Os Armênios

Adão volta ao Brasil para lançar dois álbuns de tiras

Postado em 23 de maio de 2009

O leitor diário das tiras cômicas de Adão Iturrusgarai na Folha de S.Paulo talvez não saiba. Mas o desenhista produz da Argentina as piadas publicadas no jornal.

A rotina já dura dois anos, quando se mudou para Buenos Aires. Há oito meses, trocou a capital argentina pela fria Patagônia. Mora num vilarejo chamado Playa Union.

“Uma praia pequenininha, com sete mil habiantes”, diz o quadrinista gaúcho. Há tanto tempo fora do Brasil, é bem possível que ele estranhe a passagem por São Paulo.

Ele lança neste sábado à noite, na capital paulista, duas coletâneas de tiras suas: No Divã com Adão e Aline – Viciada em Sexo.

No Divã com Adão (Planeta, 160 págs., R$ 34,90) está à venda desde setembro do ano passado. Não foi lançada oficialmente ainda por ele morar fora do país.


O álbum faz uma coletânea de tiras publicadas entre 2005 e 2008 no jornal Folha de S.Paulo. Quinze delas são inéditas.

A estrutura das histórias é semelhante. Adão desenha diferentes situações cotidianas imaginando, para cada uma delas, uma forma de punição.

O tamanho do flagelo é medido em anos de análise, aves-marias, tempo no inferno. O último traz sempre a punição mais exagerada.

Aline – Viciada em Sexo (L&PM, 128 págs., R$ 11) também reúne tiras já veiculadas na Folha. A diferença é que a obra começou a ser vendida neste ano.


É a terceira coletânea de bolso lançada pela editora gaúcha, dentro da linha “Pocket”. O material é de 1998, segundo o autor.

São tiras de uma fase em que Adão fazia um desenho mais “bonitinho”, como ele mesmo diz. Os personagens tinham um traço mais arredondado.

Na virada do século, ele voltou a seu estilo inicial, da primeira metade da década de 1990. Era um traço mais solto e despreocupado, que o acompanha até hoje.

Para o grande público, este livro de bolso de Aline tem outro apelo. A personagem que divide um apartamento com dois amantes, agora, não está apenas nos quadrinhos.

Ela foi levada para a TV aberta num especial de fim de ano da Globo. Segundo Adão, vai virar série e entrará na grade da emissora.

Na entrevista a seguir, possível pela distância encurtada com a ajuda da tela do computador, o desenhista de 44 anos diz que a negociação com a Globo não foi nada fácil.

E começa dizendo o que o levou a morar na Patagônia. Ou quem o motivou. Ela atende pelo nome de Laura. E gerou um outro amor: a filha Olívia. O casal espera outro filho.

Blog – O que o levou à Argentina?
Adão Iturrusgarai -
Me apaixonei por uma argentina e me mandei pra lá. Assim, bem simples. Saí do Rio de Janeiro e fui morar em Buenos Aires. Por que fui à Patagônia? Bom, minha mulher é da Patagônia e gostei do pedaço e, com a vinda de um filho, achamos melhor criá-lo num lugar pequeno. Mas lá tem supermercado e quase tudo que uma cidade normal tem. Só nã tem engarrafamento.

Blog – Por mais que a internet reduza a distância, estar fora do país não dificulta a sua atuação por aqui?
Adão -
Se eu trabalhasse com charge política, talvez ia me complicar um pouco. Aí eu acho que você tem que estar mergulhado no país do qual você está escrevendo. Mas meu humor é mais de comportamento. Meu cérebro é tipo um HD de muitos gigas lotados de experiências. 11 anos em Porto Alegre, nove anos em São Paulo, sete no Rio. Mesmo morando num vilarejo, tenho um montão de material pra piadas. Mas, falando em distância, internet, acho que hoje em dia a internet afastou um pouco as pessoas. Vejo hoje muitos colegas ilhados em seus estúdios. Então, tanto faz você estar aqui ou acolá.

Blog – Você se inseriu bem no mercado argentino. Participa da “Fierro”, chegou a desenhar recentemente uma tira de “Macanudo”, de Liniers. Como foi sua recepção por lá?
Adão –
Até agora eu publico somente na revista “Fierro”. O que já acho grande coisa. Bom, não sei se é um pouco de influência minha, mas também de outros desenhistas argentinos de humor, a “Fierro” está tendendo pro humor. Antes, ela não era assim. Era mais quadrinhos de aventura, histórias de continuação. Mas a idéia é expandir minha invasão na Argentina. Lançar algum livro em espanhol ou entrar em algum jornal está nos meus planos. Tanto que tenho uma versão do meu blog em espanhol. O Liniers, que é gente finíssima, diz que quer que “iturrrusgarai” seja um nome famoso na argentina.

Blog – Houve algum tipo de preconceito por ser brasileiro?
Adão -
Nenhum. Eles adoram brasileiros por lá. Mas, no caso da “Fierro”, fiquei com pé atrás porque o slogan da revista é “historieta argentina”. Mas eles abriram exceção pra mim quando mostrei o meu documento de “residência precária”, primeiro passo pra virar residente argentino.

Blog – E a entrada na “Fierro”? Você procurou a revista? Como foi esse contato inicial?
Adão -
Fui lá com minha mesma cara de pau de sempre. Procurei o Lautaro Ortiz, que edita a revista. Muito simpático, me recebeu muito bem. Me perguntou se eu estava bem em Buenos Aires, ofereceu ajuda. Pegou meu material, mas disse que tinha esse problema de eu ser brasileiro. Mas falou que tinha gostado muito do meu trabalho e que ia conversar com o [Juan] Sasturain, que é editor também. Em uma semana, ele me ligou e falou que queria me publicar já. Eu comecei com duas tiras por edição e, agora, estou com duas páginas.

Blog – Aline ganha novo impulso agora por conta do especial exibido na Rede Globo. Como se deu a negociação? Você procurou a emissora ou ela o contatou?
Adão -
Foi um amigo, Mauro Wilson, que sempre quis adaptar o personagem. Passaram anos, achei que não ia rolar e, justamente quando fui morar na Patagônia, o Mauro me ligou dizendo que estava tudo certo, se encaminhando. Foi uma negociação complicadíssima e só acabei aceitando em prol do meu amigo. Parece estranho, mas o que aconteceu foi isso mesmo. Se não fosse por ele, o especial não teria ido pro ar. Negociar com a Globo não é nada fácil. Bom, no início fiquei super pé atrás com o projeto, mas acabei adorando o especial. Incrivelmente não tenho nenhum senão. Gostei de tudo que vi. E parece que agora acabaram decidindo que vai virar seriado. Vão começar gravando dez capítulos. Eu estou feliz, porque vou poder continuar trabalhando com mais tranquilidade. E é importante frisar aqui que a Aline da Globo passa a ser da Globo, do Mauro Wilson e do Mauricio Farias [diretor do especial]. Não se deve confundir a Aline do papel com a da TV. Mas o especial ficou igual às minhas tiras. Todas as minhas piadas estão lá.

Blog – Em “No Divã com Adão”, você comenta que fazia análise. Continua fazendo no novo país?
Adão -
Eu fiz um tempo, mas parei. Se você chutar uma moita em Buenos Aires, salta um montão de analistas. E desenhistas também. Agora, estou com uma filhinha de um ano e minha mulher está novamente grávida. Ou seja, não tenho mais tempo pro divã. Acho que estou na Patagônia pra povoar o pedaço, que é muito desértico.

Blog – Como vê a diferença entre o mercado de quadrinhos e lá e o de cá?
Adão -
A diferença maior que vejo entre nosso país e a Argentina é a seguinte: lá, eles leem mais que nós, brasileiros, mas tem uma economia mais complicada e menos habitantes. O Brasil tem uma economia mais sólida, mas se lê menos por aqui. O que salva o Brasil é’ nossa população. Muita gente, muito consumo. Cabe explicar que Buenos Aires é’ completamente diferente do resto da Argentina. Dizem que a Argentina é’ um gigante com a cabeça (Buenos Aires) muito grande. As províncias [como são chamados os estados] todas têm uma rixa com o portenho. Você vê Buenos Aires parecida com uma cidade europeia. Mas o resto da Argentina é bem mais simples. As pessoas também.

Blog – Para finalizar, você tem planos de voltar ao Brasil?
Adão -
Sim, tenho planos de voltar pro Brasil. Não sei se vamos querer criar filhos no frio tremendo de lá. Mas não quero morar numa cidade grande. Vamos morar numa praia, acho. Só vou sentir saudades do vinho e da carne argentina. Chuif.

Serviço – Lançamento de No Divã com Adão e Aline – Viciada em Sexo. Quando: sábado (23.05). Horário: a partir das 19h30. Onde: HQMix Livraria. Endereço: Praça Roosevelt, 142, centro de São Paulo. Quanto: R$ 34,90 e R$11, respectivamente.

(Paulo Ramos)

Fonte: Blog dos Quadrinhos

« anterior próximo »

Nenhum comentário

Faça seu comentário

Obrigatório.

Obrigatório; não exibido.

Opcional.

Artigos recentes

Copyleft Permitida a livre reprodução de todo o conteúdo do site. Pirateie e não peça para ninguém.
Login | RSS | Anuncie no site