Aberta temporada 2009 de adaptações literárias
A versão em quadrinhos de O Pagador de Promessas, lançada no meio do mês pela Agir, dá início a uma série de adaptações literárias que começa a chegar ao mercado.
Nos últimos dias, duas outras chegaram às livrarias e lojas de quadrinhos: Jubiabá de Jorge Amado e A Luneta Mágica, da obra de Joaquim Manuel de Macedo.
A primeira é um dos quatro títulos que inauguram o Quadrinhos na Cia., novo selo da Companhia das Letras. A outra é a estreia da Panda Books nesse filão.
Na próxima sexta-feira, há o lançamento de uma quarta obra do gênero: O Guarani.
Os autores dos quatro álbuns são conhecidos e respeitados na área do quadrinho nacional. Eloar Guazzeli, Spacca, Carlos Patati, Marcio de Castro, Ivan Jaf e Luis Gê.
Gê merece registro especial. Está há anos longe dos quadrinhos. Ele era um dos mais detacados quadrinistas brasileiros da década de 1980, mesma geração de Angeli e Laerte.
Os nomes envolvidos – e a façanha de dar fim à adiada volta de Gê – já sinalizam que se trata de um mercado aquecido no tocante a títulos do gênero literatura em quadrinhos.
É um assunto que tem tido bom eco na mídia, que encontrou – e irá encontrar uma vez mais – boas pautas nas versões quadrinizadas, como se fosse algo inédito no país.
O que a mídia talvez não noticie é o que está por trás dessa ebulição editorial. O interesse são as listas do governo, que levam quadrinhos para a escola (às vezes sem ler).
A principal é a do PNBE, Programa Nacional Biblioteca da Escola, do governo federal. O edital de concorrência dá especial atenção às adaptações.
Esse direcionamento é percebido nas próprias obras. Algumas – caso de O Guarani e de A Luneta Mágica – trazem apêndices com explicações ou práticas de ensino.
O diálogo primário da obra não é tanto com o leitor de quadrinhos ou com o potencial aluno. É com o governo e com o professor.
Essa percepção já foi mapeada também na literatura infantil, como lembra a professora universitária Magda Soares, no livro Literatura Infantil: Políticas e Concepções, de 2008.
Segundo ela, ocorre uma vinculação com o docente, o real leitor pretendido pelo catálogo.
As editoras, como toda empresa, objetivam fazer bons negócios e ter lucro. E as adaptações têm se mostrado uma aposta rentável, se vendidas ao governo.
Enxergar as adaptações como negócio não significa que o produto seja de má qualidade. Ao contrário: os trabalhos vêm se aprimorando a cada novo álbum.
As quatro obras lançadas neste mês são apenas o começo. A Ática, de O Guarani, tem na gráfica uma versão de O Cortiço (adaptado por Ivan Jaf e Rodrigo Rosa).
A editora prepara também álbuns de Memórias de um Sargento de Milícias (por Jaf e Rosa) e de Triste Fim de Policarpo Quaresma (por Luiz Antonio Aguiar e Cesar Lobo).
A Agir tem uma adaptação de Os Sertões (por Carlos Ferreira e Rosa) pronta há mais de um ano. Tem outras duas em produção. Isso sem falar nas surpresas, que sempre surgem.
E podem esperar por elas. As editoras, em especial as que não investiam em quadrinhos até então, estão à cata de desenhistas. Pelo menos um já fechou contrato.
A pergunta que talvez deva ser feita é que impacto isso terá para o mercado de quadrinhos nacional e para a produção realizada no país.
Um lado positivo já se vê: editoras pagando autores brasileiros para produzir álbuns, mesmo que sejam pautados em romances. É algo que não se via. Há autores bem empolgados.
No que tange à leitura em si, há pelo menos dois pontos de vista levantados, já lidos em artigos diferentes. Um é positivo, outro, negativo.
O positivo: os quadrinhos tornam o conteúdo de um romance mais atraente ao aluno. O negativo: tais produções afastam os estudantes da obra original.
Talvez ambos os olhares tenham razão. Os quadrinhos tendem a ser uma linguagem mais sedutora aos estudantes das séries iniciais. A literatura infantil goza do mesmo apelo.
Isso não significa, no entanto, que a adaptação deva substituir a versão original. Além de ser mais barata que os álbuns em quadrinhos, é essencial para o processo de formação.
A tendência daqui para a frente é que haja uma saturação de adaptações. Mas o saldo, parece, será favorável. Elas estão abrindo espaço para os quadrinhos na escola.
É preciso que editoras e governo já comecem a enxergar o próximo passo: o uso de obras autorais nacionais no ensino como forma de leitura. O caminho, creio, passa por aí.
(Paulo Ramos)
Fonte: Blog dos Quadrinhos

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