Guillermo Arriaga: O Contador de Histórias
por Luiza Santos
Guillermo Arriaga Jordán é muito mais conhecido por seu trabalho como roteirista que por seu talento como escritor. Ainda que sua obra cinematográfica seja de valor incontestável – como podem comprovar longas como Amores Brutos e Três Enterros -, o território do mexicano é definitivamente este objeto que ele mesmo coloca como algo que beira a perfeição: o livro.

“Há algo mais perfeito que isso?”, pergunta Arriaga ao manusear um livro. E com o mesmo livro ainda em mãos, demonstra como nenhuma outra criação ou esforço tecnológico pode acabar com a supremacia do mais simples dos objetos e muito menos pôr fim à sua existência. “Posso abri-lo, fechá-lo, amassar suas páginas, dobrar, segurar debaixo do braço, virar, largar, pegar, enfim”.
E é assim, no amor exacerbado por esta entidade que chamamos de livro, que se reconhece um grande escritor. Arriaga já lançou três romances – O Búfalo da Noite, Um doce Aroma de Morte e O Esquadrão Guilhotina -, além de uma obra do gênero de contos, intitulada Retorno 201 e ainda inédita no Brasil.
Por mais que queiramos atestar sua genialidade ao fim de cada uma de suas obras literárias, o cineasta mexicano se diz ser nada além de um contador de histórias. “Busco fundamentalmente contar histórias. Quando dou aulas, pois também sou professor universitário, digo aos meus alunos que não se esforcem para serem profundos, mas se dediquem apenas a contar histórias. Se eles mesmos forem profundos, suas histórias serão profundas. Sendo assim, a única coisa que faço, humildemente, é tratar de contar histórias.”
Então, mergulhemos na profundidade de Guillermo Arriaga: vamos às histórias.
O Rei Midas da Destruição
“Várias vezes desperto sentindo em minha nuca o alento azul do búfalo da noite.
É a morte me roçando, eu sei. É a tentação de me disparar um tiro bem na testa,
de acabar com tudo: é o fogo me queimando por dentro. É a morte, bem sei.”
- O Búfalo da Noite
A loucura é o mais interessante dos estados humanos: jamais se sabe a que caminhos pode guiar os labirintos de uma mente sã, que se dizer então do labirinto destruído e confuso que pode ser a mente de alguém que desconhece os limites da realidade e que experiencia os truques da consciência como algo palpável? É em cima das possibilidades da loucura – das ações que podem se concretizar a partir do completo desequilíbrio das emoções – que se constrói o triângulo de amor & desespero entre Gregório, Tânia e Manuel. A loucura é o ponto de partida de O Búfalo da Noite: qual será a linha de chegada destes personagens?
Ainda no primeiro capítulo o leitor leva um soco no estômago: o tiro que espalha os miolos de Gregório por todos os cantos do banheiro de sua casa é o mesmo que estoura com a mente já perturbada de Manuel e Tânia. O suicídio do amigo de um e amante da outra é o desencadeador de toda a ação que segue e que se passa em um curto espaço de tempo, tendo como principal ambiente de atuação a imaginação e a loucura dos personagens envolvidos.
Fragilizado pela morte de Gregório, o relacionamento amoroso de Manuel e Tânia passa a sofrer com uma sucessão de mal-entendidos agravados pela desconfiança, pelos constantes desencontros e pela presença imposta da morte e da vida de Gregório. O passado passa a ser um personagem ativo e guia as decisões e atitudes de Manuel e Tânia, que não conseguem se desvencilhar do fantasma de Gregório. Cada um daqueles que pertencia ao circulo íntimo de convivência do suicida passa, aos poucos ou em um rompante, a assumir o papel anteriormente a ele atribuído – o de Rei Midas da destruição. Com sua morte, o Rei Midas se multiplica, dominando impérios individuais e regendo a aniquilação de qualquer migalha de sanidade.
Guillermo Arriaga consegue trazer o passado a tona de forma fragmentada e nos momentos oportunos, fazendo com que o leitor se envolva no circuito de loucura desencadeado não somente pela culpa, mas pela súbita compreensão da dimensão real do relacionamento latente que existia entre os três. O sexo é a arma usada contra a pulsão de morte que perspassa, de formas diferentes, os personagens da trama.
A obra de estreia do escritor – lançada no Brasil em 2002 – é também seu romance de maior impacto: raramente uma história consegue ser tão perturbadora a ponto de penetrar fundo e despertar a insanidade enterrada em cada um daqueles que ousaram folhear as negras páginas nas quais o búfalo se esconde à espera da próxima vítima – para esmiuçar as incoerências de cada existência, galopar incessantemente nos pesadelo das noites em que se tenta dormir, relembrar os vestígio de loucura no cotidiano e desafiar os destemidos que clamam encontrar-se eternamente no impossível estado de sanidade absoluta.
Assim é O Búfalo da Noite e assim é a corda sobre a qual constantemente tentamos nos equilibrar, imaginando que é possível atravessar a existência sem cair uma única vez no domínio alucinador da besta azulada com a qual nosso inconsciente insiste em sonhar. E o búfalo da noite vai sonhar com você.
Ditador & Manipulador
“O cadáver jazia entre os sulcos. Ramón se aproximou devagarinho, com o coração disparado a cada passo. A mulher estava nua, caída de rosto para cima sobre uma poça de sangue. Assim que a viu, ele não pôde mais tirar os olhos de cima dela. Em seus dezesseis anos, várias vezes já sonhara contemplar uma mulher nua, mas nunca imaginara encontrá-la daquele jeito. Mais com assombro do que com luxúria, percorreu com o olhar a pela suave e inerte : era um corpo jovem. Com os braços estirados para trás e uma das pernas ligeiramente dobrada, ela parecia pedir um abraço final. A imagem o transtornou. Ele engoliu em seco e respirou fundo. Percebeu o doce aroma de um perfume floral barato. Teve vontade de dar a mão à mulher, levantá-la e mandá-la para com aquela mentira de que estava morta. Ela continuo nua e quieta. Ramón tirou a camisa – sua camisa de domingo – e cobriu-a o melhor que pôde. Ao se aproximar, reconheceu-a: era Adela, e tinha sido apunhalada pelas costas.”
- Um Doce Aroma de Morte
O trágico e o cômico estão realmente separados por uma linha tênue: em grande parte dos acontecimentos cotidianos, o desesperador e o hilário não apenas se misturam, mas são parte integrante de uma mesma situação. Assim é também no livro Um Doce Aroma de Morte: uma série de mal-entendidos – que insistem em acontecer e seguem sem ser desmentidos – criam uma situação que além do caráter transtornador acaba por se tornar risível. Fossem os dúbios personagens do romance um pouco mais planos – sem a marcada e intrigante ambigüidade que demonstram ao longo da trama – e uns poucos esclarecimentos teriam acabado com qualquer perspectiva de uma obra envolvente.
Mas Ramón, personagem central da obra, não padece do mal da obviedade: quando seus cuidados com a falecida Adela são confundidos com paixão, longe de negar qualquer envolvimento com a moça que vira uma única vez em seus dezesseis anos de existência, ele obstinadamente aceita o fardo de vingar a morte de sua recém descoberta amada. E aí então as pequenas comédias e tragédias da vida privada de cada um dos habitantes de Loma Grande começam a ser reveladas, em pequenas doses metodicamente ministradas a um leitor incapaz de largar o vício da droga.
É nesta obra que Arriaga faz jus e coloca em prática a herança literária que disse receber de autores como o estadunidense William Faulkner e o mexicano Juan Rulfo. A narrativa não linear e com diversos pontos de vista é a principal marca do romance, que, assim como a obra Pedro Páramo – uma das duas únicas que Rulfo publicou em vida – só permite que o leitor entenda a história como uma unidade ao termino do livro.
Este é o fator que torna o desenrolar da trama tão interessante: Arriaga se revela um escritor ditador & manipulador, que só conta aquilo que quer sobre seus personagens – e na hora que bem entende -, criando desastrosas armadilhas textuais para o leitor impaciente. Então, que o mexicano siga ditando as regras, pois de nenhuma outra forma seria possível arquitetar o clima único de mistério – que ao mesmo tempo envolve e causa repulsa, assim como o aroma doce do perfume de Adela -, capaz de guiar o leitor através das peculiaridades daquele pequeno vilarejo mexicano onde morte e vida se confundem.
- Leia aqui o primeiro capítulo de Um Doce Aroma de Morte.
Sobre História & Ficção
“Mandou trazer um tambor zacatecano para amenizar o evento. A pracinha foi enfeitada com adorno de papel de seda e distribuíram confetes e serpentinas aos assistentes. Numa cela improvisada, situada num canto escuro do mercado local, os dez riquinhos eleitos por Villa soluçavam desconsolados.
A guilhotina, personagem central do dia, foi decorada profusamente. Na lâmina tinha sido pintada a imagem do general Villa e um lado e a de Francisco Madero do outro. Nas vigas foram colocadas bandeirinhas que se agitavam ao compasso do vento. No travessão colocaram-se jarros de barro, nos quais floresciam belas rosas vermelhas.”
- O Esquadrão Guilhotina
Escrever um romance com um pano de fundo histórico tão marcante quanto a Revolução Mexicana sem ficar preso à uma temática temporal e distante é um desafio para qualquer escritor. Sem medo das particularidades históricas, Guillermo Arriaga – que também é formado em história – introduz uma boa dose de ficção no México do início do século XX, em seu romance O Esquadrão Guilhotina.
O fantástico e o inusitado encontram o leitor logo nas primeiras páginas: parece provável que, cerca de duzentos anos depois de sua carnificina na Revolução Francesa, a guilhotina seja aperfeiçoada por um burguês mexicano que decide subir um pouco mais na pirâmide social vendendo sua “criação” para um durão general revolucionário? Pois é justamente sobre este argumento que se constrói a inacreditável trama de Arriaga, capaz de levar três cidadãos sem quaisquer valores morais e com ideais um tanto quanto elásticos à se unirem a causa das classes.
Feliciano Velasco y Borbolla é apenas mais um mexicano que tem uma vida relativamente confortável – e que não possui nenhuma simpatia pelo movimento revolucionário, mas que, como bom investidor, sabe vislumbrar uma boa oportunidade de aumentar sua renda anual. É assim que Velasco e seus dois companheiros, Juan Álvarez e Júlio Belmonte, são incorporados à Divisão do Norte, do temido General Pancho Villa – que com astúcia percebe o poder de persuasão da guilhotina e também uma forma de recompensa pelo artefato que não seria negada por nenhum dos três indivíduos de duvidosa valentia. Assim nasce o Esquadrão Guilhotina de Torreón, sob o comando de um assustado, flexível e recém nomeado Sargento Velasco.
O que é ficção e o que é realidade estão de tal forma mesclados que, em determinados momentos, o leitor já não consegue separar completamente esses dois lados de uma mesma moeda. Sim, pois a essência da história esta na forma como é representada por aqueles que vivenciaram e pela maneira como isso será refletido nas gerações posteriores – e o imaginário popular acaba povoado pelas lendas e não pelos dados. Este é justamente um dos pontos que Arriaga ressalta em sua obra.
“Falo de história porque sou historiador. Na época em que fiz mestrado em história, meus professores estavam obcecados pelo dado histórico, mas para mim o mais importante não é isso, e sim como uma sociedade vê o seu passado, isso é história. Nesse tempo os historiadores estudavam a contabilidade das fazendas de algodão… Nunca aprovaram minha tese de mestrado, que refletia esse pensamento diferente. Então, simplesmente me vinguei de todos com O Esquadrão Guilhotina. Nunca houve, em toda a Revolução Mexicana, uma guilhotina, mas agora muitos historiadores chegam a acreditar que sim.”
Lançado apenas no ano passado – Arriaga esteve na FLIP 2008 para divulgação da obra -, o trabalho foi o primeiro romance escrito pelo autor e, por isso, revela alguns traços de um Arriaga ainda pouco maduro quando comparado à outros títulos como Um Doce Aroma de Morte. Mas é justamente neste resquício de um escritor iniciante (O Esquadrão Guilhotina foi escrito há mais de vinte anos) que reside a força do enredo, traduzida através do humor. O caráter cômico concede à história uma leveza – mesmo quando esta revela grandes verdades e expõe em suas páginas cada defeito renegado do ser humano em caricaturas extremamente cativantes.
- Leia aqui o primeiro capítulo de O Esquadrão Guilhotina.

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