O menino que roubava livros
por Felipe Attie
Quando me dei conta da situação, já estava fora da livraria, já era considerado um ladrão. Olhei para o livro em minhas mãos e sorri. Gostei da idéia.
Era um dia como outro qualquer, quando entrei na livraria em busca do livro intitulado $29,99, do escritor, Frederic Beigbeder, que conta a história de um publicitário podre de rico, capaz de comprar tudo — inclusive montanhas de cocaína — com sua fortuna acumulada através dos slogans que brotam da sua mente e que… blá, blá, blá, vá ler o livro.

Procurei por entre as cansativas seções da livraria — sempre organizadas de maneira a facilitar a busca dos funcionários e nunca a do cliente —, até que encontrei o dito cujo. Era o único exemplar à venda e, apesar de empoeirado e levemente danificado, me deixei seduzir pela sua capa (foda-se! Quem disse que não se julga um livro, também, pela capa?) e logo dei início a leitura do texto de sua orelha, que se mostrou bastante atrativa. Olhei para o preço etiquetado e me assustei com o seu valor. Minhas economias não eram suficientes para pagar sequer a capa de que tanto gostei. Como solução para a minha frustração, não tive escolha, senão por em prática um dos dilemas que criei para facilitar minha existência nesse mundo injusto: “tudo que cabe no meu bolso não tem preço”.
Óbvio que o livro não cabia no meu bolso, o que não representou problema algum, pois sempre adapto meus dilemas às condições do momento. Sendo assim, o próximo passo foi executar minha tática de furto, que sempre consiste em agir naturalmente. Você deve estar se perguntando: “Como alguém consegue roubar um livro de uma livraria de renome internacional sem ser notado?” A coisa é mais simples do que parece. Aqui vão algumas dicas:
1) Não procure pelas câmeras de segurança. Pois, caso seja pego, você não terá como argumentar contra o vídeo suspeito que foi gravado enquanto você encarava as lentes das câmeras. Portanto, ignore as câmeras. 2) Saiba qual livro irá roubar. Sempre é bom sair de casa com o livro em mente. Ladrão indeciso é ladrão algemado. Pegue o desejado, aí sim, você poderá matar tempo lendo coisas fúteis só pra disfarçar. 3) Não se esconda dos seguranças. Não existe comportamento mais suspeito do que esse. Pelo contrário, se possível, vá até um deles e pergunte algo, puxe assunto, isso ajuda na sustentação de uma postura espontânea. Lembre-se: quem não deve, não teme. 4) Tenha sempre um celular. Enquanto estiver saindo da livraria, finja atender alguma ligação importante e procure fazer caras e bocas de preocupação. Assim, caso seu plano fracasse, você poderá argumentar em sua defesa o que as câmeras de segurança registraram: uma ligação superimportante roubou sua atenção, forçando-o sair às pressas rumo a um encontro, o que acabou fazendo, por distração, você levar o livro sem pagar. Nada que um pedido de desculpas não resolva. 5) Uma última dica que dou, mas não tão crucial, é você levar o capital necessário para comprar o livro, para caso você seja pego e a situação se mostrar complicada de ser resolvida. Daí, você puxa a grana, dizendo que vai pagar pela mercadoria e ponto, a cara de todos vai ao chão e ao invés de você ser rotulado como ladrão se passará apenas por um cliente desatento.
Essas são algumas regrinhas que aprendi sozinho, após tanto furtar livrarias e lojas de conveniência. Seguindo esse passo-a-passo, você dificilmente será capturado. Mas, sempre tenha em mente o mais importante: aja naturalmente. Comporte-se como se o livro já fosse seu; como se você estivesse entrado com ele na livraria; tivesse trazido-o de casa. Acredite nisso que dará certo. Sempre funciona!
Enfim, lembro que, durante minha infração, meu único obstáculo foi desviar a atenção de um desses leitores malditos que gostam de ficar sentados no chão das livrarias, como se estas fossem a extensão de suas casas. Era um sujeito estranho, vestido com uma blusa de listras tão finas que dava vertigem olhá-lo por mais de cinco segundos. Seu olhar não parava de me seguir e, com certeza, não seria uma boa idéia sair da livraria naquele momento. A maneira como ele me olhava era assustadora e comecei a achar que talvez fosse gay. Franzi a testa, tentando simular um preconceito de minha parte, mas não tive sucesso. A situação piorou, quando ele se aproximou parecendo querer puxar conversa e não me deixando escolha, senão simular um comportamento psicótico cheio de tiques nervosos e tremedeiras. Quando olhei para ele, trincando os dentes e deixando propositalmente um filete de saliva espumante escapar pelo canto da boca, ele rapidamente passou por mim, sem sequer olhar para trás. Enfim, rumei para a saída com o livro embaixo do braço, fingindo falar ao celular.
Cheguei a casa e me deliciei com a boa leitura que Frederic Beigbeder me proporcionou. Li o livro numa única noite e, após terminá-lo, no momento em que fui guardá-lo na estante, olhei para o exemplar e me perguntei: “eu sou um ladrão?”. Em meio ao emaranhado reflexivo que tal pergunta me lançou, analisei meu histórico e cheguei à fácil conclusão de que sou! O que me deixou feliz. Afinal, a sensação de ser um fora-da-lei — mesmo que movido por uma insignificante atitude — sempre me encantou. OK, OK, não rolou fugas aceleradas, explosões nem perseguições de helicóptero, mas eu fui um fora-da-lei, certo? Isso é fato!
Mas, por incrível que pareça, enquanto eu saboreava mais uma vez o gostinho do crime em minha vida, fui tomado por um raro peso na consciência que me fez concluir que o correto a ser feito seria devolver o livro. Estou longe de ser um modelo descente da raça humana, mas, às vezes, bate umas recaídas e eu acabo ‘andando na linha’, entende? Daí, o bom senso foi ainda mais fundo e me mostrou que eu não só deveria devolver o livro como, também, pagar por ele. Afinal, já havia lido suas páginas. Caso contrário, seria como devolver uma bala chupada ou um chiclete mascado. Posso ser um fora-da-lei, mas não sou injusto.
Voltei à livraria com o livro embaixo do mesmo braço que o camuflou dias atrás. Fui até o caixa, saquei o cartão de crédito e paguei pelo bendito, que me foi devolvido junto a uma nota fiscal e uma sacola estampada com a logomarca da livraria, exatamente como deveria ter acontecido antes. Encarei a notinha durante alguns instantes, orgulhoso da minha atitude e olhei sorridente para a cara de bolacha da moça do caixa, que permanecia sem entender nada, me observando por cima dos seus grossos óculos de tartaruga.
Após ter me redimido com o passado criminoso, decidi dar uma volta pela livraria, só pra passar tempo e desfrutar um pouco mais do meu momento de glória e redenção naquele ambiente. Enquanto desfilava por entre as prateleiras e estantes, olhava para as pessoas ao meu redor como se dissesse: “Viu só? Paguei por esse livro! Paguei! Ele é meu!”
Em meio a minha volta olímpica, me deparei com um livro grosso, cuja chamativa capa trazia a ilustração de um super-herói socando Hitler, no melhor estilo dos comics americanos. Interessante, pensei. Olhei bem para aquele chumaço de páginas… Li seu título: “As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay”. Peguei-o nas mãos… Senti seu peso… Li sua orelha… Olhei para o preço etiquetado… Olhei para a capa… Pensei… Tudo que cabe no meu bolso…
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Felipe Attie é redator e jornalista na hora de trabalhar, escritor e cartunista nas horas de lazer e hipocondríaco quando não tem o que fazer.
Aqui n’Os Armênios, o kolunista de Visceral Literário apresenta seus textos insólitos & ilustrações peculiares. Felipe também mantém um blog, que é de onde essa koluna se ramifica. Confira clicando aqui.


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