Às vezes, é melhor mudar de assunto
por Felipe Attie
Lembro-me de certa vez, quando perguntei para a professora de Ciências se era possível um ser humano mudar de cor. Ao ouvi-la dizer não, dei Michael Jackson como exemplo. O silêncio que se seguiu fez a sala de aula parecer o lugar mais desconfortante do mundo. Minha professora se calou, sem nunca me responder, nem tocar novamente no assunto. Voltei a lembrar desse ocorrido, anos depois, quando soube da morte do rei do pop.
Estava lanchando com minha namorada, quando minha cunhada entrou na sala repetindo a última manchete anunciada pelo locutor do rádio: “Michael Jackson sofreu uma parada cardíaca.” Liguei a televisão em busca de informação e tudo que vi foi a calçada do Centro Médico do Hospital da Califórnia empesteada de fãs e jornalistas. Nenhuma rede de notícias sabia informar o que se passava com o maior astro da música pop dentro daquele hospital.
“Estão fazendo muito mistério”, disse minha cunhada. “Deve ser jogada de marketing.”
“Eu não iria tão longe assim”, resmunguei, já prevendo o pior.
“O que você ta insinuando?”
“Não estou insinuando, só acho que aconteceu uma merda das grandes”, conclui.
“Sei não.”
“Eu sei.” Acontece que meu curto contato com essa raça chamada jornalistas havia aguçado meu faro a ponto de eu saber muito bem diferenciar quando a imprensa estava fazendo charminho, de quando não estavam sabendo como divulgar um drástico acontecimento.

Após agonizantes minutos de espera foi confirmada a notícia: Michael Jackson havia morrido. Um silêncio gelado de luto pairou no ar. Olhei para minha namorada e a ouvi dizer, estarrecida: “Que loucura! Não acredito! Ele não pode ter morrido!”
“Poder, ele pode”, disse. “Na verdade, ele deve. Afinal, todos nós morremos. Assim é a vida.”
“Não brinque com essas coisas!”, ela censurou.
“Não estou brincando. Reclame com Deus.” No fundo, ela sabia que eu estava certo. A única certeza que temos é a morte. Mas eu entendia a reação da minha garota. Nunca estamos preparados para lidar com a morte, muito menos, a de um ídolo como Michael Jackson.
O mundo se abalou com a morte de Michael Jackson. Todos, de alguma forma, sentiram sua perda, até aqueles que, como eu, não eram muito ligados a sua arte. Confesso que nunca me considerei um fã de Michael, minha relação com seu trabalho era baseada mais no respeito do que na admiração. Sempre soube reconhecer um talento e Michael Jackson, sem dúvida, era um. Não foi por acaso que ele teve o mundo aos seus pés durante boa parte da sua carreira. Carreira esta, que conta com uma série de músicas e videoclipes que influenciaram todos os demais artistas posteriores a ele. Michael Jackson foi consagrado o rei do pop de maneira justa e inquestionável e até o final da década de 80 suas músicas estavam espalhadas pelos quatro cantos do mundo carregando consigo seu nome e sua imagem. Mas toda a adoração e assédio depositados em sua figura, unidos a um histórico de problemas psicológicos devem tê-lo feito surtar na hora de tomar determinadas decisões em sua vida, o que ajudou a ruir de maneira deprimente a sua imagem como artista e como pessoa, transformando-o em motivo de escândalo e escárnio nos últimos anos de sua carreira.
As lembranças da infância perdida, as humilhações e surras sofridas pelo rigoroso pai, as castrações decorrentes da vida de astro e todas as demais sufocantes restrições nas quais ele teve que se submeter foram alguns dos ingredientes que compuseram a drástica receita que o transformou numa personalidade excêntrica e polêmica. Ao longo da carreira, Michael Jackson foi, gradativamente, nos mostrando o quanto era problemático e nos fez presenciar sua queda com o mesmo espanto que notávamos as medonhas transformações de sua face. Se antes olhávamos admirados para suas fotos e assistíamos em êxtase aos seus shows, nos últimos anos era impossível ouvir seu nome sem fazer uma careta similar a de quando se bebe um gole de uísque barato.
“Com certeza, agora, todos vão começar a babar seu ovo e ele será eternizado como um grande artista!”, desabafou minha namorada, se referindo a todas as acusações de pedofilia e escândalos que obviamente seriam esquecidos, mas que, um dia, ajudaram a denegrir a imagem do ídolo.
“Para você ser considerado uma pessoa maravilhosa, basta morrer”, sentenciei.
“A imprensa é foda, cara”, disse minha cunhada. “Agora, eles vão empestear os jornais com elogios por uns seis meses.”
“Que nada”, retruquei. “Não dou 15 dias pra cair no esquecimento.”
“Acho que não”, insistiu minha cunhada.
“Ele era o rei do pop!”, concluiu minha namorada.
“Ele era o rei do pop.” A voz de minha namorada ecoou no meu pensamento, lançando-me sobre toda a trajetória de Michael Jackson — sua música, suas polêmicas, sua morte. Até que me vi questionando qual seria o real legado deixado pelo rei do pop. Seria ele lembrado como um artista talentoso e visionário que rompeu barreiras, ou como um louco, obcecado por crianças e pela sua autoimagem?
Enquanto eu esgotava minha cerveja em moderados goles, perdi-me em deduções e fui tomado por uma sensação nostálgica que clareou algumas lembranças que eu tinha de Michael Jackson e que foram inseridas na minha vida através da sua emblemática figura: lembrei das vezes em que fui mandado à Diretoria da escola por, de acordo com a professora, causar algazarra na turma que se divertia ao me ver dançando moonwalker de maneira desengonçada; lembrei de quando me reunia com meu pai enfrente à TV para assistir às estréias de seus videoclipes sempre lotados de tecnologia de ponta e fantásticas coreografias; das madrugadas que passei em claro jogando o jogo de videogame inspirado em sua persona e da decepção que foi assistir ao seu aguardado filme. Meus pensamentos me levaram até os últimos anos de sua carreira, os anos mórbidos de sua vida; as primeiras manchetes polêmicas acusando-o de pedofilia; os inúmeros processos judiciais enfrentados; o misterioso clareamento de sua pele; e a macabra transformação de seu rosto ao longo do tempo. Enfim, retomei uma série de cenas que tinham alguma ligação com a presença da figura mítica do rei do pop em minha vida. “Ele era uma das pessoas mais estranhas de que já ouvi falar”, conclui em voz alta. Só me dei conta que tinha pronunciado tais palavras, ao notar o olhar de minha cunhada e minha namorada em minha direção.
“Ele era cheio de traumas”, disse minha cunhada, defendendo o astro.
“Cara, na boa, ele pode ter feito a merda que for, mas o seu legado e sua importância no mundo do entretenimento são intocáveis”, concluiu minha namorada.
“Não dou 24 horas para o mundo inteiro estar prestando homenagem a ele”, deduziu minha cunhada.
“Bem vinda ao mundo que só homenageia gente morta”, brinquei.
“Parada cardíaca aos 50 anos… Que loucura!”, comentou minha cunhada.
“É… pra alguém que não bebia, não fumava, não comia carne, até que a vida foi bem irônica”, resmunguei.
“Se bem que, a gente nunca sabe quais as drogas que essas celebridades usam.”
“Por isso que eu sou fiel ao álcool”, disse, erguendo sorridente meu copo de cerveja. “Pelo menos, eu sei do que ele é capaz.”
“Ele vai deixar saudade”, lamentou minha namorada. “Muito triste.”
“Sem dúvida”, concordei. “Mas que ele era estranho… Rá! Isso ele era.”
Enfim, terminamos nosso lanche com o apetite abalado pela realidade fúnebre dos fatos. Pelo resto do dia e durante um bom tempo, me peguei divagando sobre a morte do rei do pop e o fim do seu reinado. Era certo que havíamos perdido não só um dançarino talentosíssimo e um artista visionário, como também, um ser humano autodestrutivo, desequilibrado e severamente assombrado pelo passado. Mas, além disso, conclui que o mundo perdera um ídolo que sequer conheceu. Pois, se havia uma coisa correta a ser dita sobre Michael Jackson era que, por trás do mito que se criou sobre a sua pessoa, existiu um ser humano que nunca conhecemos ao certo. Afinal, quem foi Michael Jackson? Ao me fazer tal pergunta, senti a mesma sensação desagradável de quando perguntei para a minha professora se um ser humano é capaz de mudar de cor. Só então, passei a entender sua reação naquele dia na sala de aula. Às vezes, quando não sabemos uma resposta, o melhor a fazer é se calar e mudar de assunto.
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Felipe Attie é redator e jornalista na hora de trabalhar, escritor e cartunista nas horas de lazer e hipocondríaco quando não tem o que fazer.
Aqui n’Os Armênios, o kolunista de Visceral Literário apresenta seus textos insólitos & ilustrações peculiares. Felipe também mantém um blog, que é de onde essa koluna se ramifica. Confira clicando aqui.


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