Repolho in colóquio
A banda Repolho acaba de lançar no último mês, exclusivamente pela internet, o álbum Vol. 4. O disco foi disponibilizado pel’Os Armênios, Senhor F e Pisces Records. Em pouco tempo, bateu os recordes de downloads de todos esse sites.
Desencalhando uma série de raridades, outtakes, faixas inéditas e pérolas ao vivo, o resultado final parece um daqueles títulos malucos dos Mothers of Invention, só que feito por um bando de colonos. Porque, apesar de não tocarem nada, a galera do Repolho é tão linda quanto os Mothers…
Reconhecidos como uma das bandas mais criativas e originais do rock independente brasileiro, o Repolho foi sabatinado pel’Os Armênios. O resultado você confere aí embaixo ó. Mas antes, não deixa de baixar o disco!
Garras – Se quiserem desconsiderar alguma pergunta, sem galho.
Roberto – Não queremos. Acho foda isso de desconsiderar perguntas. Perguntas deveriam ser sempre consideradas.
Demétrio – Esse povo que trabalha na TV é tudo igual.
Garras – Vai parecer coisa de drogado, mas eu queria que VOCÊS incluíssem uma pergunta pra responder.
Roberto – Como assim coisa de drogado? (óli a pergunta) Tu nunca assistiu o Pretinho Básico (programa da rádio Atlântida) eles vivem falando que o Repolho não usa droga. E a resposta é simples. O Repolho é uma droga. Um dia vão descobrir os efeitos que isso causa no ser humano e vão proibir as pessoas de ouvir. Enquanto isso vamos atazanando todo mundo.
Demétrio – Garras, se eu bem entendi o que tu quer dizer com drogado, acredito que o único que tem razão de ser é o Casão. Imagina só, dez anos na TV implorando pra ser técnico do Corinthians e não conseguiu. Só podia ter feito o que fez, não há organismo que resista tanta falta de sensibilidade do mundo.
Os Armênios – Recentemente o presidente da Colombia Records afirmou que o Vol. 4 foi liberado na internerd porque nenhuma gravadora quis aceitar os malucos da cabeça do Repolho. O que vocês tem a dizer sobre o assunto?
Roberto – Devemos tudo o que somos as gravadoras. O fato deles terem recusado o nosso trabalho acabou por criar a estética da “Colonagem Cibernética”. E isso aconteceu em 1995. Foi a última vez que procuramos uma gravadora em função do lançamento da demo “Campo e Lavora”. Acreditávamos que daria certo. Até o Miranda (irmão da Susan Boyle) deu uma força, daí a gente ficou se achando pra caralho. Mas depois percebemos que nunca um disco do Repolho sairia por uma gravadora. Imagina a gente na Hebe cantando a música “porcona” e ela dizendo: nossa!!! esses guris são umas gracinha. Uns colonos tão limpinhos é tão lindinhos. E as véia aplaudindo. Não ia dar certo. Depois disso relaxamos total. Em todos os aspectos. Se tivéssemos sido aceitos por uma gravadora provavelmente teríamos lançado uns discos de merda, mas que fariam muito sucesso e hoje estaríamos comendo pilha junto com o Rafael Ilha embaixo de uma ponte qualquer de uma cidade grande.
Demétrio – Isso tudo é o Roberto que está falando, cobrem dele depois, em especial a parte em que ele diz que é amigo do Rafael Ilha, hehehe. Pois bem, falando sério um pouco, dá pra dizer que as gravadoras estão colhendo os frutos que plantaram, transformaram um bando de qualquer coisa (pra não dizer outra coisa) em “artista” (um mundaréu de aspas aqui), como se a chamada “cultura brasileira” se resumisse a essa meia dúzia de cantores baianos (vejam, nada contra aos bahianos, minha dissertação de mestrado é sobre o Tom Zé), de pagodeiros, de duplas sertanejas e afins, minimizaram os artistas em favor dos produtores e transformaram a música (e as artes em geral) em um balaio de gato: as gravadoras atrás de dinheiro, os produtores com seus olhos clínicos tentando transformar um monte de cantores de barzinho em artista. A merda estava feita (vide os produtor e os cagalhão), padronizaram tudo por baixo, só que o filão está acabando, não porque as pessoas se tornaram mais ou menos inteligentes (exigentes ou coisa do gênero), apenas porque os interesses são outros.
Os Armênios – Mas e aqueles porquinho do encarte? São de colônia? Parecem meio mutantes…
Roberto – Sim, são mutantes. Não existe mais porco verdadeiro. É tudo fabricado em laboratório. Se olhar direito vai perceber que um é o Sérgio o outro é Arnaldo e aquela com a bunda pra cima é a Zélia Duncan. A Rita Lee resolveu não participar da foto. Aliás, somos muito fã de Mutantes e o Arnaldo é um iluminado monstro do amor. Precisava dizer isso.
Demétrio – São da colônia e são mutantes. Até a colônia está contaminada. Depois que a Embratel disponibilizou sinal para que todos os lares do Brasil tivessem condições de ter o seu aparelho de TV, não existe mais essa história de cultura popular, de folclore, de tradição. A colonada está carpindo o lote e de olho no sorteio do carne do baú. Fazer salame é coisa do passado. Pra que trabalhar? Entrega os porquinhos que a Sadia faz e te devolve embalado e personalizado.
Os Armênios – Qual a faixa predileta de Vol. 4 e porque?
Roberto – Faixa preta. Porque é mais forte e dá um pau em todas as outras faixas.
Demétrio – A coisa que acho mais legal com o Repolho é que trabalhamos a idéia de um disco. É recorrente perguntas do tipo, “qual é a faixa de trabalho?”. Isso é uma coisa que nunca soubemos dizer pois acreditamos que o disco se constrói faixa a faixa (que bonito, né!).
Os Armênios – Benga em Liverpool (faixa do Vol.3) elimina menos gases prejudiciais que Benga na Alemanha. Isso revela uma preocupação da banda com temas ambientais nesse novo trabalho?
Roberto – Não existe gordo ecologicamente correto. Só pelo fato de ser gordo já prejudica o meio ambiente. Com o tipo de alimentação do sul, pior ainda. Ocupamos mais espaços que as pessoas “normais”, jogamos mais lixo na natureza, e peidamos mais alto que qualquer outro ser do planeta. Sim, vamos arder nas chamas do inferno junto com o planeta. Encontro vocês todos lá.
Demétrio – Acho que não, a Benga é uma instituição (vide Leandro Blessmann) e se espalhou pelo mundo. Somos apenas divulgadores dessa idéia que atingiu com a Benga na Alemanha o seu momento mais explosivo (gaseificado, por assim dizer). E a Benga em Liverpool, até pela temática que aborda, parece naturalmente mais leve, mas não é.
Os Armênios – Aqui em Passo Fundo, a galera que assistia Wayne’s World cresceu acreditando que precisava fazer um festival de Rock. Criaram o Armênios on Fire, mas nunca comeram ninguém. Tem um sampler sacado desse clássico da sétima arte no novo álbum. A pergunta é: em Chapecó, algum grupo já tentou transmitir via satélite um videoclipe para a limousine de um importante magnata das telecomunicações?
Roberto – Queria que esse sampler fosse colocado no Vol 2, mas acabamos não colocando. Fiquei com isso na cabeça e resolvi colocar agora. Wayne’s World é muito bacana e a frase se encaixa perfeitamente na música. Chapecó tem um monte de xamãs. São os espíritos dos antigos indígenas mortos pelos desbravadores que destruíram a região. Ah! e a estátua que tem ao lado da igreja, supostamente um desbravador com um machado na mão e um ramo de qualquer coisa na outra, não é o Coronel Bertaso. É o Júpiter Maçã. O X gigantesco que corta a cidade (e pode ser observado no encarte do cd do Repolho) é a bandeira da Inglaterra. E se o Jim Morrison tivesse nascido no Brasil seria colono e moraria em Chapecó, ao lado do estádio do verdão do oeste e comeria cachorro quente no Janga. Quanto a proposta de festival, já organizamos algumas coisas. Uma vez quiseram reunir um povo maluco para fazer um Chapestock, como não passava de 12 pessoas resolveram fazer um torneio de truco com seis duplas. O ganhador levava pra casa um facão com uma letra de música do Xirú Missioneiro cravado na lâmina.
Demétrio – Dentre tantos shows que organizamos, o que tinha mais cara de festival foi o primeiro e único Shop-ei-dança. Conseguimos até apoio da prefeitura da cidade, coisa rara. O evento começou a ser pensado como algo grandioso, que pretendia trazer o melhor da cena independente brasileira. Os únicos que acreditaram na história foram o pessoal da Graforréia e o festival de uma noite só foi um sucesso, casa lotada. Foi o show em que o Girino se apresentou dentro de uma caixa de geladeira. Deixa eu tentar explicar melhor: o girino dentro da caixa de papelão de geladeira cônsul e o baixo do lado de fora, tocou duas músicas, as outras ele ficou chamando o técnico para consertar o congelador.
Os Armênios – Roberto, nossas leitoras querem saber, como você mantém essa forma tão bela? É só goma e Fanta Uva ou você tem algum segredo secreto?
Roberto – O importante é a forma. O conteúdo ficou pra traz faz tempo. Inclua aí na dieta dos Panarotto: pipoca doce, teta de nega, bergamota e choco-leite. Fiz um exame de sangue outro dia e acusou índices altíssimos de açúcar. Ou seja, além da grossura tradicional agora até o sangue é grosso e doce. O dia que eu morrer os vermes vão dizer: chegou a sobremesa. Paramos com os shows porque o médico disse que não é pra eu me mexer muito. Outro dia fui me abaixar pra amarrar o tênis e quase me deu uma parada cardíaca. Depois disso só uso alpargatas.
Demétrio – Depois da resposta do Roberto eu não falo mais nada, quase me deu uma parada cardíaca de tanto rir.
Os Armênios – Será que a Conrad só publicou Bob & Harv prá aproveitar a onda em cima do filme O Anti-Herói Americano?
Roberto – Claro. Me parece tão lógico quanto a pergunta anterior. Nesse exato momento, Harvey Peakar deve estar se revirando na sua Limosine.
Demétrio – Se nós estamos desencalhando o material que havia ficado preso no nosso HD, porque razão a Conrad não iria fazer o mesmo? Com a diferença que ao menos eles devem estar tirando uns troco com essa história e nós pelo jeito não.
Os Armênios – Na opinião de vocês, como vão ficar as aulas de catequese depois do Genesis de Robert Crumb?
Roberto – Eu fiz catecismo. Mas depois que eu cresci comecei a freqüentar certos antros de diversão noturna e descobri a minha professora de catecismo num deles. Culpa do Robert Crumb. Já o Genesis é uma coisa que eu ainda não entendi a sua gênese. Principalmente essa coisa do Peter Gabriel ter saído para dar aulas de catequese.
Demétrio – Aula de catequese vai ser igual a vida inteira, e o problema é que a gente se esforça pra produzir uma boa piada sobre catequese e não dá, não tem o mesmo efeito que a piada de quem fez aula de datilografia (seis meses catando milho e não serve pra nada). Eu pensava que as duas eram coisas do passado, mas pelo jeito não são.
Os Armênios – E o filme de Watchmen? O que acharam?
Roberto – Foda pra caralho!!! Levei o gibi pro cinema e ia lendo a história e ouvindo o áudio. As teorias da cultura convergência é isso. Fazer sexo, assistir televisão, twiitar uma mensagem a cada gemido e cortar as unhas ao mesmo tempo. E cauda longa é a bunda da Gretchen. Ela já era vanguarda na década de 80.
Demétrio – Se o Roberto tá falando deve ser bom, a última vez que fomos discutir quadrinhos a banda quase acabou. E concordo com a segunda parte da resposta, pois a Simoni, aquela do balão mágico, que tomava pílula desde pequena pra não ficar velha, tá tentando imitar a velha da Gretchen e não consegue. Mas quem deve por a mão na consciência nessas horas é o Jairzinho. Quem mandou ele segurar a Simoni no dia em que ela tentou se jogar do balão depois que descobriu que a Vovó Mafalda e o Papai Papudo não eram a mesma pessoa.
Os Armênios – Chapecó tem uns sebos legais, né? Da última vez que estive aí comprei uns Xis-Men ali na frente da Pasteca. O que vocês andam lendo?
Roberto – O maior sebo do mundo é o sebo ambulante. O Tom Zé chama de doido de Irará e toda cidade tem os seus. Aqui tem o chocolate, o mudo, o vaca o pedrinho punk. O que eu estou lendo? Adoro ler cardápios. Tu encontra cada coisa. Chapecó é o único lugar do mundo que existe o X-T popularmente conhecido na cidade como Xis Tiken (frango em chapecolones). E isso não é piada.
Demétrio – Eu nunca dei sorte nos sebos de Chapecó, e pode parecer nostalgia, mas acho que os sebos no Brasil estão perdendo o charme, virou negócio (como a maioria das tentativas de se lidar com o livro). Não se fazem mais de amantes de livros (se é que isso exista), mas de pessoas que viram nesse meio uma maneira de se ganhar dinheiro, aí tu entra em um sebo e pede o preço de um livro que o cara nem sabe o que é e não faz questão de saber, aí ele digita o nome do livro no site da estante virtual e te vende pela média de preço que o site sugere; comércio, nada mais do que comércio, até nas coisas aparentemente simples o comércio parece mais forte que qualquer outra tentativa, tem que dar retorno para pagar imposto para rodar a cadeia da prece financeira.
Os Armênios – Cutiram o Haih ou Amortecedor?
Roberto – Essa pergunta eu vou ter que cortar fora. Não faço a menor idéia do que você está falando.
Demétrio – Eu também não sei e estou com a internet fora do ar para procurar informações sobre.
Os Armênios – Para o porte da cidade, a cena cultural de Chapecó é bem articulada e produtiva. Vocês atribuem isso a que? Seria um fator econômico que permitiria ao público consumir? Vocês se acham responsáveis pelo desenvolvimento dessa cena?
Roberto – Não somos responsáveis por nada. Ser irresponsável é muito mais fácil. Mas temos o costume de propagar a idéia de que somos colonos de interior em contra partida aos colonos de capital que executam o caminho inverso. Se agente acha bonito a rodoviária, as listras pintadas nos cruzamento e as luzinhas piscando. Eles acham bonito as vaca, porco, galinha e o mato característico da região (também conhecido como turismo rural). E Chapecó é interior do estado que é interior do Brasil e que é interior do mundo. Vivemos no interior e é legal porque não somos atingidos pela chuva de pedra recorrente na região. Em terra de gringo que tem uma moeda só, não gasta com nada. Voltando a pergunta, sim a cena se desenvolveu. E sempre tem pessoas legais em Chapecó que promovem algo, desde a década de setenta. Sempre priorizando essas questões referentes a um trabalho autoral. O Tyto Livi é pioneiro do compacto independente no Brasil. O Paranóia Já tocava em Chapecó na década de setenta sempre com composições próprias. Na década de 80 o Gilmar Guerreiro teve a música “Chimarrão” censurada por falar abertamente de erva mate (Tema polêmico na época). O Atta Sexdens era uma banda punk hardcore que barbarizava as apresentações da Rádio Atlântida. O Nexus foi gravar com o Ira! Depois disso veio o Repolho, que surgiu de um marasmo total em relação a tudo. Um período em que as coisas estavam meio de vagar. É mais fácil olhar para o abismo e se jogar nele. Foi o que fizemos sem medir as conseqüências. Resultou em algo. E nesse sentido começamos movimentar algumas a cidade trazendo artistas de fora e fazendo parcerias. Rolou com a Graforréia, Ultramen, Tom Zé, Los Hermanos, Aristóteles de Ananias Jr., Os Massa, Playmobillis, Júpiter Maçã entre outros. Isso sem contar nas inúmeras bandas da cidade que deram seqüência nisso tudo. É um trabalho em conjunto.
Demétrio – a cidade de Chapecó (como outras da região) está a 450 km de Porto Alegre, 490 Km de Curitiba e a 600 KM de Fpolis, ou seja, mais perto das outras capitais da região sul do que da própria capital do estado. Está distante 1.350 km de Buenos Aires, 1.320 de Montevidéu, 780 de Assunção, e 2.400 de Brasília (longe, né? É quase outro planeta), a mesma lógica, mais perto das capitais dos demais países do Mercosul do que da capital do Brasil. O povo que migrou para Chapecó, no início do século XX, foi a procura de dinheiro, e o boom econômico da cidade se dá a partir da década de 70, quando a TV é o grande charme das casas brasileiras, ou seja, um povo, como tantos outros espalhados pelo mundo, educado pela TV, em que o que a TV fala parece regra, para todos os assuntos e, é claro, para os de ordem artístico/cultural, se-tá-na-telinha-é-bom, coluna social na veia. Fiz uma abordagem à grosso modo para dizer que paralelo a isso – a esse marasmo do povo que se reúne na avenida pra ver os caros rodarem e pra falar da vida dos outros -, tem o povo que se mexeu (que se mexe) para fazer algo, como se ficasse com medo de parar no tempo. Nós cansávamos de sair de Chapecó nos fins de semana, de ir até Curitiba e Porto Alegre para acompanhar shows, mas pra visitar uma série de coisas que a cidade não nos oferecia. Inclusive fomos até passo Fundo mais que uma vez assistir show no Capingui, dos Titãs (que horror, viu que todo mundo tem um passado obscuro), lançamento do Jesus Não Tem Dentes e do Õ Blésq Blom, procurando fugir da mesmice da cidade que nos incomodava, melhor, que nos incomoda até hoje. E essa mesmice nos incomoda não apenas por ser Chapecó, a cidade que nascemos, mas porque se reproduz em vários lugares, e isso nós percebemos de várias maneiras, só para citar um exemplo, quando saiu a primeira dêmo do Repolho, com a letra da música Chapecó, e que ela começou a circular por aí, recebíamos cartas de vários lugares do Brasil dizendo que a situação (que relatávamos na letra) se reproduzia praticamente do mesmo jeito nesses sertões longínquos do Brasil, um apequenamento pra vender (e consolidar) algo que nos una sob o chapéu de “brasileiros”, e olha que isso não é de hoje, o que nos leva a crer que não deixamos o romantismo do século XIX, que se mostra hoje, é claro, com outra faceta.
Os Armênios – Pessoalmente, se vocês tivessem que escolher uma banda preferida dentre as da cidade (podem ser as que já saíram de lá), qual vocês gostam mais?
Roberto – Gostamos do Repolho, por isso que tocamos nela. Brincadeira. Gostamos de todas. Somos amigos de todos e não queremos mais encrencas com ninguém. As minhas preferidas são: Mongo Mongo Tongo, Os Parmita e o Paranóia.
Demétrio – Os Parmita, Guerreiros de Escada e Atta Sexdens e mais um mundaréu de coisas que nós adoramos que pra nós funciona como se fosse de Chapecó também.
Os Armênios – Tito Livi na rotação errada é melhor que as Shaggs?
Roberto – No mesmo nível. Essa história é verídica. Ouvíamos o disco do Tyto Livi em rotação 45. E não sabíamos que existia uma rotação normal. Achávamos engraçado um disco com o Pato Donald colono, mas muito hardcore. Depois que descobrimos a velocidade normal perdeu um pouco a graça. Mas como o Tyto (o nome original dele é Ortenilo, sensacional né?) é amigo nosso voltamos a gostar. Queríamos gravar um tributo. Tipo esses discos que o Beck está re-gravando inteiro e distribuindo na internete.
Demétrio – Crianças descobrindo o rock (cada um descobre como quer ou como pode,hehe). Pra nós uma festa, completamente diferente das outras coisas que escutávamos. E quando o Roberto disse que paramos de escutar, foi até o momento em que descobrimos o Aristoteles de Ananias Jr. (a banda do Birck pós Graforréia), e para nós, de uma certa maneira, parecia igual ao Tyto Livi que escutávamos quando éramos crianças, só que na rotação normal, claro que é uma aproximação simplória para dizer o que nos aproximou ainda mais daquilo que é as doenças do Frank e do Birck.
Os Armênios – O que vocês entendem pelo rótulo “roque gaúcho”?
Roberto – É um rótulo né. E rótulo serve para edificar algo. Os gaúchos começaram a fazer algo na década de 80 que era totalmente diferente do que acontecia no resto do país. Levando em conta o trabalho do Defalla, Graforréia Xilarmônica, Smog Fog, Cascavelletes, as propostas da Vórtex (vanguarda total) entre outros. Jornalista já é meio lento e lida com um público que é mais lento ainda. Precisava identificar de alguma forma esse rock que vinha do sul. Por isso criou-se o rótulo de “Rock Gaúcho”. Termo óbvio. O rock feito em Porto Alegre não era muito bem compreendido. Achavam escrachado demais, engraçadinho e por aí vai. Mas não podemos negar que é de uma criatividade impar. Não acho ruim nem bom o rótulo. Como eu falei, é um rótulo. Mas acho que é datado. Não se pode utilizar esse termo para identificar o que se faz hoje lá. Até porque a cidade perdeu muito a peculiaridade que tinha em relação as possibilidades criativas. A globalização está deixando todo mundo interessando em querer aparecer e ganhar dinheiro antes de ter uma proposta musical bacana. Mas enfim… a discussão é longa.
Demétrio – acho que o Roberto resume um pouco essa tentativa do mundo de, para se aproximar das coisas, rotular, rock disso, rock daquilo, música prá surdo depois dos oitenta, música prá quem usa meia de bolinha só no pé esquerdo, música prá cego que só consegue cortar as unhas do pé direito porque quando tenta cortar as do esquerdo tem a impressão de que vai cair, música prá cabeludo, música prá cabeludo que usa brinco, música prá cabeludo que usa brinco e é tatuado, música prá quem não consegue fazer cocô em outro banheiro que não o da sua casa, e por aí vai. Seria rótulo demais, e como não caberia etiqueta nas prateleiras, reduz-se a uma meia dúzia (aquilo que se torna fácil de explicar pras massas. Uns funcionam os outros não, e a carroça segue com o cavalo se babando todo.
Os Armênios – Pra terminar, querem mandar um beijo prá quem?
Roberto – Pode ser pra qualquer pessoa??? Vou mandar pra Scarlett Johansson (que deve ser leitora dos armênios). Sempre sonho que eu sou o Bill Murray no filme Encontros e Desencontros. Só que sem a lenga lenga. Mais ação e menos papo. Sempre que acontece isso acordo bem e o meu dia é muito mais alegre.
Demétrio – Acho que não.
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