Os Armênios

A Firma

Postado em 18 de dezembro de 2009

por Maurício Rigotto

De tempos em tempos, surgem bandas de rock formadas por membros que são notórios por já terem integrado bandas consagradas, o que imediatamente desperta um grande alarido na mídia e nos fãs, trazendo a nova banda aos holofotes antes mesmo que alguma música seja lançada. Os casos mais recentes são as bandas Chickenfoot, formada por Sammy Hagar e Michael Anthony, ambos ex-Van Halen (nunca gostei dessa banda), pelo virtuoso guitarrista Joe Satriani e pelo baterista do Red Hot Chilli Peppers, Chad Smith; e Them Crooked Vultures, que tem em sua formação Josh Homme (Queens of the Stone Age/Eagles of Death Metal), Dave Grohl (Nirvana/Foo Fighters) e o lendário baixista do Led Zeppelin, John Paul Jones. Essas bandas logo ganham a alcunha de “supergrupos”, mas será que basta colocar no mesmo time grandes músicos de renome para garantir a qualidade do novo projeto?

Em meados dos anos oitenta, ninguém menos que Jimmy Page e Paul Rodgers formaram uma banda juntos, e surpreendentemente o resultado foi desastroso.

The Firm - Cartaz

Considerado um dos melhores vocalistas de rock do mundo, Paul Rodgers surgiu em 1968 à frente da banda Free, e fez sucesso mundial com a faixa “All Right Now”. Em 1973, o Free se desfez e Rodgers, que chegou a ser cogitado para substituir Ian Gillan no Deep Purple, formou o “supergrupo” Bad Company, com o guitarrista do Mott The Hoople, Mick Ralphs, o baixista do King Crimson, Boz Burrel e o baterista do Free, Simon Kirke. O Bad Company foi o primeiro grupo contratado pela Swan Song, o selo do Led Zeppelin, e fez sucesso com “Can’t Get Enough”, faixa de seu álbum de estréia. Rodgers permaneceu nessa banda até o início dos anos oitenta.

Jimmy Page já era um renomado e requisitado guitarrista de estúdio quando entrou em 1966 para os Yardbirds, um grupo de rock inglês que figurava entre os mais respeitados do mundo e por onde já haviam passado os mestres da guitarra Eric Clapton e Jeff Beck. Com a dissolução da banda dois anos depois, Jimmy Page fundou o Led Zeppelin, banda que até hoje é considerada como uma das melhores e mais importantes que já existiu.

Naturalmente, quando se noticiou que Page e Rodgers haviam formado uma banda juntos, uma enorme expectativa se formou entre a imprensa musical e os fãs de rock pelo mundo todo. Para completar a formação, Page e Rodgers queriam o baterista Bill Bruford (Yes/King Crimson) e o baixista Pino Palladino, mas como esses estavam compromissados em suas bandas, convocaram Chris Slade, ex-baterista do Manfred Mann e do Uriah Heep, e o desconhecido contrabaixista Tony Franklin. Estava formado o The Firm, uma das grandes promessas do rock no final The Firm (1985)de 1984.

Em 1985, quando um single com a primeira música do The Firm chegou às lojas, entrou direto para a lista dos vinte mais vendidos, mas ao ouvir a canção “Radioactive”, os fãs torceram o nariz.

“Radioactive” era apenas mediana, muito abaixo do que se esperava de uma banda com Rodgers e Page. Logo saiu o LP “The Firm” e a decepção se confirmou. “Closer” abria o disco com um estranho arranjo de metais, e a estranheza estava apenas começando. Na seqüência, “Someone to Love” e “Satisfaction Garanteed” revelaram riffs exóticos de Page e um vocal sem empolgação de Rodgers. Há ainda uma chata e desnecessária regravação de “You’ve Lost That Lovin’ Feelin’” (The Righteous Brothers). O disco encerra com sua melhor faixa, “Midnight Moonlight”, um reaproveitamento de uma canção engavetada do Led Zeppelin, mesmo assim, com dispensáveis backing vocals. No ano seguinte, nova tentativa com o lançamento do segundo álbum, “Mean Business”, que se revelou um desastre ainda maior, contendo canções pouco inspiradas e banais. The Firm - Mean Business (1986)O álbum teve vendas tão medíocres quanto as suas músicas e após apenas dois concertos, a banda se separou para seus líderes investirem em suas carreiras solo.

Jimmy Page lançou o álbum “Outrider” em 1988, com John Miles e Chris Farlowe se revezando nos vocais. Depois disso gravou um disco com o vocalista do Whitesnake, David Coverdale, e dois álbuns com seu ex-companheiro de Led Zeppelin Robert Plant, além de um belo álbum ao vivo ao lado da banda Black Crowes.

Paul Rodgers lançou um disco tributo a Muddy Waters com os guitarristas convidados Jeff Beck, David Gilmour, Buddy Guy, Brian May, Steve Miller, Gary Moore, Trevor Rabin, Neal Schon, Brian Setzer e Slash. Rodgers fez uma turnê com a formação original do Bad Company e excursionou com uma banda com Slash e Jason Bonham até ser convidado por Brian May para integrar a nova formação do Queen, no lugar que outrora fora do finado Freddie Mercury. O Queen + Paul Rodgers lançou um álbum de inéditas e fez uma bem sucedida turnê mundial.

Chris Slade se uniu ao AC/DC enquanto o baterista original Phil Rudd esteve afastado da banda. Tony Franklin fundou o obscuro Blue Murder e depois sumiu do mapa.

Quanto ao The Firm, é melhor esquecer essa mancha no currículo glorioso de Jimmy Page e Paul Rodgers. A firma já nasceu falida.

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MortoMaurício Rigotto, o Morto, foi um dos primeiros kolunistas d’Os Armênios com o seu Hebdomadário, em 2006. Um dos maiores colecionadores de discos de Rock do norte gaúcho, o escritor e DJ é também um grande especialista em cinema e literatura. Foi integrante do power trio Aliás Comemos, o mais underground do sul do país nos anos 1990.

Hoje, mantém um blog, além da coluna “Todas as Notas” no caderno Blitz, do jornal Diário da Manhã. É também colaborador do site Collector´s Room.

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