Só
por Adriana Gehlen, a Drix
Minha dualidade, minha Filomena queria sentar no muro do Malecón, ao lado, de quem sabe, Pedro Juan. Enquanto não chega o dia, e talvez nunca chegue o dia de saciar o amor platônico, segue aqui com outro. Na volúpia com sentimento de amante, de querer se entregar ao máximo pra não receber o que realmente quer. Mas quem falando! Aliás, não falando. Ela simplesmente não fala, nunca se incomoda com isso. Mas sabe que isso sugere entrega também. E não consegue entregar isso. Incomoda a tagarelice desenfreada de alguns. Como ele disse: a gente é poeta. Não um tentador de manchetes e atenções.
Tá todo mundo reclamando de todo mundo. As gurias reclamam dos homens que não chegam nelas. Os homens reclamam que não sabem o que as mulheres querem realmente. Filomena reclama dos tagarelas cheios de ego, do traste. Teve muitas reclamações nesse final de semana. As intelectuais também gostam de dar, não só conversar. E querem olhar, tentar, mas não tentam. Os hombres também gostariam que a mulher tomasse atitude. Aí uma moça chegou à conclusão de que devemos ir à luta pelos nossos homens, pelas nossas mulheres e não ficar esperando. Tá certa. A vida é sair pra seduzir, ser seduzido. Mesmo seduzindo amigas pra ganhar amizade, e tantos bons risos puros, ou desencadear pra si mesma algum par meio ímpar impetuoso com amor, algum homem com carne pra pegar, com olhar bonito, sedutor, cabeça feita, afeto a dar. Alguma amizade sedutora, sem beijo na boca. Afinal sedução não tem só a ver com o intuito final de ficar sem roupa. Tá longe de ser só isso.
Seduzir eleva tudo. Leva a tudo. Seduzir tudo o que é agradável é o que temos de missão neste mundo. Rir de canto.
Filomena tem um ritual. Acende incenso de Kama Sutra, vai pro banho com óleos, volta e deixa à fumaça rodear o corpão inteiro. Não coloca roupa, nem calcinha, até estar de maquiagem e cabelos feitos. Até a fumaça cessar e a rodear de energia sedutora. Não pode suar e então deixa o ventilador ligado. Enfim, tem que chegar ao rumo como uma fruta fresca. Sempre funcionou pra ela. Funciona talvez porque ela pensa que vai dar certo, e de tanto pensar, dá. E ela dá tudo ao seu amor, só pensando nos cheiros. O prende com o cheiro, uma fraqueza pra qualquer seduzido. Só precisa fazer o cheiro chegar perto, e falar uma ou outra coisa que o faça não ter escolha, e acendê-lo de vez.
Uma pena que o efeito dura um dia. Depois ele fica frio como uma lata de cerveja saída do congelador. Até lembra-se do cheiro. Mas nessa altura já não adianta mais.
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Contornos
Adriana Gehlen, a Drix, escreve tudo o que os grandes olhos azuis veem e o coração sente. Apaixonada por literatura, faz da escrita sua existência.
Aqui n’Os Armênios, Drix escreve na koluna Contornos. Mais divagações ‘drixianas’ você encontra no blog Aquela Par Que Virou Ímpar.

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