Os Armênios

O garoto do bar da esquina

Postado em 29 de junho de 2009

por Felipe Attie

Chega um momento na vida de qualquer estudante em que ele se depara com a “Universidade”, um mundo repleto de sonhos e possibilidades que logo mostra sua perversidade através das desilusões capaz de causar na sua vida. Comigo não foi diferente, me matriculei no curso de jornalismo na esperança da felicidade profissional e, tirando uma professora linda por quem me apaixonei, minha única lembrança útil desse período vem do Garoto do Bar da Esquina.


Decidi cursar jornalismo pelo simples fato de gostar de ler e escrever, o que me fez crer que estava no lugar certo. Afinal, como alguém que não gosta da dobradinha Ler & Escrever decide ser jornalista? Acredite, na faculdade, isso é o que mais existe. Na minha turma, por exemplo, poucos eram capazes de escrever algo além do próprio nome, ou de ler e compreender uma simples tirinha de jornal. Pra ser sincero, além de mim e de alguns professores, se existia alguém merecedor do rótulo de jornalista ou escritor era O Garoto do Bar da Esquina.

Confesso que ele era um cara um tanto estranho, mas que, com certeza, hoje, ou deve estar trabalhando em algum veículo de comunicação descente, ou construindo um puta nome como escritor. Decidi apelidá-lo como O Garoto do Bar da Esquina, porque era lá, no bar da rua da faculdade, onde ele sempre ficava sentado, enchendo a cara com alguns amigos, enquanto, a maioria dos seus colegas de classe se matava de estudar para as provas. Nunca soube seu nome, na verdade, sequer nos falávamos, mas confesso que é realmente difícil de esquecer alguém como ele. Vestia-se sempre da mesma maneira: com uma calça jeans surrada; camiseta preta; tênis preto; e uma jaqueta preta de couro que o acompanhava independente do clima. Sentava sempre na fileira do canto, perto da porta, o que facilitava suas rotineiras fugas antes do término das aulas. As poucas vezes que ele abria a boca exalava uma forte essência de álcool que empesteava a sala de aula, mas que sempre vinha acompanhada dos seus comentários astutos sobre o assunto em questão, confirmando assim sua inteligência e todo seu carisma perante os professores, o que justificava as regalias que tinha como aluno —  afinal, não é qualquer um que pode se dar o luxo de assistir as aulas de assessoria de imprensa munido de uma refrescante lata de cerveja.

Seu comportamento e postura eram semelhantes às de um Rockstar e o assédio que sofria por parte das garotas reforçava essa idéia. “Ele é diferente”, afirmava minha amiga, quando o assunto era O Garoto do Bar da Esquina. Eu tinha que concordar com ela, afinal, uma pessoa que usa sempre as mesmas roupas, vive se embriagando numa mesa de bar e ainda consegue arrancar elogios de alunas e professores só pode, no mínimo, ser taxada de ‘diferente’. Confesso que sentia uma pontinha de inveja da maneira irresponsável como ele levava a faculdade e, ainda assim, conseguia obter todas as belas notas azuis essenciais num diploma exemplar. Não importava a dificuldade das provas, ele sempre entrava na sala com o olhar perdido de um alcoólatra, sentava-se na carteira, abaixava a cabeça e só tirava o olhar da prova após tê-la terminado. Em seguida, levantava-se e, com toda aquela pose desnecessária que só ele conseguia manter, retornava ao bar da esquina. Depois, era só esperar o final do semestre chegar para que junto dele viessem suas notas confirmando sua genialidade.

Como todo gênio, ele tinha sua parcela de inimigos que, provavelmente, só eram seus inimigos por dois motivos: por não compreenderem sua genialidade, ou por morrerem de inveja dela. O fato é que era comum esbarrar com alguém pelos corredores criticando sua coluna no jornal da faculdade, esforçando-se para encontrar algum defeito no que ele escrevia. Eu, apesar de nunca ter trocado um “oi” com o cara, conseguia entendê-lo e sempre soube que, no fundo, se eu tivesse metade do seu talento, agiria igual ou pior do que ele. Sou da opinião de que talento e arrogância são coisas que devem andar de mãos dadas.

Com o avanço dos semestres, a presença do Garoto do Bar da Esquina nas aulas de jornalismo era cada vez mais rara, fazendo com que, aos poucos, ele se tornasse um mito, uma lenda que vagava de boca em boca pelos corredores e pátio da faculdade. Todos o conheciam, mas poucos eram os que o viam. Seus textos continuavam viajando de mãos em mãos, impressos no jornalzinho que o grupo acadêmico insistia em manter e os professores comentavam cada um deles durante as aulas, assumindo o quanto eram fãs de sua escrita e lamentando seu inexplicável sumiço. Com o tempo começaram a surgir rumores sobre seu paradeiro e até o pessoal do bar começou a sentir sua falta. O Garoto do Bar da Esquina, simplesmente, desapareceu.

Tempos mais tarde, após eu ter decidido largar a faculdade, soube que ele fizera o mesmo, abandonando o curso sem dar satisfação alguma a reitoria, professores e coordenadores — coisa de astro. Consequentemente, ele parou de publicar no jornal da faculdade — que, consequentemente, deixou de existir — e sumiu, deixando para trás todos os medíocres sonhos universitários. Talvez, durante um dos seus rotineiros porres, ele deve ter enxergado seu potencial e tenha decidido alçar vôos mais altos. Todos os alunos daquela Universidade, assim como eu, sabiam que, uma hora ou outra, isso ia acontecer.

Enfim, o tempo passou e eu segui minha vida sem jamais me esquecer do Garoto do Bar da Esquina. Na verdade, sempre que me lembro dele concluo que, na verdade, não importam os méritos fajutos que um diploma pode te oferecer, tão pouco se você tem vícios e hábitos impróprios. Pois, se você realmente souber aonde quer chegar e tiver confiança em si próprio, nada te impedirá de marcar a vida das pessoas presentes nos lugares por onde passar.

* * * * *

Visceral Literário

Felipe Attie é redator e jornalista na hora de trabalhar, escritor e cartunista nas horas de lazer e hipocondríaco quando não tem o que fazer.

Aqui n’Os Armênios, o kolunista de Visceral Literário apresenta seus textos insólitos & ilustrações peculiares. Felipe também mantém um blog, que é de onde essa koluna se ramifica. Confira clicando aqui.

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1 comentário

Emanuele D.

“Você pode ser o que quiser. Desde que tenha coragem e os nervos necessários.” – Madonna

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