é a (quase-)imortalidade dos livros e da história do pensamento, da vida da e por imaginação, esta existência demasiado humana. E quem com isto se contenta.

Filomena

Dizem que Macunaíma era um baita preguiçoso… dito isto, e sendo isto um mero nick, ou não, não o desejaria, apesar de meus ‘prazeres fáceis e futeis’. Não sei do que tu tá falando, mas tá certo quanto aos meus ideais platônicos, a gente descobre todo dia algo de errado, mas a parte boa é que descobre coisas verdadeiras também – Muita gente se contenta com o que citaste, tu só não teve a oportunidade de descobrir.

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