Dossiê “Let It Bleed”
por Marina de Campos &
Rodrigo de Andrade (GARRAS)
Fazem exatos 40 anos que o Let It Bleed foi lançado na Inglaterra. Nos EUA, o disco chegou às lojas um dia depois. E hoje, mesmo tendo passado tanto tempo, o álbum continua como um monólito: um dos melhores e mais importantes títulos na extensa discografia dos Rolling Stones.

É um trabalho extremamente peculiar e o último lançamento da banda nos anos 60. Não era apenas uma transição de décadas, mas no interior do próprio grupo. Era o primeiro disco de inéditas após a saída de Brian Jones — primeiro líder e fundador dos Stones, falecido na metade daquele ano —, apesar dele figurar em duas faixas. Também, Let It Bleed marcava a estréia de seu substituto: o jovem Mick Taylor, que também apresentava suas habilidades em apenas duas faixas.

Mesmo sendo um composto de faixas oriundas de momentos diversos, sem uma unidade criativa por trás do grupo, ninguém sequer se atreve a acusá-lo de ser “apenas um apanhado de canções”. Cada momento tem um brilho tão forte que ofusca. Apesar de todo seu entorno — ou justamente por causa dele — Let It Bleed foi criado em meio ao período mais fecundo da história da banda. E redefiniu seu espírito e trajetória — fazendo dos Stones um grupo ainda mais sombrio e decadente — para a década seguinte.

Nesse especial, em comemoração aos 40 anos dessa obra, Os Armênios traçam um breve histórico de Brian Jones: figura fundamental na trajetória da banda, que sai definitivamente de cena nesse álbum. Na sequência, há uma análise detalhada do disco, faixa por faixa, ilustrado com preciosos depoimentos de músicos e estudiosos contemporâneos que são influenciados pelo LP. Segue com uma breve resenha de outros artefatos — filmes, discos, livros, compactos — que retraram o momento e se relacionam organicamente com esse importante trabalho dos Stones. Por fim, um documento original de época, uma significativa resenha jornalística — que extrapola o campo da crítica e se assenta dignamente no âmbito do jornalismo literário — demonstrando que, desde o seu surgimento, Let It Bleed já se firmou como uma peça artística chave na história da música e a obra símbolo do final dos lendários anos 60.
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Brian Jones: o beatnik de Cheltenham
Ele foi o líder fundador dos Rolling Stones. E se a banda se vale da mítica em torno da figura do rebelde marginal como a personificação dos ideais do rock’n’roll, a verdade é que Brian Jones nunca precisou encarnar tal papel. Desde o início ele foi um autêntico outsider.
Nascido em Cheltenham, no interior da Inglaterra, Lewis Brian Hopkin Jones era filho de uma professora de piano. Começou a tocar com 10 anos, aos 12 já era o clarinetista principal da orquestra de sua escola e com 15 já fazia dinheiro tocando saxofone todo fim de semana em uma banda de jazz. Como um autêntico beatnik, colocou o pé na estrada, fugindo de sua cidade natal aos 16 anos de idade. Escapava também da responsabilidade de ser pai, deixando sua namorada de 14 anos com um filho no colo. Viveu como mendigo por um período na Escandinávia, até que voltou para Londres, onde descobriu o blues e se integrou no circuito musical local, apresentando-se em inferninhos e cafés universitários.
Quando Mick Jagger e Kieth Richards o conheceram, em 1962, ficaram impressionados não apenas com a primeira execução de slide guitar que eles presenciavam, mas principalmente com aquele indivíduo loiro. Brian tinha a mesma idade que eles, tocava de maneira surpreendente, já havia passado por um sem número de bandas, vivia de sua arte, morava sozinho, tinha três filhos e nenhuma esposa, havia perdido o contato com a família e se metia em brigas freqüentes, muitas vezes por furto. Parecia um personagem dos filmes de James Dean. Isso tudo enquanto Jagger e Richards ainda moravam com os pais.
Logo os Rolling Stones surgiram e tinham aquele marginal como figura de ponta. Com um QI de 137 — acima da média —, Brian tinha uma visão única sobre a música e uma facilidade impressionante para dominar, pelo autodidatismo, uma série de instrumentos. Se Mick Jagger passou meses tentando aprender a tocar gaita harmônica, Jones não precisou mais que meia hora. Enquanto o beatle George Harrison foi para Índia ter aulas de cítara com Ravi Shankar, Brian começou a tocar o instrumento sozinho. Era o responsável por trazer o toque de originalidade que diferençava sua banda de tantas outras que infestavam os inferninhos da Swinging London. Suas contribuições musicais nas composições dos Rolling Stones se tornavam referências citadas por artistas do porte de Eric Clapton, John Lennon, Ray Davies, Bob Dylan e Jimi Hendrix.
Mas não era nada fácil ser Brian Jones. Desde o início sofria fortes ataques dentro de seu próprio grupo, permanecendo em constante disputa pela liderança da banda. O controle da coisa começou a escapar de suas mãos quando o núcleo criativo das canções foi se centrando na dupla Jagger & Richards. Sentia-se inibido por tantos músicos de relevo o apontarem como o gênio do grupo, cobrando por suas contribuições.
Aliado a tudo isso, há o triste fato dele ter sido um dependente químico — algo que debilitava a sua já frágil saúde —, e pela sua posição, vivia cercado de pessoas que lhe ofereciam todas as drogas disponíveis o tempo inteiro. Era outro fator que, emocionalmente, lhe deixava em frangalhos. Foi preso mais de uma vez por porte de drogas. O outro ponto que lhe desestabilizava eram as mulheres. Jones tinha sérios problemas em lidar com o sexo oposto, e várias vezes foi acusado de agressão. O músico nunca superou a perda de seu grande amor — a atriz, modelo e bruxa Anita Pallenberg — para o colega de banda, Keith Richards.
Assim como sua ascensão, a queda de Brian foi meteórica. Afundado em drogas, desestabilizado emocionalmente, encrencado na justiça… O artista estava num estado em que não conseguia mais produzir. O golpe final foi a expulsão da própria banda que ele havia criado. No mês seguinte, no dia 3 de julho de 1969, Brian Jones foi encontrado morto, na piscina de sua casa, em circunstâncias até hoje não esclarecidas. No final do ano — 28 de novembro de 2009, exatos quarenta anos atrás — os Rolling Stones lançavam Let It Bleed, um impressionante disco de transição com as últimas contribuições de Brian no grupo e a obra símbolo de sua época.
Ao lado de outros gigantes lendários do rock que faleceram cedo demais, todos num curto espaço de tempo — Jimi Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin — Brian Jones se diferençava não só por ser inglês, mas se destacava por ter precedido e influenciado os demais.
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Um disco, um retrato: Sexo sujo, violência gratuita e uma capa quase perdida
Let It Bleed chegou às lojas um dia antes do sombrio concerto de Altamont. Era o último trabalho de estúdio que o grupo produzia para a Decca Records. Devia ter sido lançado antes, mas houveram problemas com a mixagem e atrasos na pós produção.
A capa não era a aprovada para o projeto. Mas a arte original (de autoria de Andy Warhol, mostrando uma calça Levis feminina, enquanto o disco traria uma calcinha com os dizeres “Deixe Sangrar”) fora perdida na bagunça do escritório dos Rolling Stones. Sua concepção foi usada para o álbum seguinte, Sticky Fingers (1971). A saída foi criar uma nova capa às pressas. Robert Brownjohn foi o idealizador e Delia Smith quem produziu o “bolo”. O título quase foi alterado para Automatic Changer.
As sessões do álbum haviam começado no início do ano. Tendo em vista o resultado alcançado em Beggars Banquet (1968), a banda continuou com Jimmy Miller na produção, numa parceria prolífica que iria se estender por mais álbuns. De início, vários esboços foram registrados, muitos deles sendo apenas temas instrumentais. Algumas dessas canções não voltaram a ser trabalhadas, ou então tomaram corpo e foram aparecer apenas em Sticky Fingers. Dentre elas, pode-se citar títulos como Aladdin Story, French Gig, I Was Just A Country Boy e Jimmy Miller Show. Das faixas que acabaram entrando no álbum, Midnight Rambler começou a ser trabalhada desde o início. Entre os esboços que viriam a se transformar em músicas efetivas estão Give Me Some Shelter — que evoluiria para Gimme Shelter — e If You Need Someone — que se transformaria na faixa título do disco.
Entre abril e maio de 1969 aconteceriam muitas sessões de estúdio para o álbum. Daí também resultaram uma série de faixas e esboços que nunca foram finalizados para integrar um registro oficial. Entre elas estão as seguintes composições de Jaggers e Richards: Curtis Meets Smokey, Jiving Sister Fanny, Black Box, Mucking About, So Fine, Toss The Coin, The Vulture e When Old Glory Comes Along. Chegaram ainda a gravar uma faixa de Bill Wyman, Downtown Suzie, e uma cover: I Don’t Know Why, de Stevie Wonder.

Justiça seja feita: Keith Richards assume papel fundamental em Let It Bleed. Como bem nota o crítico francês Bas-Rabérin, em virtude da ausência quase completa de Brian Jones — já desde o trabalho anterior — e a presença ainda pouco decisiva Mick Taylor, o lendário guitarrista original da banda se esmera na execução, alcançando aqui um domínio e qualidade sonoras que talvez seja o mais perfeito no conjunto da obra dos Stones. Mais de uma vez, ele se encarrega de várias partes de guitarra em uma mesma composição. Quando o grupo mais precisou, lá estava Keith Richards em seu auge!
O álbum que chegou às lojas no final do ano (no dia 28 de novembro na Inglaterra e 29 de novembro nos EUA) continha 9 canções. Os críticos reclamaram que seu conteúdo era de “sexo sujo, sadomasoquismo, drogas pesadas e violência gratuita”. Esperavam o que de um lançamento dos Rolling Stones? Canções sobre flores do campo e o azul do céu?
Confira abaixo detalhes preciosos sobre cada uma das faixas.
- Gimme Shelter
Vocais: Mick Jagger, Keith Richards e Mary Clayton
Guitarra: Keith Richards
Bateria: Charlie Watts
Baixo: Bill Wyman
Percussão: Jimmy Miller
Harmônica: Mick Jagger
Piano: Nicky Hopkins
Gravada no Olympic Studios, em Londres, entre fevereiro e março de 1969. No mês de outubro, os vocais de Mary Clayton foram adicionadas em Sunset Sound & Elektra Studios, de Los Angeles. É provavelmente a canção mais famosa do álbum, e permaneceu por anos na setlist das turnês da banda.
Oh, uma tempestade está ameaçando
Minha própria vida hoje
Se eu não arrumar algum abrigo
Oh yeah, vou ser arrasado
Cara! Stones, sem muitas palavras para descrever esses velhos Dinossauros do Rock. Acho que palavras não dizem completamente o que eles nos fazem sentir. É algo que apenas um bom copo de whisky 12 anos e um cigarro, sentado na varanda no meio da chuva, podem tentar transmitir. Mas falando do Let It Bleed que completa 40 anos… Pôxa, baita álbum. Falar de Gimme Shelter, que é a primeira do trabalho? Nossa, sem palavras. São 4 minutos e 32 segundos de descanso e, ao mesmo tempo, de uma porrada na tua cabeça. Timbres de guitarras alucinantes e melodias que nos transmitem uma paz e uma vontade de viver na cidade de Dartford Kent, lá no Reino Unido, que é a cidade dos grandes Mestres Stones. A canção são embalos calmos e porradas do mais puro ROCK no teu ouvido!
— Gabriel Bertolo
Vocalista da banda Tapete Persa
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- Love In Vain
Vocal: Mick Jagger
Guitarra: Keith Richards
Bateria: Charlie Watts
Baixo: Bill Wyman
Bandolim: Ry Cooder
No LP original, a faixa vinha creditada de maneira equivocada como sendo de autoria de Woody Payne — provavelmente um nome fictício. Depois, foi apontada pela banda como sendo uma canção tradicional, até ser admitida como uma cover de Robert Johnson.
Quando o trem chega a estação
E eu a encarei nos olhos
Ò, me senti tão mal e solitário
Que não pude deixar de chorar
Música escrita e gravada pelo blueseiro maldito Robert Johnson em 1936. É a segunda música do álbum e a mais linda balada da historia do rock. Keith Richards toca com todo sentimento e amargura que só alguém como ele conseguiria. Numa época de transição dos Stones, com a saída de Brian Jones e a entrada de Mick Taylor neste disco. Richards eternizou a “guitarra stones” o colocando como o rockman da historia ao lado de seu ídolo Chuck Berry.
— Lucas “Cabelo” Hanke
Guitarrista da banda Identidade
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- Country Honk
Vocais: Mick Jagger Nanette Newman e Keith Richards
Violão: Keith Richards
Guitarra Slide: Mick Taylor
Bateria: Charlie Watts
Violino: Byron Berline
Country Honk é a versão original do single Honky Tonk Women, lançado cinco meses antes do álbum. A versão do compacto teve seu arranjo alterado logo no primeiro ensaio com o guitarrista Mick Taylor. Mesmo sem saber que estava sendo testado para entrar no grupo, ele apresentou uma idéia original que satisfez imediatamente a banda. Acabou sendo gravada naquele mesmo dia.

Alguns meses depois, em Los Angeles, a versão original foi registrada com a participação de Byron Berline no violino. O músico fazia parte da banda de Gram Parsons. Segundo depoimentos de Jagger & Richards, a inspiração para a composição veio da música de gaúchos que eles conheceram quando estiverão em Matão, no interior de São Paulo, na virada de 1968 para 1969.
Estou sentado em um bar entornando uma jarra em Jackson
E nas ruas o sol de verão brilha
Há um bando de vadias de bar que eu tive em Jackson
Mas parece que não consigo beber até te tirar da cabeça
A primeira coisa que me vem à cabeça quando ouço Country Honk é a versão dela sendo tocada no show histórico do Hyde Park (1969), em que Mick Taylor estreou na banda. A emoção com pitadas de improviso é sensacional! Bela canção dos Stones, muito feeling com letra curta e direta. Sem dúvida é um eterno clássico do rock mundial.
— André “Baga” Nicaretta
Baterista da banda Variantes
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- Live With Me
Vocal: Mick Jagger
Guitarras: Mick Taylor e Keith Richards
Bateria: Charlie Watts
Baixo: Keith Richards
Piano: Leon Russell e Nicky Hopkins
Sax Tenor: Bobby Keys
Trompas: Arranjo por Leon Russell
Gravada no dia 24 de maio de 1969. É um número que ganha força em shows ao vivo. O baixo foi composto e executado por Keith Richards, e é muito semelhante ao de Bitch, faixa lançada no álbum de estúdio seguinte. Foi a primeira participação de Bobby Keys como saxofonista do grupo. Uma parceria que iria se repetir dali em diante por incontáveis discos e turnês da banda. A letra contém referências a um fato real, em que Keith teria “caçado” ratazanas em um pequeno riacho, nos fundos de sua residência rural. Depois, as criaturas foram preparadas e servidas para o jantar.
E há um grande número de crianças desmioladas
Estão todas trancafiadas no berçário
Elas têm fones de ouvido nas cabeças
Elas têm pescoços sujos
São tão Século 20
Elas fazem fila pro banheiro
Por volta das 7:35
Não achas que precisamos de um toque feminino
Para dar vida a tudo isso?
Lembro de uma fase dos meus dezoito anos em que eu só ouvia discos que tivessem sido lançados até 1969. Queria conhecer todo rock produzido nos anos 60 e o excelente Let It Bleed dos Rolling Stones entrou nessa. Eu tocava numa banda que fazia cover de Rolling Stones e Beatles, chamada Beatlestones, e Live With Me entrou diretamente no repertório por ser um rockão que inicia com uma linha de baixo do Keith Richards que tem o poder de conduzir praticamente a música toda, deixando as guitarras livres para poderosos riffs e sem compromissos com a “base”, no melhor estilo Keith de tocar. A voz do Jagger chega sem muita preocupação com melodia, e sim com muito “punch”, deboche e letra arrogante, até chegar um refrão explosivo de apenas três acordes, que Jagger e Keith cantam a plenos pulmões do cigarrão! O solo é reponsabilidade de um saxofone furioso de Bob Keys. Então mais um refrão e se encaminha pro final, dessa vez com um baixo “pedal” abrindo as portas para um fade out. Ficou claro que estava impossível de acabar devido a velocidade que pega a sonzera! Pensei na hora “É assim que se faz um rockão de verdade”! Vai pra PUTA QUE O PARIU!
— Maurício “Fuzzo” Chaise
Guitarrista e vocalista da banda Locomotores
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- Let It Bleed
Vocal: Mick Jagger
Guitarra: Keith Richards
Bateria: Charlie Watts
Baixo: Bill Wyman
Piano: Ian Stewart
Autoharpa: Bill Wyman
A faixa título é a última do lado A do LP. É a única participação de Ian Stewart no álbum (o pianista é o “sexto stone”, e nunca foi “oficializado” na banda porque era velho, feio e gordo). A letra bem explícita, cheia de referências diretas a sexo e drogas.
Todos precisamos de alguém com que possamos sonhar
E se você quiser isso, baby, bem, você pode sonhar comigo
Sim, todos nós precisamos de alguém com que possamos gozar
E se você quiser, baby, bem, você pode gozar em mim
Let it Bleed, dá nome ao disco e é clássica. Já te pega de cara! Puro rock’n'roll com tudo que tem direto. Violão na base inicial e os instrumentos entrando até a explosão de solos e improvisos bluesy no piano. Marca o início da fase com Mick Taylor e seus slides perfeitos na guitarra. Música com a marca registrada dos Stones, com pegada e ritmo pra ouvir alto e dançar! Adoro ouvir no carro com minha gata, na estrada.
— Fábio Elias
Guitarrista e vocalista da banda Relespública
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- Midnight Rambler
Vocal e harmônica: Mick Jagger
Guitarra: Keith Richards
Bateria: Charlie Watts
Baixo: Bill Wyman
Percussão: Brian Jones
Essa música foi chamada por Keith Richards de uma “blues ópera”. A letra é inspirada nas confissões do estuprador e assassino Albert De Salvo, o Estrangulador de Boston (foto ao lado). As duas guitarras foram gravadas por Keith. E a percussão, creditada a Brian Jones, é pouco audível. Foi uma das primeiras faixas registradas para o álbum.
E se alguma vez você pegar o vagabundo da meia noite
Eu roubarei sua amante debaixo de seu nariz
Eu vou fácil com seu dentes à mostra de raiva
Eu vou enfiar minha faca embaixo da sua garganta, baby
E vai doer!
Que honra poder falar algumas palavras dessa música e desse disco dos Stones. Um dos melhores álbuns deles, sem dúvida. Blues e belas melodias. Lançado na época violenta do Vietnã… Gimme Shelter pra eles… Mas minha música é Midnight Rambler. Bá!!!! Música nervosa, maliciosa, sensual. O começo parece sampleado. Podemos dizer que usam isso nos dias de hoje, essa galera do rap. Eles fizeram em 1969, muito bom. Depois entra um blues nervoso, a harmônica bem maliciosa de Mr. Jagger e a frase inicial da letra: “Voce já ouviu falar do vagabundo da meia noite?”
Há! Há! Há! Há! Há! Essa levada blues-rock dos Stones não tem pra ninguém. É única! E depois, na metade, acelera o beat. Aí, meu amigo, o cara sai da casinha escutando. Mantra na veia da guitarra do Keith. Sexo sujo, saca? Rock, puro, dedo na cara! A letra é excelente: o vagabundo da meia noite. Quem nunca foi por uma noite? Safado, sujo, bêbado, espírito rockeiro de carteirinha. Pro cara pirar é um prato cheio. Eu escutei esse disco quando tinha uns 25 anos. Confesso que meio tarde… Mas faz me lembrar de noites do caralho que tive quando solteiro. Essa música foi composta nas férias tranquilas que os stones fizeram na Itália. Há! Há! Há! Há! Há! Com certeza eles aprontaram por lá.
— Júlio Sasquatt
Baterista das bandas Reverba Trio e Blackbirds
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- You Got The Silver
Vocal, violão e guitarra: Keith Richards
Bateria: Charlie Watts
Baixo: Bill Wyman
Autoharpa: Brian Jones (instrumento ao lado)
Piano e órgão: Nicky Hopkins
Talvez o primeiro registro da banda que entrou no álbum. Chegaram a gravar uma versão com Jagger nos vocais, mas no final foi descartada. A faixa foi incluída no filme Zabriskie Point, de Michelangelo Antonioni. A interpretação tradicional afirma que essa é uma canção de amor escrita por Keith para Anita Pallenberg. Ele havia roubado a moça do antigo namorado, que era ninguém menos que seu colega de banda, Brian Jones.
Entretanto, um biógrafo garante que a música é sobre Bob Dylan! O cantor tinha o dom da poesia que o transformou no compositor mais notável da sua geração (como diz o ditado, a palavra é de prata) e enriqueceu numa proporção superior aos outros roqueiros da época, pois além dos discos vendidos, arrecadava ainda em royalties pelas composições gravadas por outros artistas, fazia incontáveis shows, nunca foi um junkie ou sustentou padrões de vida luxuosos e não precisava dividir lucros com colegas de banda. Ele tinha a prata e o ouro, e segundo uma entrevista concedida por Richards, o judeu já havia deixado isso claro para toda a elite do rock inglês na época.
Você tem meu coração, você tem minha alma
Você tem a prata, você tem o ouro
Você tem os diamantes tirados da mina
Está tudo bem, isso comprará algum tempoDiga-me, querida, o que fará
Quando eu estiver com fome e sede também
Sentindo-me um tolo, e isso com certeza
Apenas esperando aqui na porta de sua cozinha?
Tendo recebido elogios por sua perfomance nos vocais em You Got The Silver (do impecável Let It Bleed), Keith Richards saiu-se com uma tirada espirituosa como sempre: “Vocês querem que eu cante mais? Então Jagger irá fazer o quê? Passar o resto da vida comprando cigarros para mim?” Humor a parte, esta faixa é exemplo de como os melhores momentos de uma banda de rock podem passar desapercebidos do grande público: instrumentação fina e cheia de sutilezas, espontaneidade a flor da pele, o vocal emocionado e tocante de Keith nos momentos finais da canção, tudo isto eleva a ressonância emocional do ouvinte ao máximo nos parcos minutos desta música. E aqui está a essência dos Stones: música comunicativa em todos os níveis, não havendo lugar para burocratas da música!
— Rodrigo Nassif
Violonista
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- Monkey Man
Vocal: Mick Jagger
Guitarras: Keith Richards
Bateria: Charlie Watts
Baixo e vibrafone: Bill Wyman
Piano: Nicky Hopkins
Pandeireta: Jimmy Miller
Um dos maiores rockões do álbum. A faixa começou a tomar forma quando a dupla compôs algo que chamaram de Positiano Primo, quando estavam de férias na Itália, em 1968. A versão do disco foi gravada em abril de 1969. Enquanto alguns especulam que a letra tenha sido escrita sob o efeito de drogas, na verdade ela referencia outras composições da banda — como Jigsaw Puzzle — e de maneira particular Pistol Slapper Blues, uma canção do blueseiro Blind Boy Fuller.
Bem, Eu espero que não sejamos tão messiânicos
Ou um tanto quanto satânicos
Nós amamos tocar blues
Dia destes, num filme, a pessoa perguntava sobre a sensação de usar heroína, e o viciado disse: “A primeira vez é como beijar Deus! Uma sensação indescritível, que você procura eternamente e não consegue repetir nunca”. Sou ateu e não queria beijar deus nem que acreditasse nele. Mas concordo que algumas sensações procuramos repetir a vida toda. Monkey Man fez isso comigo. Aquela introdução do Nicky Hopkins já avisa para algo bem mais séria que esta para acontecer. Aí o riffmaster Keith acaba com seu sossego detonando com uma das guitarras mais tesudas de Let It Bleed. E o ciumento Jagger para não ficar por baixo manda um vocal poderoso e convincente quando Keith entra em devaneio com aquela slide guitar que nos leva junto sabe-se lá para onde. Uma das minhas preferidas do álbum e uma das minhas Top Ten dos Stones. E creia, eu tenho todas as musicas oficiais e centenas de piratas em minha estante de vinil. A única vez que me aproximei de novo da sensação de ser possuído por uma música desta forma foi quando ouvi a mesma, ao vivo, no primeiro show da Tournee Voodoo Lounge. Desde então, venho procurando aqui e acolá por algo para me satisfazer de novo… Quem sabe sai um outtake dela no Alternate Let It Bleed que esta cruzando o oceano neste momento rumo a minhas mãos?
— Fred Cesquim
Colecionador, stonemaníaco e proprietário da
Record Collector, especializada em vinis raros.
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- You Can’t Always Get What You Want
Vocal: Mick Jagger
Guitarras: Keith Richards
Bateria: Jimmy Miller
Baixo: Bill Wyman
Piano, trompas e órgão: Al Kooper
Percussão: Rocky Dijon
Arranjo para coral: Jack Nitzsche
Vocais: The London Bach Choir, Madelaine Bell, Doris Troy, Nanette Workman
Uma canção incrível! Há quem diga que seria uma resposta — algo típico dos Stones — para Hey Jude, dos Beatles. Se for, nessa os Stones saíram ganhando. A música foi lançada, em uma versão editada, sem o coral, como lado B do single Honky Tonk Women. Registrada nos dias 16 e 17 de novembro de 1968, é a gravação mais antiga presente em Let It Bleed.
Você nem sempre pode conseguir aquilo que quer
Mas se você tentar às vezes, você pode descobrir!
Mmm! Você consegue aquilo que precisa.
A última faixa do álbum mais country dos Stones. Excelente! Maravilhosa! A melhor música do universo! O hino de uma geração, com um dos refrões mais belos de todos os tempos: “You can’t always get what you want! But if you try sometimes you might find, You get what you need”. Bá, deuzulivre! A música composta Jagger e Richards fala sobre a atmosfera social dos anos 60, abordando temas como sexo, drogas e movimentos políticos. A faixa conta com diversas participações especiais como The Back Choir de Londres nos corais de início e fim, Al Kooper no piano, órgão e trompa. A bateria é tocada por Jimmy Miller, o então produtor do Stones. Diz a lenda que Charlie Watts não conseguia fazer o “groove” da música. Rocky Dijon tocou Conga e Maracás, e a atriz norte-americana Nanette Workman gravou os backing vocals. Belíssima forma de fechar o disco: com uma das mais belas canções de todos os tempos. Meu amigo Jagger costuma dizer que é uma “bedroom song”, porque gosta de tocar ela no violão.
— Leonardo “Alemão” Marmitt
Baixista da banda Reino Elétron Doméstico
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Satélites Sangrentos
Em torno de Let It Bleed orbitam uma série de outros títulos que se relacionam organicamente com o álbum. Confira abaixo que peças são essas.
Honky Tonk Women
O single de julho de 1969 (capa ao lado) trazia uma versão mais rocker que o arranjo original da canção, que só seria conhecido no álbum, com o título de Country Honk. No lado B do compacto, a versão editada de You Can’t Always Get What You Want, sem o coral. O título antecedeu o lançamento de Let It Bleed em vários meses, e oficialmente foi o primeiro registro disponibilizado com a presença de Mick Taylor como integrante da banda.
- Gimme Shelter
Esse impressionante documentário mostra a incrível turnê americana de 1969. Culmina com o trágico concerto gratuito em Altamont, onde a gangue de motoqueiros Hell’s Angels (contratados para cuidar da segurança do evento) espanca a platéia, as bandas de abertura e assassina um espectador na frente das câmeras. No filme, as cenas são mostradas aos Rolling Stones, que comentam sobre os fatos apresentados. O título já foi amplamente comercializado no Brasil, tanto em VHS quanto em DVD, nas bancas, com diversas capas.
Confira o trailer abaixo:
- Get Yer Ya-Ya’s Out!
A tour que os Rolling Stones empreenderam pelos EUA naquele ano foi de proporções homéricas, sendo aclamada como “a primeira turnê mítica da história do rock”. Grupo não fazia excursões internacionais desde 1966, principalmente em virtude dos problemas judiciais dos integrantes, envolvendo porte de drogas. Havia uma grande demanda pelos shows, e uma vontade enorme da banda em empreender tal digressão. O grupo percorreu 17 cidades dos Estados Unidos. Em 1970, lançaram um ótimo álbum ao vivo, com o áudio extraído de duas apresentações. O disco era Get Yer Ya-Ya’s Out!, um LP simples com 10 faixas.

Agora em novembro de 2009 foi lançada uma versão expandida do título. Get Yer Ya-Ya’s Out! -- The Rolling Stones in Concert 40th Anniversary conta com 3 LPs, 3 CDs e 1 DVD (foto acima).
- Live’r Than You’ll Ever Be
Supostamente, o primeiro disco pirata da história da música seria um bootleg como áudio extraído do show no Oakland Coliseum, na terceira apresentação da tour de 1969. A qualidade da gravação ficou tão espantosa que se especula se não foram os próprios Rolling Stones que promoveram a maracutaia.
Com o título de Live’r Than You’ll Ever Be, a bolacha vinha numa capa totalmente branca (foto ao lado), sem dar a menor indicação de quem era o registro. No selo do disco, havia apenas os dizeres “The Greatest Group On Earth” junto com o título das faixas presentes em cada lado.
Um estudioso afirma que o LP vendeu tão bem (mesmo tendo sido comercializado “atrás do balcão” das lojas) que poderia ter ganho disco de ouro. Com o decorrer dos anos, várias versões diferentes do título foram aparecendo no mercado.
- Jamming With Edward!
Certo dia durante as sessões de Let It Bleed, por volta de maio de 1969, Keith Richards faltou às gravações. Nesse dia, Mick Jagger, Bill Wyman, Charlie Watts, Ry Cooder e Nicky Hopkins aproveitaram para brincar e gravaram uma série de faixas. Todas foram compostas pelo trio Watts-Cooder-Hopkins, exceto duas covers: It Hurts Me Too, de Elmore James, e Interlude a la El Hopo, de Juventino Rosas. A letra de It Hurts Me Too teve modificações feitas por Jagger, que incluiu versos de Pledging My Time, de Bob Dylan.
As faixas ficariam guardadas até 1972, quando seriam lançadas num LP intitulado Jamming With Edward!, que teria uma boa repercussão nos EUA. No caso, o Edward seria Nicky Hopkins. Confira abaixo a lista completa das músicas e, ao lado, a capa do disco.
Lado A
1. The Boudoir Stomp (5:13)
2. It Hurts Me Too (5:12)
3. Edward’s Thrump Up (8:11)
Lado B
4. Blow with Ry (11:05)
5. Interlude a la El Hopo [incluindo
The Loveliest Night of the Year](2:04)
6. Highland Fling (4:20)
- Let It Bleed Book: The Rolling Stones 1969 U.S. Tour, by Ethan Russell
Talvez o título mais impressionante relacionado à fase Let It Bleed seja um dos lançamentos mais recentes. A Rhino Records editou em duas versões luxuosíssimas a obra Let It Bleed Book: The Rolling Stones 1969 U.S. Tour, do fotógrafo Ethan A. Russell, que acompanhou a turnê da banda pela América.

A versão mais em conta e sem charme do livro, que tem mais de 400 páginas, custa apenas US$ 650. A versão deluxe sai por US$ 950 (fora o frete e os 60% a mais de imposto taxado quando entra em nosso país). Ambas são limitadas e não devem demorar muito para esgotar. Como você nunca vai passar nem perto de um exemplar, aproveite e lamba o monitor do seu computador ao acessar o site oficial do título CLICANDO AQUI.
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Please allow me to introduce… Greil Marcus
No dia 27 de dezembro de 1969, a edição número #49 da Rolling Stone Magazine trazia Mick Jagger estampado na capa junto com os dizeres: The Stones’ Grand Finale. Dentro, um texto de Greil Marcus — respeitado jornalista, famoso por redefinir os parâmetros da crítica musical e por abordar o rock enquanto fenômeno social, introduzindo-o ao meio acadêmico — promovia um balanço da década que se encerrava ao mesmo tempo em que resenhava, com grande categoria e conhecimento de causa, o álbum Let It Bleed.
Esse mesmo texto foi publicado no Brasil em 2006, abrindo A Última Transmissão, uma coletânea de artigos escritos por Greil Marcus.
É desse incrível relato que extraímos o excerto abaixo. O fragmento de um documento jornalístico da época, sobre esse mítico trabalho dos Rolling Stones.
O fim dos anos 60
Let it Bleed é o último álbum dos Rolling Stones que nós veremos antes que os anos 60, prestes a terminar, se transformem em 70; ele tem a arte de capa mais vagabunda desde Flowers e uma lista de créditos que parece ter sido editorada por uma gráfica do governo. Os tons das músicas são ao mesmo tempo obscuros e perfeitamente claros; as letras são ininteligíveis e muitas vezes introspectivas. Os Stones como banda e Mick Jagger, Keith Richards, Mary Clayton, Nanette Newman, Doris Troy, Madelaine Bell e o London Bach Choir como cantores às vezes carregam as canções para muito além de suas letras. Há o vislumbre de uma história -- e pouca coisa mais.
Com Live With Me, Midnight Rambler e Let it Bleed, os Stones se pavoneiam vestindo suas máscaras assumindo papéis já conhecidos. Em Monkey Man eles se submetem grandiosamente à imagem que têm carregado por quase toda a década:
All my friends are junkies!
(That’s not really true…).[Todos meus amigos são viciados!
(Isso não é realmente uma verdade...)]Escondidas no meio das faixas mais cintilantes, encontram-se músicas à espera de um ouvinte que as alcance: You Got the Silver, de Keith Richards, é um revival de Love in Vain, de Robert Johnson. Mas são a primeira e a última faixas de Let it Bleed que contam qual é a história que temos aí.
Gimme Shelter e You Can’t Always Get What You Want desmentem o brutalismo de Midnight Rambler e as riquezas fáceis de Live With Me. Os anos batem à porta: foi um longo caminho de Get Off My Cloud até Gimme Shelter, de (I Can’t Get No) Satisfaction até You Can’t Always Get What You Want. Um novo mapa está sendo traçado; a velha postura de arrogância e desdém não foi apagada, mas está borrada. Antigamente os Stones eram conhecidos como o grupo que iria sempre dar uma boa mijada, como nos velhos tempos, num posto de gasolina dos velhos tempos. Agora, porém, Jagger canta assim:
I Went to the demonstration
to get my fair share of abuse…[Fui até a demonstração
para receber minha parte de abuso]Gimme Shelter é uma canção sobre o medo: provavelmente serve melhor que qualquer coisa como passagem direta até a próxima década. A banda evolui sobre a melhor melodia que eles jamais encontraram, adicionando instrumentos e sons aos poucos até as explosões de baixo e bateria escorregarem sobre a primeira crista da música e encontrarem os uivos de Jagger e Mary Clayton, uma cantora negra de estúdio de Los Angeles. É um encontro cara a cara com todo o terror que a mente consegue juntar, movendo-se rapidamente sem jamais brecar, para que homens e mulheres tenham que vencer o terror em seu próprio passo. Quando Clayton canta sozinha, tão alto e com tanta força que você acha que seus pulmões estão estourando, Richards a enquadra com riffs medidos, pressionados, que passam queimando pelo emocionalismo dela e arremessam a música de volta ao julgamento distanciado de Jagger:
It’s just a shot away, it’s just a shot away (…)
It’s just a kiss away, it’s just a kiss away.[Está apenas a um tiro de distância, está apenas a um tiro de distância (...)
Está apenas a um beijo de distância, está apenas a um beijo de distância]Você sabe que um beijo só não é suficiente.
Você se lembra das garotas dos Stones — digamos, aquela operadora de máquinas simples, dengosa (ou “gulosa”) em The Spider and the Fly ou, no mesmo sentido, a garota lá em casa que disse ao cantor “Quando você acabar seu show, vá para a cama”? Elas ainda estão por aí em Let it Bleed, vestindo suas máscaras -- todas as cozinheiras e domésticas, andar de cima e no de baixo, todas as strippers do Crazy Horse e socialites de Londres em Live With Me, ou as vítimas desfiguradas do Midnight Rambler. Mas as verdadeiras mulheres nessa música parecem ser pessoas que conseguem gritar como Mary Clayton -- mais duronas que todas as garotas pulando para fora das velhas orgias dos Stones, sabendo algo que os malandrões não sabem. É isso que torna Gimme Shelter tão chocante -- ela bate dos dois lados, sem qualquer sorriso, sem qualquer enrolação, nada a segura. É uma busca pelo futuro contido no presente; os Stones nunca fizeram nada melhor.
(…)
Essa época e o colapso de sua brilhante e frágil liberação são o que os Rolling Stones deixam para trás com a última canção de Let it Bleed. Sonhos de ter tudo, agora, se foram; o disco acaba com uma música sobre compromisso com o que você quer, com uma celebração do aprendizado de levar o que você pode levar, talvez mesmo o que você merece, porque o tempo passou, e as regras mudaram. Há alguns anos, a nova classe operária de Londres e a aristocracia classe-média do pop foram à luta por exatamente o que eles queriam, e eles conseguiram — mas ninguém pode viver de uma memória, uma memória daquela sensação de domínio que nos tomou em, quando foi? 65? 66? Se Gimme Shelter é uma canção sobre o terror, You Can’t Always Get What You Want busca a satisfação na resignação. Esse tipo de objetivo não é o que fez os ouvintes de uma pesquisa, realizada alguns anos atrás em todo o país, elegerem Satisfaction, por unanimidade, a maior canção de todos os tempos — mas as estações de rádio não fazem mais esse tipo de pesquisa. Hoje em dia o conforto da unanimidade não existe mais. É você quem tem que ir atrás dessa canção.
You Can’t Always Get What You Want trata-se de uma das produções mais extremas jamais montadas por uma banda de rock’n'roll, e cada uma de suas notas funciona: a altiva e virginal introdução de Bach Choir, o movimento lento da trompa e do órgão de Al Kooper, uma lembrança de sua levada em Like a Rolling Stone, de Bob Dylan (há quatro anos, mas que parecem séculos); o dedilhado de Keith Richards; e então o primeiro verso e o refrão de Jagger, cantando quase sem acompanhamento. Daí em diante a música se dissolve e se reconstrói em espasmos, começa e recomeça em um espírito de tragédia e fadiga e termina com otimismo e exuberância totais. É um filme, tanto quanto Blow Up — começando e terminando com uma festa numa mansão em Chelsea, o cantor encontrando uma mulher detonada de tão chapada, que ela aparentemente conhece de outros tempos, quando tudo em volta era muito diferente. A música se move daí para a batalha nas ruas, para a batalha nas ruas e a revolta política como se fosse simplesmente um outro show, e daí para a cena mais estranha de todas. O cantor está numa farmácia em Chelsea, esperando na fila por seu remédio. Ele puxa conversa com um homem muito mais velho -- parece ser alguém que já viu nas redondezas, mas com quem jamais falou. O velho está nervoso, detonado. Ele poderia ter 60 anos de idade, ou 35. O cantor tenta ser simpático, educado; talvez ele se veja refletido no rosto do velho, talvez não. Mas o velho quer alguma coisa do cantor. Ele sussurra. Não dá para saber se ele diz bed ou death, mas de repente há um sorriso na voz de Jagger, como se ele tivesse esperando durante anos por esse momento. O cantor se vira para o velho com uma sacada que pede mais um refrão: “I said, you can’t always get what you want”.
Daí em diante, claro, é de volta para a festa.
Em Let it Bleed você pode encontrar todos os papéis que os Rolling Stones já encarnaram – garanhões, fanfarrões, criminosos rebeldes, donos de harém, cavaleiros da vida acelerada -, uma década de poses. Mas no começo e no fim existe uma abertura para os anos 70 – mais difícil de engolir, um vinho bem mais forte. You can’t always get what you want ecoa em Gimme Shelter; essas canções não pretendem mais dominar as pessoas, mas buscam um domínio incerto sobre as situações bem mais desesperadas que os anos por vir estão prestes a impor.
Greil Marcus -- Rolling Stone, 27 de dezembro de 1969
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Fontes:
ANDERSEN, Christopher. Jagger: não autorizado -- sem cortes. São Paulo: Harbra, 1993.
BAS-RABÉRIN, Philippe. The Rolling Stones. Coimbra: Centelha, 1981.
DIMERY, Robert. 1001 discos para ouvir antes de morrer. Rio de Janeiro: Sextante, 2007.
EWING, Jon. The Rolling Stones: “dito e não dito”. São Paulo: Melhoramentos, 1997.
MARCUS, Greil. A última transmissão. São Paulo: Conrad, 2006.
RIBEIRO, Márcio. Pedras Rolantes Não Criam Limo: A História Impopular dos Rolling Stones. Em: Whiplash.
All Music Guide
Whiplash
Wikipedia
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Essa época e o colapso de sua brilhante e frágil liberação são o que os Rolling Stones deixam para trás com a última canção de Let it Bleed. Sonhos de ter tudo, agora, se foram; o disco acaba com uma música sobre compromisso com o que você quer, com uma celebração do aprendizado de levar o que você pode levar, talvez mesmo o que você merece, porque o tempo passou, e as regras mudaram. Há alguns anos, a nova classe operária de Londres e a aristocracia classe-média do pop foram à luta por exatamente o que eles queriam, e eles conseguiram — mas ninguém pode viver de uma memória, uma memória daquela sensação de domínio que nos tomou em, quando foi? 65? 66? Se Gimme Shelter é uma canção sobre o terror, You Can’t Always Get What You Want busca a satisfação na resignação. Esse tipo de objetivo não é o que fez os ouvintes de uma pesquisa, realizada alguns anos atrás em todo o país, elegerem Satisfaction, por unanimidade, a maior canção de todos os tempos — mas as estações de rádio não fazem mais esse tipo de pesquisa. Hoje em dia o conforto da unanimidade não existe mais. É você quem tem que ir atrás dessa canção.
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