Quadrinhos em boa companhia
por Marina de Campos
Nenhum som. Nem sequer um movimento. Acredite, algumas das mais fortes emoções de um homem podem ser expressas em uma simples sequência de quadros – o que há de mais sincero retratado em arte sequencial. Qualquer que seja a experiência de alguém com uma graphic novel, apenas uma sensação pode ser prevista e dada como confirmada: a energia de cumplicidade que se estabelece entre leitor e narrador-personagem a partir do momento em que desenhos revelam aquilo que de mais íntimo pode haver e pequenas frases traduzem o que não se pode conjurar com lápis e papel.

São estas obras puramente honestas e dotadas de um inegável diferencial que a respeitada Companhia das Letras resolveu adotar e trazer ao público brasileiro desde o final do ano passado. Obras que não têm a necessidade de esconder nada do leitor, personagens que não precisam dissimular sua personalidade por mais condenável que seja, situações que se apoiam no desenho para descobrir a tranquilidade que não encontrariam nem em prosa, nem em poesia. Caminhando por uma via alternativa, talvez mais sinuosa que a literatura tradicional mas ainda sim prazerosa e gratificante, elas conquistam mais espaço entre o público – adulto, é bom que se diga – a cada dia e a cada nova publicação.
Romance gráfico na tradução literal, a graphic novel se caracteriza por ser uma espécie de livro que utiliza os quadrinhos como forma de narrativa.
Frequentemente utilizada para definir as distinções subjetivas existentes entre um livro e um gibi, a expressão também cabe para sinalizar histórias longas e carregadas de drama, distantes do mundo dos super-heróis que costuma servir de referência quando o assunto são as HQs.
Reunindo o tradicional bom gosto e o capricho com as edições da Cia das Letras, a editora lançou o selo Quadrinhos na Cia., que tem sido responsável por trazer às livrarias nacionais alguns dos títulos mais aclamados ao redor do mundo. Ao focar sua atenção em um ramo dos quadrinhos que editoras especializadas não compreendem – à exemplo da Panini e sua dedicação quase exclusiva a materiais saídos das gigantes Marvel e DC Comics -, o novo selo possibilita ao leitor brasileiro o contato não apenas com grandes clássicos, mas também com premiadas obras independentes que vêm chamando atenção nos últimos anos.
Do maior teórico da arte sequencial até um jovem de 26 anos disposto a arriscar, tudo parece ter espaço no catálogo da Quadrinhos na Cia – espaço destinado à gerar destaque maior ao gênero no país, simpatia nos novos leitores, aceitação nos velhos adeptos e, acima de tudo, a energia de cumplicidade que não há de se encontrar em nenhum outro lugar.
Retalhos, de Craig Thompson
“Ao contar esta história das pequenas brutalidades que os pais infligem a seus filhos e os irmãos uns aos outros, Thompson descreve a agonia e o êxtase da obsessão (por Deus, por um amor) e não teme denunciar os caminhos pelos quais a obsessão consome a si mesmo e evapora-se”. Assim descrito pelo The New York Times, o relato autobiográfico de Craig Thompson vai completamente ao encontro da ideia de intimidade e confissão destemida que costuma engrandecer uma graphic novel. Ao contar sua história da infância à juventude em uma pequena cidade dos Estados Unidos, o autor de 34 anos sensibilizou o país e venceu três prêmios Harvey e dois prêmios Eisner, além do prêmio da crítica da Associação Francesa de Críticos e Jornalistas de Quadrinhos em 2005. Possuindo acertados pontos em comum com as elogiadas obras Fun Home, da autora Alison Bechdel, e o fenômeno Persépolis, da iraniana Marjane Satrapi, Retalhos traz à tona as dores e as paixões dos melhores romances de formação, porém em uma linguagem gráfica sóbria e extremamente original.
Breakdowns – Retrato do artista enquanto jovem %@?*!, de Art Spiegelman
Consagrado por seu trabalho em Maus – com o qual se tornou o primeiro quadrinista a ganhar o prêmio Pulitzer -, Art Spiegelman é responsável por um verdadeiro divisor de águas na história dos quadrinhos. Ao utilizar animais para descrever a perseguição nazista aos judeus, e assim combinar uma poderosa história autobiográfica a uma técnica ligada até então somente
às crianças ou à contracultura, o autor eleveu o gênero a um novo patamar e expandiu de forma incomparável as fronteiras e o alcance das HQs. Mas é de antes disso tudo a obra que a Quadrinhos na Cia. publica agora em uma grande e impressionante edição de luxo. Breakdowns – Retrato do artista enquanto jovem %@?*! é uma verdadeira viagem experimental vivida pelo artista em meados de década de 1970, quando ele “ousou chamar seu meio de arte” e reuniu de tudo um pouco: histórias de mistério, humor, relatos autobiográficos, contos eróticos e até mesmo a história curta que daria origem a Maus. Inovador à época de seu lançamento, o livro ganhou uma revisão do próprio Spiegelman agora, trinta anos depois, e retornou às bancas como um dos melhores lançamentos dos últimos tempos.
Umbigo sem fundo, de Dash Shaw
É impressionante como, às vezes, um simples desenho de poucos traços e muito vazio possa representar tão bem o silêncio doloroso que habita uma família em lenta destruição.
É assim, com inesperadas variações, cortes rápidos, cenas simultâneas e desafogantes espaços em branco que o quadrinista Dash Shaw conseguiu fazer de Umbigo sem fundo um retrato quase perfeito da imperfeição em que consiste o ambiente familiar. Para isso, utiliza a decisão do casal Maggie e David Loony, casado há quatro décadas, de finalmente se separar. A bomba recai sobre os filhos, tão diferentes entre si e, claro, contrários em sua reação, que varia entre a falsa aceitação da filha do meio e a inconformidade quase insana do primogênito. Escrito quando tinha apenas 23 anos, o autor investiga com maturidade surpreendente e sem qualquer complacência os movimentos mais sutis e os aspectos mais recônditos que tornam único o sofrimento de seus personagens, numa narrativa a um só tempo dinâmica e suave, revelando na delicadeza do traço as suas cargas máximas de envolvimento tensão.
Nova York – A vida na grande cidade, de Will Eisner
O grande mestre da arte dos quadrinhos e a cidade mais incrível do planeta: este é o encontro perfeito registrado em Nova York, de Will Eisner. Indiscutivelmente o maior teórico da arte sequencial, o autor mergulha no coração de uma cidade que nunca dorme na busca por revelar muito mais do que “um acúmulo de grandes edifícios e grandes populações. Tratando de seres humanos, seus dilemas e sua ligação quase física com a tão amada metrópole, ele também expõe biografias de personagens esquecidos, isolados e indiferentes perante a magnitude de Nova York. Junto com uma grande lista de verdadeiros clássicos, mais uma obra-prima de Will Eisner vem encantar o público brasileiro em uma extensa e bem elaborada edição.
Jimmy Corrigan – O garoto mais esperto do mundo, de Chris Ware
Se Jimmy Corrigan é o garoto mais esperto do mundo, Chris Ware é a maior surpresa do mundo dos quadrinhos – pelo menos da última década. Declarada a “primeira obra-prima formal dos quadrinhos” pela The New Yorker, a graphic novel não é nada fácil de se descrever. Com um enredo altamente sofisticado, de temática adulta e semi-autobiográfica, a obra tem seu grande trunfo no estilo gráfico inconfundível, inspirado na publicidade norte-americana do início do século 20, repleta de detalhes e formas geométricas
levadas ao extremo. Acompanhando os passos incertos de um tímido e solitário homem de meia-idade que trabalha em uma repartição e vive reprimido pela mãe dominadora, a história sofre uma reviravolta quando Jimmy Corrigan recebe uma carta de seu pai e parte para encontrá-lo em um feriado de Ação de Graças. Contando ainda com histórias paralelas, em forma de flashbacks e delírios, o livro foi traduzido pelo gaúcho Daniel Galera e publicado pela Companhia das Letras em uma edição à altura do esmerado original. Sutil e sensível, a história derramada por entre anúncios de jornal e outdoors é de uma dureza devastadora – a dureza da vida real. Mas é justamente nessa acidez subjetiva incoerentemente apresentada através de tons alegres e formas indiferentes que a mensagem mais importante é passada: a redenção demora, mas surge quando menos se espera.

Copyleft. Permitida a livre reprodução de todo o conteúdo do site. Pirateie e não peça para ninguém.