Aquela sexta-feira…
por Felipe Attie
“Não sei”, é isso que vou responder sempre que me perguntarem por que decidi entrar naquele lugar, que faz qualquer um parecer limpo e correto. “Não sei”, é uma resposta compatível comigo, que nunca soube muita coisa. Sempre passei em frente àquele lugar, mas nunca havia entrado. Ou por falta de coragem, ou sei lá por que. Só sei que nunca havia entrado, até aquela sexta-feira…
“Não passam de um bando de vagabundos”. É isso que devem pensar todos os trabalhadores ou mães acompanhadas de seus garotinhos, ao passarem em frente ao clube dos motoqueiros denominados Jaquetas de Couro — com um nome desses, com certeza, a criatividade não é amiga deles. Não importa o dia, sempre tem alguma moto estacionada na calçada e algumas garrafas de cerveja quebradas, o que reforça a idéia de que esses caras realmente são um bando de vagabundos descompromissados que só querem saber de beber e ficar à toa — um bando sortudos.
“Meu nome é Incend”, se apresentou um sujeito sentado em frente ao Clube. Parecia ser alguém de poucas palavras, mas essa impressão logo desmoronou. “Tu é jornalista, cara?”, perguntou.
“Não”, respondi. “Mas gosto de escrever.”
“Sei”, disse, com olhar desconfiado. “O problema é que sempre tivemos problemas com jornalistas. Se é que você me entende.” Consenti com a cabeça e ele prosseguiu: “Sempre que aparece alguém estranho por aqui, pode apostar que é jornalista. Já vieram vários pra entrevistar a gente, dizendo ser da ‘imprensa do bem’, se é que você me entende…”
O bar é dividido em dois ambientes. O primeiro é um hall de entrada, com duas cópias de Harley-Davidson velhas, estacionadas como de enfeite. Ao olhá-las, é impossível não se perguntar, “será que essas porras funcionam?”. Uma grande lona com uma águia desenhada fica estendida na parede oposta ao portão de entrada, com os dizeres “RESPEITE OS JAQUETAS DE COURO E, TALVEZ, SEJA RESPEITADO” — uma arrogância não muito original, também. O segundo ambiente é o que poderíamos chamar de salão principal. De fora, só se vê uma parte da mesa de sinuca, alguns vultos de jaquetas de couro transitando, vez ou outra, e também é comum ouvir berros e sons de tacos esmurrando bolas de bilhar com tamanha agressividade que te faz se arrepender de ter entrado lá.
“Há quanto tempo vocês se reúnem aqui?”, perguntei, tímido.
“Bastante tempo.” Foi tudo o que ele disse, olhando para o nada.
“Bastante tempo, quanto?”
“Você ta querendo saber demais”, disse, olhando fixamente nos meus olhos. “Ta parecendo jornalista.”
“Não sou. Pode ficar tranqüilo quanto a isso.”
“Sorte sua”, debochou.
Ele me ofereceu uma cadeira à sua frente e começou a me explicar sua situação, fazendo eu me sentir um garotinho que observa o titio contar histórias do seu tempo de moleque. Enquanto Incend descarregava suas confissões, os sons vindos do interior do salão davam uma prévia do quanto a situação não devia estar boa por lá: berros e ofensas verbais eram a trilha sonora do ambiente, e uma desconfortante premonição arrepiava minha espinha anunciando o que estava por vir. Mas agora que eu tinha começado uma conversa com Incend, seria preciso sons bem piores para me fazer cair fora.
“No início éramos um grupo maior, mas, sabe como é, né? O pessoal vai decidindo mudar de vida…”, lamentou Incend. “Mas a galera que permaneceu continua firme. Isso que importa.”
“Por que o pessoal decidiu mudar de vida?”, perguntei.
“Ta aí uma coisa que não é da sua conta”, concluiu, encerrando o assunto. “Faz o que da vida?”
“Sou escritor.”
“Interessante.”
“O pessoal costuma achar interessante.”
“Gosta de motos?”
“Gosto.” Na verdade, prefiro carros, mas acho que fiz bem em não transmitir minha sincera opinião. “Só não sei pilotá-las.”
“Porra, cara, tu não sabe o que ta perdendo!”, berrou Incend, espumando cerveja pelos cantos da boca. “Você tem mulher?”
“Sim”, respondi, sorridente, outra vez mentindo. Minha namorada havia me deixado por ‘não aguentar meu ritmo’, digamos assim.
“Hum…” Ele sorriu. “As mulheres adoram motos.”
“Deve ser porque não se monta num carro.”
Incend fez cara de quem não entendeu a piada e prosseguiu: “Tem irmã?”
“Tenho.”
“Você não, porra! Tua mulher!”
“Sim”, menti. “Ela tem uma irmã, sim.”
“Quantos anos?”
“21.”
“Huuuummmm!”, exclamou. “Muito bom!”
Enquanto Incend olhava para o nada, como se estivesse montando a imagem da cunhada que eu acabara de inventar, com todas as características que lhe passei, surgiu de dentro do bar um cara alto, gordo e peludo, segurando dois canecos de cerveja nas mãos e vestindo uma jaqueta que parecia ter sido roubada da gaveta de roupas do sobrinho. Uma espécie de Zé Colméia motoqueiro.
“Grande Incend!”, o sujeito gritou, abrindo os braços e deixando derramar porções significantes de cerveja.
“Grande Baby!”, retribuiu Incend.
“Baby?!”, pensei.
“Esse é o Baby”, disse Incend, aplicando-lhe fortes tapas nas costas. “Esse cara pode te responder qualquer coisa sobre motos,”
“Vai começar a puxar meu saco, porra?”
“Baby, esse é o…”
“Alan”, menti mais uma vez. “Alan Morse.”
“… Alan”, repetiu Incend. “Ele é um pouco lerdo, estranho… Mas tem uma cunhada gostosa, de 21 aninhos!”
Enquanto Incend ria de deboche, Baby o puxou pelo braço e disse algo em seu ouvido. A cara que Incend fez em resposta, sinalizava o quanto o assunto era desagradável. Em seguida, Incend entrou no salão principal, deixando-me só com o grandalhão. Baby veio me dizer que tava rolando uma briga entre alguns integrantes do grupo. Fiquei curioso em presenciar tal cena, mas decidi recolher meus desejos momentâneos e permanecer sentado como um menino obediente.
“Mas, me diga”, Baby começou, “o que te trouxe até aqui?”
“Nada de mais”, respondi, tentando soar casualidade. “Só tava a fim de tomar umas cervejas.”
“Pô, cara, você escolheu um péssimo dia.” suspirou. “Pode apostar.”
Enquanto Baby se lamentava comigo sobre a situação no interior do bar, notei que mulheres vulgares começaram a surgir no salão, vindas não sei de onde. Baby veio me dizer que elas eram funcionárias do puteiro ao lado do bar, um lugar fétido e contaminado, que tenta, sem sucesso, transmitir glamour. Lá você encontra de tudo: de gordas flácidas com sífilis a magrelas gostosas com cancro mole. Com um pouco de sorte, você esbarra com uma ou outra gracinha ‘limpinha’ e, caso isso aconteça, é bom não desperdiçar, pois todas as mulheres daquele lugar têm o prazo de validade vencido em, no máximo, uma semana, antes de serem tocadas por doenças venéreas bem comuns nesses ambientes. Apesar de saber dos riscos, meus olhos já não miravam a presença de Baby e meus ouvidos já não se concentravam no que ele me dizia. Minha atenção foi toda tomada pela presença daquelas garotas se oferecendo pelo recinto, num excitante desfile de putas. Mas antes que Baby pudesse notar minha distração, apontei para uma das motos estacionadas ao nosso lado e perguntei se era uma Harley-Davidson original.
“Sim”, ele respondeu. “Você conhece motos?”
“Não muito. Mas a Harley não é qualquer moto”, disse, sabendo que o sujeito estava mentindo, era óbvio que se tratava de uma réplica barata.
Ele começou a me contar várias histórias sobre a moto. Como da vez em que tentou atravessar o país em cima dela e seus planos foram frustrados no momento em que o motor bateu, deixando-o sozinho em plena madrugada, no meio da BR-101 Sul, na altura de Santa Catarina, próximo ao município de Sombrio. E outra vez, em que ele se viu obrigado a parar em frente a uma favela do Rio, novamente devido ao motor, e, segundo ele, só não foi assaltado porque viram o desenho em sua jaqueta: uma águia bordada sob os dizeres “Jaquetas de Couro”.
Enquanto Baby me contava suas aventuras, eu aguava a cerveja que se esgotava em seu copo — permanecer com a boca seca num local onde há álcool é um desafio que nunca consegui vencer. Foi aí que, como se estivesse lendo meu pensamento, Incend surgiu, me oferecendo uma cerveja. Aceitei, e aproveitei para espiar dentro do salão: alguns brutamontes amontoados ao redor da mesa berravam e sacudiam tacos de bilhar uns para os outros, numa demonstração nada civilizada de discussão. Enquanto contemplava tal cena, Baby passou por mim de maneira ‘tão delicada’, que o atrito que sofri me fez invadir o ambiente de modo desastrado e cambaleante. Aproveitei a oportunidade e me escondi ao lado do jukebox, tentando me fazer invisível, enquanto observava os monstrengos se agredirem verbalmente. Conforme o clima se apimentava, as prostitutas começaram a se meter entre os enjaquetados, com a ingênua esperança de amenizar o caos que dominava tudo e todos.
Um cara grande e feio, com o rosto tomado por cicatrizes, apontava o dedo na cara de um sujeito careca e baixinho, enquanto berrava: “Eu não vou pagar porra nenhuma! O trato foi quebrado!”. Olhei para o lado e vi que uma das prostitutas, uma bonequinha morena de cabelos cacheados, enrolava um baseado com tanto carinho que até um padre sentiria vontade de dar uns tapas. Durante alguns instantes pensei em pedir um trago, mas minha atenção foi desviada com Incend me entregando mais duas cervejas e dizendo: “sirva-se à vontade.”
Após engolir violentamente o conteúdo das duas garrafas, fui até o bar em busca de algo mais que pudesse me entorpecer. Ao passar pelo balcão, senti que meu pé havia pisado em algo macio demais para ser o chão, e o grito de dor afeminado que surgiu em resposta confirmou minha sensação. Olhei para baixo e vi o corpo delicioso de uma jovem mulher entrelaçado ao corpo deteriorado de um velho barbudo. Estavam fudendo sem nenhuma preocupação com o pudor. Ao me verem, a moça, que parecia ser funcionária do puteiro, resmungou algo parecido com “Machucou”, enquanto esfregava um dos pés, e o velho barbudo levantou com extremo sacrifício e partiu em minha direção.
“Quem é você?”, ele me perguntou, em tom ameaçador. “O que faz aqui no meu bar, bebendo da minha cerveja?”
Não soube o que responder. Estava em um local estranho, cercado por estranhos, vendo dois estranhos fudendo e vários outros berrando. Minha voz travou e preferi assim, ao invés de abrir a boca e falar merda, coisa que sempre acontece.
“Como esse moleque entrou aqui?”, perguntou o velho barbudo. “Ele ta com algum de vocês?” Nesse instante, o silêncio dominou o ambiente e todos dedicaram sua atenção a mim. Ninguém se manifestou, e deu-se início a uma inquietante troca de olhares. Nenhuma voz, só olhares. O velho barbudo perguntou mais uma vez e, mais uma vez, não obteve resposta. Quando eu me preparava para sofrer as consequências pela minha intromissão, a putinha maconheira se manifestou, surpreendendo a todos, principalmente a mim:
“Ele ta comigo.”
“Hum… Então foi você que trouxe o carinha pra cá?”, perguntou o velho barbudo, andando em sua direção.
“Isso mesmo”, afrontou. “É meu namorado.” E uma gargalhada em coro brotou no ambiente.

O Velho barbudo, que tinha suas partes íntimas expostas e balançando feito pêndulo, agarrou a menina pelos cabelos e disse, puxando sua face em direção a sua boca: “Então trate de tirar ele daqui e vá junto. Pois aqui não é lugar de criança e muito menos de puta desobediente”.
Fomos expulsos do bar sob ameaças de surra caso voltássemos. Durante toda a noite, eu refleti sobre a seriedade que eles empregam naquele ‘clubinho’. E, após protagonizar tal cena, vi que aqueles caras precisam urgentemente de tratamento. Afinal, eles não passam de fracassados, rejeitados, sem perspectiva alguma, que vêem uns nos outros a semelhança alimentada pela derrota. São uns derrotados. Formam a escória que prefere se unir no fundo do poço, a buscar alguma alternativa que possibilite conquistar horizontes mais amplos. Algo além das quatro paredes de uma pocilga com estacionamento para motos.
“Já tentei levar amigos meus pra lá e sempre acontece a mesma coisa”, disse a putinha.
“Por quê?”
“Sei lá”, respondeu, dando de ombros. “Eles se acham bons demais para se misturar. Mal sabem que são tão merdas quanto nós, ou piores.”
A putinha, que descobri se chamar Natália, morava a duas horas de distância de onde estávamos. Seria impossível, para ela, voltar pra casa àquela hora. Sendo assim, ofereci meu quarto como estadia, numa singela forma de gratidão por ter salvo minha carcaça.
“Você tem certeza?”, perguntou, surpresa.
“Lógico!”, respondi. “É o mínimo que posso fazer por alguém que me livrou de uma surra.”
“Não foi nada”, suspirou. “Sempre discuto com alguém de lá. Não concordo com essa forma estúpida de privacidade que eles tentam manter.”
“Então por que continua frequentando aquele lugar?”
“Porque é a vida que escolhi ter”, lamentou. “O puteiro e o bar são do mesmo dono.”
Continuamos conversando, enquanto caminhávamos em direção à minha casa. Não moro tão perto assim do clube dos motoqueiros, mas, com certeza, é preferível caminhar 40 minutos madrugada adentro, a ter de mofar num ponto de ônibus qualquer. Não é difícil notar que Natália é uma boa menina. Digamos que teve a vida prejudicada, devido à falta de oportunidades, mescladas a doses cavalares de irresponsabilidade. Tem uma filha de dois anos com um filho da puta qualquer, que preferiu fugir a assumir sua obra, não lhe deixando alternativa senão trabalhar com o corpo. Mas é uma boa menina.
Chegamos em casa, bebemos algumas cervejas, fumamos seu baseado e, como forma de gratidão pela curta estadia, Natália me forneceu uma amostra grátis do seu talento. Confesso que, se depender do seu desempenho sexual, com certeza, o leite da sua filha está garantido. Como alguém consegue ter o Kama Sutra todo decorado na memória? Inacreditável! Enfim, foi uma noite agradável. Apesar de tudo que sofri por meter meu nariz onde não fui chamado, foi agradável. É por essas e outras que eu continuo sendo um eterno bisbilhoteiro, em busca de experiências socialmente reprováveis.
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Felipe Attie é redator e jornalista na hora de trabalhar, escritor e cartunista nas horas de lazer e hipocondríaco quando não tem o que fazer.
Aqui n’Os Armênios, o kolunista de Visceral Literário apresenta seus textos insólitos & ilustrações peculiares. Felipe também mantém um blog, que é de onde essa koluna se ramifica. Confira clicando aqui.


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