Os Armênios

Gelo Preto…

Postado em 11 de dezembro de 2009

Por Maurício Rigotto

…em São Paulo

Sexta-feira, 27 de novembro. Após dezoito horas de viagem, cheguei por volta das quinze horas em frente ao estádio Morumbi em São Paulo. Quem me conhece sabe da aversão que tenho por futebol, conseqüentemente, o único evento que me motiva a ir a um estádio é um show de rock. Dentro de algumas horas, o AC/DC, uma das maiores bandas do mundo, faria seu único show no Brasil, depois de treze anos sem se apresentar no país. O grupo está realizando uma grande turnê mundial, a primeira em oito anos, divulgando o elogiadíssimo álbum “Black Ice”, lançado no ano passado. A turnê é uma das mais lucrativas e bem sucedidas da história, lotando estádios ao redor do mundo, e em São Paulo não seria diferente.

AC/DC e o palco da Black Ice Tour!

Àquela hora da tarde, uma fila gigantesca contornava toda a circunferência externa do estádio. Milhares de pessoas vestidas com camisetas pretas com o logotipo do AC/DC aguardavam ansiosamente a abertura dos portões, programada para as dezoito horas. A esmagadora maioria das pessoas usava um diadema na cabeça com os chifres vermelhos que se tornaram uma das marcas de Angus Young, a estrela da banda. Outros estavam vestidos de Angus, com seu característico uniforme de colegial. Resolvi não desperdiçar a tarde em uma fila. Sei que poderia entrar no estádio ao anoitecer e ainda conseguir um bom lugar para ver o show. Resolvi dar um passeio e embarquei em um ônibus em direção ao centro. Quando o coletivo estava na Av. Rebouças, perto da Av. Paulista, o trânsito simplesmente parou em um grande engarrafamento. Saltei ali mesmo e peguei o metrô até a Estação da Luz, para dar uma volta no Mercado Público e na rua 25 de março. Cheguei lá já perto das dezoito horas e resolvi logo voltar ao Morumbi. Peguei um táxi nas imediações e comecei uma tortuosa e desesperada viagem de volta ao estádio. O trânsito da capital paulista estava infernal, até o chofer comentou que nunca havia enfrentado um engarrafamento daquela magnitude. Av. Rebouças, Av. Paulista, Rua Augusta…milhares de veículos sem se mexer, um inferno. Para tentar fugir do caos da Rebouças, o motorista optou pela Consolação. “Andamos” por mais de uma hora, mas no bairro Jardins o táxi se viu novamente preso no congestionamento. Comecei a ficar seriamente preocupado, até que optei em descer do táxi e tentar um ônibus, pois em seus corredores havia fluxo. Quando embarquei no ônibus, caiu uma chuva torrencial que ensopou a todos que estavam no estádio. Após quase uma hora de trajeto, desci do ônibus, já sem chuva, as vinte e uma horas. Ainda precisava caminhar mais de dois quilômetros para chegar ao Morumbi. Com o passo apressado, adentrei ao portão de acesso pontualmente as vinte e uma horas e trinta minutos. Fui revistado pelos policiais e corri para dentro. No exato minuto em que me vi entre as setenta mil pessoas que lotavam o local, as luzes se apagaram e um dos maiores espetáculos que já presenciei teve início.

AC/DC em São Paulo - foto por Marcelo Rossi

Com as luzes apagadas, só o que se via era um mar de chifres vermelhos luminosos, pois mais da metade da multidão usava o adereço. Nos enormes telões de alta definição, uma bela animação teve início, mostrando um trem descontrolado em altíssima velocidade, com os membros do AC/DC em seus vagões. O guitarrista Angus Young, personificado como um demônio, alimentava o fogo da caldeira jogando carvão com uma pá, quando duas gostosonas surgem e o seduzem, simulando masturbação e sexo oral em sua enorme língua. Repentinamente, elas o chutam e puxam o freio de emergência do comboio. Enormes faíscas são produzidas pelas rodas do trem em atrito com os trilhos.

O desenho animado termina com uma locomotiva de verdade, de seis toneladas, invadindo o palco ainda expelindo fumaça. A banda surge e empolga o público com “Rock’n’Roll Train”, faixa do novo disco. Mais de duzentas caixas de som amplificam o volume com perfeição, proporcionando uma das melhores sonorizações que já ouvi em grandes arenas. Após a abertura, os clássicos “Hell Ain’t A Bad Place To Be” e “Back In Black” levaram a multidão a um frenesi coletivo. Surpreendentemente, a próxima faixa, “Big Jack”, do novo álbum, foi cantada em uníssono pela platéia, como se fosse algum dos antigos clássicos da banda. Aliás, parece que a banda só tem clássicos no repertório, pois se seguiram “Dirty Deeds Done Dirt Cheap”, “Shot Down In Flames” e “Thunderstruck”, antes da música que nomeia o novo disco e turnê, “Black Ice”. AC DC em São Paulo - foto por Marcelo RossiA energia e o entrosamento da banda impressionam, Angus Young e o vocalista Brian Johnson comandam o espetáculo, correndo todo o tempo por toda a extensão do gigantesco palco, enquanto os demais membros Malcolm Young (guitarra); Cliff Williams (contrabaixo) e Phil Rudd (bateria), mantém a base com extrema competência. No blues “The Jack”, Angus Young larga a guitarra para fazer um strip tease, livrando-se de seu uniforme de colegial enquanto a platéia grita o refrão “She’s got the Jack”. Ao abaixar a bermuda, Angus revela uma cueca com o logo do AC/DC em suas nádegas. Em “Hells Bells”, um grande sino desce ao palco e Brian Johnson pendura-se como um Tarzan em seu cipó na corda que faz badalar o pêndulo. Depois de “Shoot To Thrill”, outra nova canção, a ótima “War Machine”, e mais clássicos: “Dog Eat Dog”, “You Shook Me All Night Long” e “TNT”. Em “Whole Lotta Rosie”, uma gigantesca boneca com seios fartos e coxas grossas é inflada sobre a locomotiva. Em “Let There Be Rock”, imagens de todos os discos e todas as fases da banda são projetadas nos telões, incluindo a imagem de Bom Scott, o carismático vocalista falecido em 1980. Angus percorre uma passarela até um elevado bem no centro do estádio, onde solou sua Gibson SG por cerca de dez minutos enquanto era ovacionado pelo público e coberto por uma chuva de papel picado, num dos momentos mais emocionantes do espetáculo. A banda se despede e ninguém arreda o pé. O grupo volta para o bis com “Highway To Hell” e encerra o show com “For Those About To Rock (We Salute You)”. Ainda aturdida, a platéia é brindada por uma queima de fogos de artifício. Foram duas horas de show que pareciam ter durado alguns poucos minutos. Não é exagero dizer que foi um dos melhores shows de rock que já passaram em terras tupiniquins desde que o gênero foi inventado.

Fiquei bebendo algumas cervejas defronte ao estádio enquanto via a multidão lentamente se dispersar, em um estado de emoção e encantamento que somente um grande show pode proporcionar. Domingo que vem repeti a dose em Buenos Aires.

…em Buenos Aires

Cheguei em Buenos Aires no dia 05 de dezembro, véspera do último dos três shows da banda na cidade (02, 04 e 06/12). Durante o dia, perambulei pelo centro e diversos bairros da cidade e em todos os lugares haviam pessoas trajando camisetas do AC/DC. No início da noite, fui até a frente do Palácio Duhau Park Hyatt Hotel, onde a banda estava hospedada, e cerca de 40 ou 50 fãs aguardavam na calçada alguma aparição dos roqueiros. Como a fachada do hotel é envidraçada, todo o saguão era visível da calçada. Após cerca de trinta minutos da minha chegada, a porta de um dos elevadores se abriu e dele saíram Phil Rudd, Cliff Williams e três membros da equipe; do outro elevador saíram Malcolm Young, Angus Young, Brian Johnson e mais alguns integrantes do staff da banda. Angus, trajando uma surrada e desbotada jaqueta jeans, dirigiu-se até a porta principal do hotel e acenou sorridente para nós. Em seguida todos desceram as escadarias rumo à garagem no subsolo. Logo saiu do estacionamento uma comitiva formada por cinco vans brancas idênticas, todas com vidros pretos que impossibilitavam-nos a identificar quem estava em qual dos veículos. Na última van, alguém com uma filmadora profissional filmava os fãs na calçada.

Angus Young no show do AC/DC em São Paulo - foto de Marcelo RossiNa tarde do dia seguinte, rumei ao estádio do River Plate, onde uma multidão impressionante aguardava a abertura dos portões para o último show do AC/DC na cidade. Pontualmente as vinte e uma horas o AC/DC subiu ao gigantesco palco e um dos maiores delírios coletivos que já vi tomou conta da platéia, que saltava e gritava enlouquecida em reverência a seus ídolos. Como o repertório foi exatamente o mesmo de São Paulo, vou me abster de citar as canções e me deter na performance, que embora contando com o mesmo profissionalismo extremado da banda, pareceu ainda mais vigorosa na Argentina. Devido à fama do país de possuir o melhor e mais fanático público de rock do mundo, Buenos Aires foi escolhida pela banda para a  gravação do DVD oficial da Black Ice Tour, além de ser a única cidade do mundo a receber três espetáculos seguidos da turnê.

Estar no meio dessa multidão foi divertido e assustador. Quando todos começam a pular, não se tem a escolha de não acompanhar, mesmo se eu não quisesse (o que não era o caso), eu era levado junto com a massa. A minha volta, além dos “hermanos”, havia brasileiros, chilenos, uruguaios e paraguaios. Ainda conversei com ingleses e holandeses que seguem a banda pelo mundo. Ao perguntar a um argentino o motivo de tamanha histeria, a resposta foi curta e direta: “Temos calor humano.”

Eu já havia visto os Rolling Stones no Brasil e na Argentina e conhecia o diferencial do público portenho. Agora o fanatismo argentino, único no mundo, está sendo reconhecido pelos próprios artistas, que cada vez mais escolhem a Argentina para gravar seus vídeos oficiais de suas turnês mundiais. Madonna (Sticky & Sweet Tour 2008); Kiss (Alive 2009); The Police (2007) e U2 (2006), além das bandas Iron Maiden e Megadeth, são alguns dos nomes que escolheram Buenos Aires para gravar os DVDs de suas turnês mundiais. Segundo Débora Filc, da Time For Fun, produtora que trouxe o AC/DC para a América do Sul: “A principal razão para que elejam a Argentina é, sem dúvida, a euforia e empolgação do público, algo que não é visto em nenhum outro lugar ao redor do mundo. As filmagens que mostram o público pulando ensandecido é um fenômeno único no planeta e eleva muito a qualidade do DVD.” Maria Florência Puppo, da Sony Music, que há vários anos acompanha as estrelas internacionais pelo país, conta que já presenciou vários astros chocados e perplexos com o fanatismo argentino. Segundo Puppo: “Na hora de decidir onde gravar, qualquer produtor que assistir aos DVDs de Madonna, U2 ou AC/DC em Buenos Aires seguirá o mesmo caminho.”

AC DC em São Paulo 4 - foto por Marcelo Rossi

Apesar do câmbio adverso para os cachês dolarizados das grandes bandas internacionais, 198 mil ingressos foram vendidos para as três noites (média de 66 mil pessoas por noite), gerando seis milhões de dólares de arrecadação. O show que presenciei foi o último da parte americana da turnê. O AC/DC só voltará a se apresentar no dia 28 de janeiro na Nova Zelândia, seguindo para casa onde tocarão em Sydney e Melbourne. Quanto a mim, fico por aqui, ainda maravilhado pela oportunidade de presenciar dois super shows do AC/DC em um intervalo de nove dias. Black Ice!

Texto publicado originalmente no caderno Blitz, do jornal Diário da Manhã de Passo Fundo,
nos dias 04 e 11 de dezembro de 2009. Crédito das fotos: Marcelo Rossi, para o site Whiplash
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Maurício Rigotto, o MortoMaurício Rigotto, o Morto, foi um dos primeiros kolunistas d’Os Armênios com o seu Hebdomadário, em 2006. Um dos maiores colecionadores de discos de Rock do norte gaúcho, o escritor e DJ é também um grande especialista em cinema e literatura. Foi integrante do power trio Aliás Comemos, o mais underground do sul do país nos anos 1990.

Para ver o AC/DC duas vezes em menos de 10 dias, Maurício Rigotto foi patrocinado pela lendária agência de excursões rock Jamil Magic Bus (que não pagou jabá para ser citada nesse texto)!

Hoje, mantém um blog, além da coluna “Todas as Notas” no caderno Blitz, do jornal Diário da Manhã. É também colaborador do site Collector´s Room.

Passa todo seu tempo livre bebendo cerveja com Bob Dylan.

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1 comentário

Ednei Domareski Corvalão

Muito bem redigida a matéria, expressa fielmente o que aconteceu em São Paulo e Buenos Aires, como fã da banda, tive também a oportunidade de assistir a estes dois espetáculos e levar comigo o meu filho Leon Vitor, de apenas 13 anos, que é guitarrista e toca com grande estilo vários solos do AC/DC.
Parabéns Mauricio Rigoto
Ednei – Florianópolis/SC

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