A Sad Flower In The Sand
tradução de Fernanda Canofre
John Fante – 100 anos
(8 de abril de 1909 – 8 de maio de 1983)
Sad Flower In The Sand (na tradução, “triste flor na areia”), documentário exibido e distribuido pela TV pública americana, PBS, no programa Independent Lens, foi o primeiro filme realizado sobre a vida de John Fante. Nesta entrevista o diretor holandês Jan Louter, fala sobre a descoberta do trabalho de Fante, os desafios de trazer seu espírito a tona, e sobre a importância da paixão e dos sonhos no cinema…
Eu acho que entendo melhor John Fante depois de fazer o filme. Eu descobri cada ves mais que ele era um homem ferido, discriminado durante a juventude por suas origens italianas e sua pele morena. Na minha opinião, esta “ferida interior” é a fonte de sua escrita. Como Joyce, sua esposa, fala no documentário, “John estava sempre com raiva. Ele não queria ser o cara do ‘olá, como vai’”.
(Jan Louter, diretor de A Sad Flower in the Sand)

O que te levou a fazer este filme?
Em 1984, eu visitei Los Angeles pela primeira vez. A maioria dos europeus se perde em L.A., mas para mim foi como estar voltando para casa, como se tivesse estado lá há muito tempo. Na época em que eu descobri Pergunte ao Pó. O prefácio de Charles Bukowski e as primeiras linhas do livro eram extasiantes. A partir do momento em que eu li isso, me apaixonei pelo livro.
Em Pergunte ao Pó, John Fante expressa seu amor por Los Angeles: “Los Angeles, dê-me um pouco de você! Los Angeles venha para mim, do jeito que eu vou para você, meus pés sob as suas ruas. Você, cidade linda, que eu tanto amo, você, triste flor na areia”.
Na sua juventude, Fante veio de Boulder, Colorado, para L.A. para se tornar um grande escritor. E no romance – através do alter ego de Fante, Arturo Bandini – você sente este espírito, a energia de um garoto que quer se tornar um escritor. De alguma maneira, Pergunte ao Pó é sobre escrever este romance – um romance sobre ter um sonho, e é importante ter sonhos, sempre, em qualquer idade. Sem sonhos a vida é chata! Assim, esta é a “mensagem” do meu documentário. Como Robert Towne expressa no filme: “Meu sonho é fazer um filme de Pergunte ao Pó“.
Em 1988, eu fiz um documentário de rádio sobre John Fante para a Dutch Public Radio. Naquela época eu entrei em contato com a sua esposa, Joyce Fante, e seu filho, Jim Fante. Também entrevistei Robert Towne. Jim me mostrou o centro de L.A. onde Fante viveu e onde se passa a história do livro. Todas as pessoas que eu conheci falavam com muita paixão sobre John Fante e seu trabalho. Como eu era uma das poucas pessoas interessadas em Fante na época, eu me tornei um membro da “família Fante”.
Depois que eu fiz They Destroyed All the Roses (meu documentário sobre o escritor Jean Rhys, que escreveu Vasto Mar de Sargaços) era meu desejo / sonho fazer um documentário sobre John Fante, focado em Pergunte ao Pó. Mas era difícil conseguir financiamento. “Quem diabos é John Fante?”, as pessoas perguntavam. Ninguém o conhecia na Holanda. Finalmente eu consegui. 
Quais foram os desafios que você enfrentou ao fazer este filme?
O desafio mais importante foi trazer Fante de volta para a vida, permitir uma identificação entre o espectador e o assunto. Para isso, eu filmei imagens em 18 quadros por segundo, que usei para acompanhar as citações de Fante na primeira parte do filme. Com o efeito tremido daquelas imagens, o espectador poderia imaginar John Fante, como ele era caminhando pelas ruas do centro de L.A., voltando da morte.
Como você abordou o processo de edição?
Quando eu estava editando o filme, às vezes eu tinha a sensação de que John Fante estava olhando por cima do meu ombro. Eu podia sentir sua respiração. Podia estar errado, mas quando o filme foi finalizado ele desapareceu, como se ele quisesse dizer, “está bom”.
A segunda parte do filme é mais biográfica, e foi a mais difícil para editar. Eu não queria mostrar retratos de Fante, na tela cheia, para evitar um efeito de foto parada. Eu queria imagens sempre em movimento. Mas, não existiam filmes de Fante, então as fotografias eram “cortadas e coladas” com o material de arquivo que tinha movimento.
Quais são as suas impressões de Los Angeles hoje, comparadas com quando John Fante escreveu sobre ela?
Los Angeles hoje ainda é uma fábrica de sonhos. As pessoas ainda vão para lá, vindas de todas as partes dos Estados Unidos, para realizar seus sonhos. De algum jeito, não é muito diferente agora do que era quando Fante escreveu sobre isso.
Como Joyce Fante, a mulher de John Fante, se sentiu por participar do documentário? Qual foi a opinião dela?
Joyce ficou muito satisfeita com o documentário. Depois da morte do marido, ela se dedicou em torná-lo um homem famoso. E conseguiu. Sacrificou sua própria carreira pelo marido. Ela era poetisa, mas sabia que seu talento não era páreo para o de John.
Seus documentários mais recentes focaram em Jan Montyn (2004), John Fante (2001) e Jean Rhys (1996) – cada um deles uma mente criativa, comprometida em lutar por alguma coisa. O que te atrai neste tema?
Todas as pessoas que eu mostro em meus documentários possuem uma “ferida”. Todos eles lutaram e batalharam para criar outra vida com seu trabalho.
Que impacto você espera que este filme tenha?
Eu espero que alguém assista A Sad Flower In The Sand e se torne curioso sobre os livros de John Fante. E quando ele ou ela tiverem terminado, digamos, Pergunte ao Pó, que ele ou ela digam, “sim, é um grande livro”, e eles nunca irão desistir de seus sonhos.
O circuito de cinema independente é bastante difícil. O que te mantém motivado?
Tudo é difícil no mundo das artes. Eu sinto uma urgência de contar histórias. Eu não quero pensam em como é difícil conseguir fundos para os meus filmes. O melhor é acreditar no que você está fazendo. Eu trabalho duro, todo dia, e aproveito mais a vida quando estou trabalhando nos meus filmes.
Assista
- Ao trecho do filme com Joyce Fante.
- A entrevista de Robert Towne, roteirista de Chinatown, no documentário da PBS.
Publicado originalmente no site PBS.

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