As Portas Entreabertas de Guillermo Arriaga
por Luiza Santos
Leitor que é leitor é também um pouco diretor de cinema: entre uma página e outra, cada pequeno detalhe ganha colorações particulares – sejam cenas de ação, suspense ou drama, é inevitável deixar-se correr pelas planícies desconhecidas de um bom romance. E é assim que o cinema nasceu muito antes que alguém pudesse concebê-lo como algo físico, séculos a frente da tecnologia e das invenções humanas.
Quando o primeiro leitor abriu um livro e deixou, por alguns instantes que fosse, a realidade na qual estava imerso – aí estava a primeira película, que um único individuo assistiu. Ou talvez tenha sido ainda antes, quando as histórias persistiam apenas na tradição oral, mas desde então já eram palavras, eram sons, eram imagens. Era literatura. E literatura sempre foi um mundo a parte – a parte e a frente de qualquer engenhoca do mundo moderno: até hoje um bom livro é ainda mais que palavras, que sons, que imagens. Um bom livro tem cheiro, tem textura, tem cores, tem gosto: envolve o leitor e todos os seus sentidos, o deixa encurralado em um canto escuro & o faz perder-se em um labirinto do qual não se pode – e nem se quer! – sair. Não existe piedade nesta arte de subverter a realidade àquilo que se bem entende.
E então, não é a literatura a porta entreaberta de uma outra existência? Não importa se a contam com palavras escritas, com sons ou com imagens: basta um empurrão e voilà! Perde-se o chão e não há nada que se possa fazer. Ao menos foi esta a idéia que o escritor e cineasta Guillermo Arriaga defendeu na 13ª Jornada Nacional de Literatura: cinema também é literatura, sim.
“Creio que o que faço é literatura, não importa se no livro ou no cinema. O ato de fazer cinema é apenas a circunstância, tudo começa na obra escrita. Se tu escreves uma obra que se busca no cinema, com as mesmas qualidades que possa ter um romance, é mais fácil de seduzir diretores, atores, produtores, enfim, conseguir rodar um filme.
Acredito que a arte é sedução, atrair alguém ao teu mundo, é por isso que a literatura – e o cinema também, é claro, mas que para mim não passa de outra forma de literatura – é simplesmente a arte da sedução.”
Guillermo Arriaga
Se alguém tem autoridade para falar sobre a Sétima Arte com a mesma naturalidade com que explica os detalhes da criação literária, esse alguém é o mexicano responsável por roteiros de peso como Amores Brutos e 21 Gramas. Com passagem por diversos setores da produção cinematográfica – além de roteirista, foi produtor, diretor e se arriscou até mesmo a mostrar a cara na frente das lentes que costumava comandar -, Arriaga é o autor de três peculiares romances e de um livro de contos ainda inédito no Brasil. O Búfalo da Noite, Um Doce Aroma de Morte e O Esquadrão Guilhotina atestam a sólida formação de leitor do escritor latino e escancaram uma destreza com as palavras capaz de criar um fantástico filme até mesmo nas mentes menos imaginativas.
Arriaga veio à Passo Fundo para fazer cair por terra o mito de gênio intragável que por vezes rodeiam aclamados escritores ou figuras que já desfilaram pelo tapete vermelho. Fazendo a fusão entre cinema & literatura, o mexicano imobiliza o público com sua fala serena e macia – de quem sabe o que diz e não precisa de uma falsa eloquência para afirmar suas incontestáveis verdades -, tanto quanto o faz com seus livros e filmes. E foi assim, logo depois de almoçar, sentado em um sofá como quem não tem nada mais interessante ou urgente para fazer, que Guillermo Arriaga conversou com uma armênia. Confira agora a entrevista exclusiva concedida aos Armênios.

Recentemente você teve a sua primeira experiência como diretor, com o longa The Burning Plain – no qual você também assina o roteiro. Como foi essa primeira incursão no cinema como diretor?
Guillermo Arriaga – Acho que foi uma das melhores experiências da minha vida. Dirigir é uma colaboração, o bonito de dirigir é que muita gente participa do diálogo criativo. Veja, quando tu está escrevendo, tu está escrevendo o mundo. Quando tu está dirigindo, tu esta interpretando o mundo. Poder estar nos lugares com os atores, os cinegrafistas, é o que mais emociona na produção cinematográfica.
Como foi a tua formação literária? Quais são os autores que mais influenciaram na tua escrita?
Arriaga – Creio que foram Shakespeare, Faulkner, os escritores mexicanos Juan Rulfo e Martín Luis Guzmán e a vida.
Um cineasta brasileiro, Jorge Furtado, uma vez fez um documentário sobre uma pessoa que ele desconhecia completamente. A esse trabalho ele deu o nome de Essa Não É A Sua Vida e, depois que estava pronto, ele se disse fascinado pela história que havia contado – uma história que ele nem sabia que existia. Tu também acha que histórias interessantes estão em todos os lugares?
Arriaga – O que eu gosto é contar o que eu conheço, contar coisas que vivi. Todos tem algo na vida que deve ser contado, que merece ser contado. Só é preciso descobrir como contá-lo.
Em uma entrevista ao jornal A Folha de São Paulo, durante a FLIP 2008, você falou sobre um fato curioso envolvendo seu primeiro romance, O Búfalo da Noite. Segundo uma carta recebida de um presídio do estado de São Paulo, este era o livro mais lido da biblioteca de lá – e como só havia um exemplar, eles queriam outros. Porque tu acha que esta história em particular fez tanto sucesso entre aqueles presos?
Arriaga – Não sei porque o Búfalo da Noite fez tanto sucesso nesta prisão brasileira. Mas um livro dá possibilidade a uma pessoa de se libertar da prisão da vida. Qualquer livro. E este romance possui emoções muito cruas, em estado bruto, então talvez por isso os presos tenham se identificado com ele.
Uma das coisas que você afirma é que a arte não pode dar respostas, mas que pode fazer perguntas. O que tu gostaria que os teus leitores e espectadores se perguntassem ao tomarem contato com as tuas obras? Que tipo de perguntas que tu quer provocar?
Arriaga – Onde estou? Quem sou? Por que as coisas são assim? Como posso mudá-las? O que vale a pena? Quem vale a pena? Quais são as injustiças? O que é justiça? Onde esta a verdade? Onde esta a mentira?
Um ponto em comum entre três dos teus roteiros – Amores Brutos, 21 Gramas e Babel – é que as histórias tendem a se cruzar em momentos de completo caos. Isso faz até com que eles sejam tratados como uma espécie de trilogia. Tu acredita que as relações humanas se desenvolvam de uma forma particular em circunstâncias extremas? Que as ligações se tornam mais acentuadas?
Arriaga – O escritor escreve o que pode, não o que quer. E tu nunca sabe realmente de onde sai a literatura. Tu como escritor não sabe de onde sai, nem por que sai.
Por que contar histórias?
Arriaga – Em meu caso, por que se não as conto elas ficam entaladas em minha garganta e me envenenam. Tenho que contá-las por que se não morro.
Nessa dualidade da tua carreira, o cinema e a literatura te satisfazem com a mesma intensidade?
Arriaga – Os dois são formas de literatura e eu gosto muito dos dois, tanto os livros quanto os filmes. Os filmes eu gosto por que tu cria mundos virtuais e em um dia muito mais pessoas tomam contato com o cinema que com livros. Os filmes fazem muito bem. Mas o livro se traduz – no livro entra outro idioma, outra cultura, entra outra forma de ver, que é mais lento mas mais sólido. A película é rápida e forte. Mas o livro se mantém por anos, tu pode publicar várias vezes. Um filme tu não pode estar publicando diversas vezes: chega um momento em que o filme pode desaparecer enquanto o livro permanece.
O cinema deve buscar se aproximar o máximo da realidade? Deve utilizar todos os artifícios para parecer o mais real possível?
Arriaga – O cinema tem que ser muitas coisas. Não existe uma só maneira de se fazer cinema. O cinema tem que ser profundo ou pode simplesmente te divertir. Pode ser um cinema estúpido, pode ser inteligente. Precisamos tanto das películas estúpidas quanto das inteligentes. Não acredito que o cinema inteligente seja melhor que o estupido, os dois são contextos necessários ao cinema.
Existe um ideal literário?
Arriaga – A literatura tem que ser bem escrita. Ponto. Não tem que ser diferente ou profunda, tem que ser bem escrita, somente.
Qual a tua relação com a tua obra?
Arriaga – Sou um escritor, mas eu escrevo os livros que eu gostaria de ler. E também aquilo que esta na minha vida. Não gosto de nada que eu escrevo na hora, apenas anos depois. Quando eu escrevo, acho horrível, já hoje eu gosto.
E como foi o início da carreira como escritor? De onde veio essa decisão?
Arriaga – Eu decidi virar escritor pelas mulheres. Quando eu era menino escrevia cartas de amor. Comecei a escrever com doze anos e até agora não parei: mas escrevo pelas mulheres, que são o que mais vale a pena escrever.
Ao longo da semana você confere um especial sobre a trajetória literária e cinematográfica de Guillermo Arriaga aqui n’Os Armênios.

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