Os Armênios

Todo mundo odeia os Oasis

Postado em 18 de maio de 2009

por Marina de Campos

E na última terça-feira 12 mil gaúchos fizeram questão de odiar o grupo de perto, lotando o Gigantinho e impressionando os próprios irmãos Gallagher. Coincidência ou não, a banda passou pelo estado trazendo consigo a chuva que não aparecia há mais de dois meses, e acabou fazendo a alegria daqueles que tanto amam e tanto odeiam o mito Oasis.

Doze de maio. Depois de dois meses de espera e angústia, finalmente aconteceu. A chuva desabou dos céus com força total e inundou o estado com a atmosfera que melhor se encaixa ao gênero britpop: um dia úmido e nublado, pra se olhar através da embaçada janela de um ônibus ao som de Wonderwall – no fundo apenas uma dissimulada melancolia, pronta a ser destruída pela insatisfação e o vigor de Supersonic ou a rebeldia jovem de Cigarettes & Alcohol. Porque os Oasis não são um bonito dia de sol, e sim o dia que precede a tempestade, aquele que incomoda, intimida, perturba e vicia – um dia no qual não se pode ficar indiferente.

A prova disso é que ninguém fica alheio a eles. Ferrenhamente amados e odiados ao redor do planeta, fazem questão de alimentar os dois lados e seguir assim, traçando um caminho que tantos outros já fizeram rumo ao espaço na história destinado aos grandes. Antes de chegar lá – e quase que inacreditavelmente -, eles fizeram uma parada em Porto Alegre, e trouxeram para um Rio Grande do Sul à beira do desespero a tão esperada chuva. Afinal, era preciso um clima que combinasse com eles, mesmo parecendo improvável que a água corresse novamente por esse chão. E agora, quem vai poder dizer que odeia os Oasis?

Muito além da água

Mas não foi apenas água que eles trouxeram a Porto Alegre. Trouxeram também a certeza de um espetáculo de proporções épicas para fãs sedentos de boa música, a realização de um sonho distante para toda uma geração e a inexplicável energia que os transformou na maior banda de rock da atualidade – perdendo apenas para os imortais Rolling Stones, ainda vivos – e fez da turnê latino-americana uma impressionante e inesquecível jornada. Para os fanáticos adoradores e também para aqueles que os desprezam, já que ninguém conseguiu sair ileso da avalanche de notícias e comentários a respeito da banda nos últimos dias.

Escolhendo a capital gaúcha como última parada para para a curta viagem pelo continente, os Oasis conseguiram não apenas o milagre que foi a volta das chuvas ao estado, mas também a engraçada façanha de fazer sumir a sanidade de uma gigantesca plateia. Em pouco menos de duas horas, o Gigantinho enlouqueceu. Lotado, pulsando e vibrando com a emoção da massa que ocupava cada centímetro de seu interior, o Gigantinho sentiu a fúria de seis gênios do rock.

Gallagher

Sim, nessa noite eles não foram nada menos que Rock’n'roll Stars, e foi com ela – a primeira faixa de seu primeiro disco – que eles adentraram ao palco, fazendo tremer as estruturas do ginásio e também do público, que inundava a pista e as arquibancadas com incenssantes palmas, gritos e assobios. Insanidade. Emoção. Incredulidade. Uma declaração de amor à altura, e no melhor estilo Oasis.

“Porto Alegre, obrigada pela noite incrível. Cuidem-se. Vejo vocês em breve!”

Liam Gallagher

Falando em estilo Oasis, quem diz que os irmãos Gallagher já não são mais os mesmos não estava perto o bastante para enxergar a pura arrogância e ar de superioridade que emanava dos dois a cada olhar. Liam, logo no início, e não só dessa vez, agindo como um verdadeiro deus que permite aos seus servos que o idolatrem. Imóvel, queixo erguido, a famosa meia-lua estática escondendo parte da face, o sorriso de deboche encoberto pela máscara de seriedade, ajudando a construir sua pose de intocável.

Alguns metros a direita, Noel Gallagher parecendo um músico qualquer que subiu no palco por engano, camiseta simples, penteado simples, olhar humilde. Será mesmo ele? Quem sabe do infinito sarcasmo do guitarrista não se deixa enganar: ele continua lá, gigante, poderoso, zombando da plateia com sua atitude de simples coadjuvante. Por trás da guitarra e das roupas cotidianas, Noel é um verdadeiro monstro atiçando fãs para logo devorá-los. Ele, o dono da banda.

“Eu falo diretamente ao público da América do Sul. Vocês foram realmente incríveis. Foi um privilégio tocar para vocês. As memórias dessa pequena turnê vão viver comigo por um longo tempo. Muito obrigado. E até logo.”

Noel Gallagher


“Amazing”

E logo veio a primeira sequência matadora da noite. A já clássica Lyla, a arrasadora The Shock of the Lighting e o sucesso Cigarettes & Alcohol colocaram abaixo o público tirando o fôlego daqueles que se esforçavam para acompanhar o ritmo alucinado dos músicos. Somando às impecáveis faixas do recente Dig Out Your Soul os clássicos lançados em quinze anos de trajetória, Andy Bell, Chris Sharrock, Gem Archer e a dupla Gallagher mandou ainda, como uma bomba, a força de The Meaning of Soul, logo substituída pela contagiante e lisérgica To Be Wherer There’s Life, uma das grandes faixas do último álbum no estilo Beatles e sua influência indiana. Junto às cinco entidades místicas citadas acima, estava também o tecladista Jay Darlington, nomeado Jesus pelos cartazes da plateia, e conhecido por seu fabuloso trabalho no Kula Shaker, outra grande banda da década de 1990.

Waiting for the Rapture, outra importante faixa do novo disco, veio em boa hora e representou um dos pontos altos do show. Comandada por Noel, a canção arrancou gritos histéricos do público e pareceu irritar Liam, que voltou ao palco destruindo tudo com Slide Away. Morning Glory permitiu que as atenções fossem voltadas a outro membro com sobrenome nem tão famoso, o baterista Sharrock, que fez malabarismos e entrou com tudo em Ain’t Got Nothin’. É injusto diminuir um só milímetro da atuação de Liam, mas também é preciso reconhecer que, a cada vez que o irmão mais velho assumia o vocal, o show dava uma virada. Com The importance of being idle, Noel abriu caminho para a suavidade e a profundidade de Wonderwall na voz de Liam, que entoou para os gaúchos o hino de uma década.

A segunda sequência matadora veio para ficar até o fim do show. Começando com Supersonic e o som metálico e arrebatador saindo das guitarras como raios, a banda alcançou o climax da noite com a clássica Don’t Look Back in Anger, que emocionou o público e tranformou o Gigantinho em um afinado e lacrimejante coro formado por milhares de vozes. A surpreendente Falling Down, que mostrou seu verdadeiro potencial ao vivo, com a acidez e a beleza de seus acordes, precedeu a longa e hipnotizante Champagne Supernova.

A música final só poderia ser uma: I Am The Walrus. Transbordando o talento herdado de seus “pais”, os Oasis foram buscar no repertório dos Beatles o encerramento para uma noite incrível, nas palavras do próprio Noel Gallagher. “Amazing, amazing”. Uma palavra que resume a experiência de doze mil fãs e também daqueles que os odeiam e não estavam presentes. Pois que continuem a odiar. Acima do bem e do mal, do ódio ou da paixão, do consentimento ou do desprezo, os Oasis vivem. Residem em um lugar abstrato, onde a única tragédia possível seria a indiferença: na inabalável história do rock’n'roll.

Galeria:

Clique nas miniaturas abaixo e confira em alta resolução as imagens expandidas dessa noite única, pela lente genial de Franco Rodrigues.

Publicado originalmente no Segundo Caderno do jornal O Nacional em 16 de maio de 2009.

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3 comentários

Gabriel Terra

O ponto alto pra mim foi “Dont look back in anger”… Foi demais !!!

JESUS

JESUS!

Taliesin

Amazing..

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