Mais uma sessão psiquiátrica começa, mais uma carta do meu e teu divã, espero que leia…
por Adriana Gehlen, a Drix
Levantei, te chamei. Levaste-me pra casa. Comentou que parecia que um caminhão tinha passado em cima de ti e eu falei: idem. Desejaste-me bom dia. Tomei banho, dei umas batidinhas leves de 20 segundos ao redor dos olhos pra drenar a área, e um pouco de corretivo. Tava um trapo no trabalho, mas fingia estar ótima, era um bom dia cordial atrás do outro, as pernas moles, mas os passos seguros.
O cansaço tu bem sabe: 01:30AM. Acordou-me e veio me buscar. Falou sobre nós, sobre casamento – não comigo – e de horóscopo. Eu acredito nos astros. Falei que a gente não foi feito um pro outro no zodíaco, mas tá.
Tu queria ir buscar o celular que havia esquecido no carro, me levou pelada no colo, mas eu não ia conseguir descer daquele jeito, imagina se chega alguém?! Se bem que eu queria… Mas coloquei o vestido que estava atirado no chão, e descemos pra garagem. Beijava-me no escuro, tu de chinelo de dedo, e eu de pés descalços. No meio da escada me deste teus chinelos e descemos complacentes. Enquanto pegavas o celular, eu olhava a garagem, e por trás, dava uns tapas polpudos na tua bunda. Eu ria, como sempre. Subimos, e eu queria mais subidas assim daqui pra frente, com teu braço enganchado no meu. Depois de tanto tempo a gente perde um pouco o entrosamento, não algo significante, mas muda, o corpo vai se acostumando sem, mas naquele dia não dava pra ficar sem teu cheiro, sem você.
Ficamos loucos numa pornografia sentimental sem roupa até 04:30AM. Dormi de novo, e sonhei, sonhei sonhos violentos, e acordei antes do despertador. Eu contenho minha violência durante o dia, tento ser sempre muito gentil. Na verdade não tento, é automático, mas aí de noite eu sonho que bato, falo mal e grito. Sempre assim, inclusive quando te enfrento em mensagens ou ligações pra celular. É bom pra suprir as necessidades, mesmo que em sonho, ou em celular. Te bati e mordi também, mas isso foi real e tá longe de ser agressão. Tipo quando do nada e com uma força louca tu entraste em mim, adorei a agressão. Gosto da dupla de cama.
Não precisa confessar que me adora e que eu sei como te fazer ficar vulnerável como um garoto, e que tu seria o melhor homem pra mim. Eu sei. Mas é só na cama mesmo, fora dela tu me deixa a ver navios. E naquela hora, na cama, tu era um homem vulnerável sobre o meu comando. Que mulher fácil que fui nas tuas mãos, e que bom que tu foi homem fácil também.
É amigo…
Quantas vezes te citei Galvão, hein?! Que barbaridade. Parei pra pensar hoje, depois desses dias que passaram, nas coisas que tu me falou. E como eu fiquei sem reação, quando há dois, uma foi te beijar, e tu nem hesitou, mesmo na minha frente. Hoje me arrependo de ter as dito. Mas tá, só os íntimos escutam os meus fiascos, as barbaridades, as galvanices, a sinceridade, e tu conhece a minha intimidade em cada orifício, cada gotinha de suor, cada colar, cada crise existencial, cada história, cada mau humor, cada óleo de banho e perfume que uso.
Te tirei da minha vida já umas cinco vezes num relâmpago louco que surgia, hormônios, mau humor, tristeza. Essa deve ser a sexta carta de despedida postada oficialmente. A sexta vez porque as músicas sempre me fazem mudar de ideia, rumam pra um final feliz e eu acho que eu podia tentar tê-lo. Nunca foi o nosso caso. A gente insistia em ter uma paixão tumultuada. Sabe que esse tempo todo de apego e chiliques acabaram comigo? Saturei. Qualquer um no meu lugar, amigo. E ontem tu pediu porque, que não me entendia e falou um – te gosto. Só posso dizer que também te gosto g., mas isso é quase óbvio.
Incrível que eu chutei todos os homens que se aproximaram. E não entendo porque eu e tu sempre voltávamos atrás. Eu na esperança de conseguir só transar, só satisfazer aquele meu fogo. Mais nada. Nada de te amar durante aquele choque louco da nossa carne. Mas era impossível, era doído deixar o coração não ver quando te pegava com a boca, com as mãos e quando os meus olhos grandes te comiam por inteiro e meu nariz sugava teu perfume, teu cheiro natural. Então eu deixava o coração participar de tudo, era um ménage. Certo que sim. Tu, eu e o meu coração. Mas tu? Tu só transou. Não julgo. Nada além de transar e depois querer dormir de conchinha como um carente incontestável. Conchinha é coisa que eu não suporto, só serve pra cantar aquela frase da estrofe da música do primo. Mas tua carência era bem vinda, mesmo não me deixando dormir. Hora de dormir é sagrada, não tem que tá fazendo conchinha, não com uma germânica que nem eu.
Às vezes tu me fez ter vergonha de mim, de como uma pessoa pode ser insegura e exercitar sua insanidade todo dia de forma descontrolada, impulsiva. Danem-se os cinqüenta e poucos textos que escrevi sobre ti. Dane-se as vezes que me dilatei pra teu deleite. Agora é poeira e gozo que a chuva ou o chuveiro já levaram embora. E tu tinha todas as chances de chegar antes da água. Mas tu decidiu – bêbado – comer a bailarina. Agora devolve o livro e o meu brinco que foi parar debaixo da tua cama.
Dane-se também o arrependimento, porque ele não vai entrar em mim. Tenho orgulho de cada hora que passei contigo. Constatei isso quando na parada do ônibus hoje um rapaz sentou do meu lado e eu senti o teu perfume. Meu Deus. Coloquei a bolsa na frente do ventre, apertei minha mão contra ele, me contraí pra tentar te imaginar ali dentro e bá. Íris molhada, saudade acontece, saudade é coisa loca, amigo.
Um beijo, Filomena.
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Contornos
Adriana Gehlen, a Drix, escreve tudo o que os grandes olhos azuis veem e o coração sente. Apaixonada por literatura, faz da escrita sua existência.
Aqui n’Os Armênios, Drix escreve na koluna Contornos. Mais divagações ‘drixianas’ você encontra no blog Aquela Par Que Virou Ímpar.

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