Organizador de Dez na Área vê engano na seleção do álbum
O organizador do álbum Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol, Orlando Pedroso, vê um “engano” na escolha da obra, que seria levada a estudantes paulistas do terceiro ano do ensino fundamental.
“Há claramente aqui um engano”, disse o ilustrador, que trabalha na Folha de S.Paulo. Segundo ele, o trabalho, publicado por ocasião da Copa de 2002, foi feito para adultos.
“Mas isso não quer dizer que um pai ou uma mãe não possam sentar com seu filho e se divertirem com essa ou aquela história como fazem com a TV, com o cinema ou alguns tipos de revistas.”
A obra foi comprada pelo governo de São Paulo para ser distribuída a alunos do terceiro ano, com idade média de nove anos. Parte do conteúdo traz conteúdo sexual e palavrões.
Menções ao PCC (Primeiro Comando da Capital) também motivaram o recolhimento da obra, segundo noticiou a Folha de S.Paulo nesta quarta-feira.
O álbum foi recolhido. O governador José Serra disse que os responsáveis pela seleção serão punidos. Serra também avaliou a obra como de “muito mau gosto”.

Orlando Pedroso – ou somente Orlando, como assina seus trabalhos – é um dos lados da polêmica ainda não ouvido pela grande imprensa.
A entrevista a seguir, realizada entre ontem e hoje de manhã, dá voz a ele.
Blog – Como você analisou a compra de Dez na Área para estudantes paulistas do ensino fundamental?
Orlando Pedroso - Há claramente aqui um engano. O álbum foi concebido e produzido para um público adulto às vésperas da copa de 2002. Tanto eu quanto os artistas escolhidos por mim tiveram plena liberdade na escolha do enfoque dos temas e roteiros assim como na produção do material. Acho que o governo estadual e o federal têm feito um grande trabalho na escolha dos títulos de livros a serem adotados na rede pública de ensino. Contrariando o que eu achava, livros arrojados, com enfoques e linguagem moderna, alguns sem texto foram e são adotados. No caso do Dez na Área, houve realmente um equívoco.
Blog – A “Folha de S.Paulo” noticiou hoje que referências ao PCC também motivaram o recolhimento do álbum. Como você avalia essa questão?
Orlando – Quando vi a matéria hoje cedo na Folha fiquei chocado. Peladas dentro de presídios fazem parte do cotidiano dos detentos assim como nos campos de várzeas na periferia. Em nenhum momento o trabalho do Lélis faz apologia ao crime ou ao PCC. Ele retratou a rotina de um grupo confinado que tem, sim, características particulares e de domínio público. Quem condenaria o livro “Carandiru” ou o filme simplesmente por existirem? Ninguém. Pode-se gostar ou não deles, mas daí a dizer que são de mau gostou ou “um horror” há uma distância. Todo o erro está numa adoção equivocada da publicação para um público infantil não na existência da obra.
Blog – No seu entender, as pessoas que selecionaram o álbum leram a obra?
Orlando - Não gostaria de entrar nesse mérito. Acho que pode ter havido um engano. Às vezes como o livro ir pro montinho errado. Foi pro dos aprovados quando deveria ter ido pro dos rejeitados. Não quero crer que essas pessoas não façam seu trabalho seriamente e erros acontecem.
Blog – O governador José Serra classificou a obra de “muito mau gosto”. Como você analisa essa afirmação?
Orlando - Essa é definitivamente a declaração mais infeliz de todas. Ele não leu o álbum. Alguém apontou dois ou três quadrinhos onde havia palavrões ou desenhos mais atrevidos e a partir daí ele tem que dizer que vai punir os responsáveis. Ele é o governador do estado, está com uma batata quente no colo e quer se ver livre dela. Seria honesto ele dizer que houve um engano na avaliação, que a sindicância vai apurar, mas que o erro é que o álbum é inadequado àquela faixa de idade, e não que a publicação é um horror. Você tem ali profissionais consagrados como o Spacca, o Lélis, Maringoni e o Caco Galhardo. Alguns estavam começando a despontar como era o caso do Allan Sieber, do Leonardo, Samuel Casal e dos gêmeos Fábio [Moon] e Gabriel [Bá]. Não dá pra falar tão mal e muito menos da qualidade dos desenhos.
Blog – Você acredita que esse caso tenha provocado um olhar mais cauteloso sobre os quadrinhos por parte de educadores e do governo?
Orlando – O mal não é a existência da publicação, mas o contexto onde ela foi colocada. Acredita-se que quadrinhos sejam só para crianças e esse pode ser um bom ponto de partida para uma discussão evitando que haja um retrocesso na adoção ou no enfoque de quadrinhos e literatura dentro da sala de aula. Eu não sei se a gente deveria usar a palavra cautela, mas zelo me parece mais adequada. As editoras têm produzido, através de novos selos ou novas empresas, uma quantidade monstruosa de títulos justamente tentando atender essa demanda do governo que, como todos sabem, é o maior comprador de livros do mundo e que tem feito muitos olhos brilharem. Ora, quantidade nunca foi sinônimo de qualidade e as bancas de avaliação precisam estar cada vez mais espertas com o que recebem em mãos. No caso do Dez na Área, há um erro claro de avaliação ou um deslize que Murphy pode explicar.
♦ Para acompanhar o caso desde o início, acesse o Blog dos Quadrinhos ♦
(Paulo Ramos)
Fonte: Blog dos Quadrinhos

Permitida a livre reprodução de todo o conteúdo do site. Pirateie e não peça para ninguém.