Traída
por Leandro Malósi Dóro
Tenho lágrimas nos olhos e vergonha por não ser mais forte. Queria desabafar, porém agora não confio em ninguém. Por isso escrevo. Lembra quando eu, sozinha, tomava café com leite no bar ao lado do meu antigo trabalho? Você se sentou em uma banqueta, ao meu lado, e pediu um expresso. Sorriu, mostrando dentes perfeitos.
– O horário do almoço é um reencontro com a vida – você disse. Corei e correspondi ao seu sorrir.
– Nem me fale. Meu dia ainda será longo – respondi.
Continuou a mirar meus olhos e me falou sobre uma escritora, a Clarice Lispector. Estudei seus contos na escola e aquela lembrança me deixou feliz. Falei sobre quando fiz cursinho pré-vestibular, meus colegas e amores e parei um instante. Nunca havia conversado tanto com uma pessoa que nem sabia quem era. Somente via que você usava calça social preta, sapatos, camisa social amarela, penteado de menino que vai para a escola e sorriso de dentes brancos e perfeitos.
Envergonhei-me dos meus cabelos castanhos desgrenhados, minhas olheiras de quem acordou de madrugada para ir trabalhar e a blusa, cujas alcinhas insistiam em cair pelos braços. Orgulhava-me apenas da minha saia preta, as meias calças e o sapato preto.
Trocamos telefones. À noite, você ligou. Aceitei jantar. Nunca havia ido a um restaurante japonês. Vi isso apenas em novelas. Gostei de sentar-me no chão naqueles tapetes de bambu, os tatames, e comer com os pauzinhos. O nome é rachi? Você contou piadas. Disse que era contador e o quanto gostava de planilhas Excel. Eu, como secretária, mexia com essas planilhas, também.
– Conheci o arquipélago de Fernando de Noronha ano passado. Mergulhei mais de 40 metros no Pontal do Norte – você falou e me convidou para ver as fotos em sua casa. Aceitei como seu eu não soubesse o que desejava. Claro que eu sabia, pois queria o mesmo que você. Em sua casa, tomei café olhando para a vista dos prédios sobre a cidade, tão diferente da casa de periferia, que e divida com uma amiga, onde mirávamos apenas muros.
Fizemos amor em lençóis perfumados isso se repetiu por três meses. Nunca deveria ter me entregado tão rápido. Nunca tive dias tão prazerosos. Nós, recobertos de suor. Ia trabalhar exausta e feliz. Deixei de morar com minha amiga. Foi difícil, para ela, pagar sozinha o aluguel. Nem desconfiei das vezes em que você recebia telefonemas de trabalho e irritava-se. Parecia normal gritar quando se tratava de trabalho. Como fui boba. Você torceu meu braço na saída de um restaurante porque esqueci o casaco e quis voltar para pegá-lo. Pensei que estivesse bêbado.
Perdi meu emprego sem motivo aparente e passei a ficar os dias em casa. E recebi o primeiro tapa no rosto, que se seguiram a outros que se repetiam com mais outros. Todavia eu não podia mais sair do seu lado. Estava sem trabalho, sem renda. E me tornei sua refém.
Recordo-me do dia em que sentou sobre mim. Bateu no meu rosto com mão aberta. Cheguei ao hospital com deslocamento de retina. Recusei-me a acusá-lo de agressão. Telefonei para minha amiga, aquela que antes morava comigo. Voltamos a morar juntas.
Livrei-me da tua mão pesada. E você gritava enquanto eu saía com minhas malas. Procurei trabalho. Nunca conseguia. Todos se recusavam a me contratar. Tentei me reerguer. Minha amiga emprestou dinheiro para eu comprar uma máquina para fazer roupas íntimas. Convidei revendedoras e oferecia meus panos nas ruas da cidade.
Um fiscal apareceu em um mês e perguntou se minha empresa estava registrada. Disse que ainda não. Perdi minha máquina e meu trabalho. Endividei-me, pois ainda não tinha pagado o empréstimo a minha amiga e nem os últimos fornecedores. Procurei um banco. Recusaram-se a oferecer empréstimo. Tentei recomeçar. Porém o cartão da minha conta estava bloqueado e surgiu uma dívida em um cartão de crédito que, juro, nunca tive.
Minha amiga recebeu ordem de despejo. Mostrou a imobiliária os canhotos dos aluguéis pagos, entretanto não aceitaram como prova. Eu e ela fomos para a rua. Dormimos em uma pensão acompanhadas por ratos e um cheiro de urina que sinto enquanto agora escrevo. Nenhuma das duas tinha família para recorrer. Éramos sós.
Ela tentou saber quanto dinheiro ainda tinha na conta. Mas seu cartão estava bloqueado. Não tinha previsão de volta. E fomos para a rua em três dias. Ela perdeu o emprego, assim como eu, sem motivos aparentes. Saíamos juntas a procurar trabalho. Lavávamos-nos em banheiros públicos. Dormíamos em albergues, fugindo dos cheiros humanos e dos mendigos que queriam nos estuprar.
Lembrava-me de ti e de teus lençóis sempre limpos.
A cada porta que batíamos recebíamos um não. E isso se repetiu dezenas de vezes. Eu e ela não passávamos nem da primeira etapa dos testes de emprego. Um dos homens que se recusou a me contratar chamou-me para conversar no corredor da empresa.
Estranhei. E daquela boca cercada por bochechas enormes e suarenteas vieram as frases que nunca esqueci.
– Não sei o que fez para ele, moça, mas o seu ex-namorado mandou que ninguém na cidade a contrate. Ele é um um lobista famoso, moça. Conhece todos os políticos e pode derrubar qualquer empresa apenas mandando cobrar nossas dívidas com o governo.
Vieram lágrimas que caiam pelo meu rosto e pareciam afundar no meu peito. Caminhei mais de meia uma hora te seu apartamento e no percurso veio o ódio. E era o suficiente para matá-lo a socos. O zelador me deixou entrar. A porta do seu apartamento estava aberta e você nu no meio da sala.
– Por quê faz isso comigo? – gritei. E você apenas sorria. Fiz a mesma pergunta várias vezes e cada vez com mais potência. E você apenas sorria.
Aproximei-me. Queria que ouvisse ainda mais meus gritos até que eu repetia apenas o por quê. E você apenas sorria. Bati em seu rosto e recebi socos em minha cabeça, em meus seios, em meus braços. Caí e fui chutada com seus sapatos. Sim, nem havia percebido que estava nu de sapatos.
E doía. Desfaleci.
Recobrei os sentidos. Eu estava sobre o parapeito da cobertura de um prédio. Se eu me movimentasse mais um pouco, cairia. Tentei gritar, mas a voz não vinha. Nem voz, nem lágrimas. A respiração parou e senti vontade de rir, mesmo sem ar. Você queria que eu caísse de um prédio? Eu seria registrada como suicida? Queria um crime perfeito? Dormi.
Acordei de madrugada, queimada pelo sol e dolorida. Levantei-me para descer as escadas.
A porta metálica que dava acesso ao prédio estava trancada. Soquei e chutei a porta. E tentei gritar. Ninguém respondeu. Fiquei ali mais uns dois dias, acho. Usava a mesma blusa de alcinha do dia em que o conheci. E a mesma saia, que desbotou.
O segurança do prédio abriu a porta. Expulsou-me dali a vassouradas.
– Saia, mendiga. Quem deixou você entrar nesse prédio? Saia. Corri pelas escadas.
No saguão do edifício eu me vi de relance no espelho. Estava sem alguns dentes e com sinais de sangue seco pelo corpo. Hematomas nos olhos, nos braços e em todos os lugares que doíam, que parecia ser o corpo inteiro. Caminhei para trás de uma lata de lixo. Comi um pedaço de pão mofado e dormi. Acordei cercada por mendigos. Um deles tinha uma barba longa e branca e tentou pegar nos meus seios.
– Sai daqui – disse. Espantei-me por ouvir minha própria voz, rouca e envelhecida.
Quis correr, mas conseguia apenas caminhar mancando. Entrei em uma igreja. Um padre pediu para eu ir embora. Implorei para ficar e ele exigiu que antes eu tomasse banho. Concordei. Levou-me ao pátio da igreja e me molhou com uma mangueira. Acordei. Queria tirar os trapos que eu vestia, mas tinha vergonha de fazer isso em frente ao padre.
– Freira Carmina, venha me ajudar – cantarolou o padre, como se lê-se meus pensamentos. Apareceu uma mulher de nariz adunco, em forma de gancho, e repleta de rugas. O rosto era coberto pelo manto preto das freiras. Era lenta e pesada.
– Vou te dar um vestido, senhora.
Senhora? Será que disse isso por respeito ou porque envelheci nesses meses. Até há pouco tempo me chamavam de mulher, garota ou menina. Nunca de senhora.
Ganhei uma camisola branca e puída. Senti-me como se estivesse em um vestido de festa. Ela me levou pela mão, com seu passo lento, para o porão da igreja. E lá vi mendigos velhos, doentes, deitados em camas de madeira. O lugar fedia a mercúrio e água oxigenada.
A freira me deitou em um colchão e ali dormi. Sonhei com minha mãe. Eu nunca a conheci. Fui criada pela minha tia-avó. Você sabe. Eu te contei ao final de uma das nossas noites de amor. Mas nesse sonho eu a via me pegando no colo. Dando-me mamadeira e beijando meu rosto. Via seu sorriso e ela repetindo meu nome. Acordei e vi a freira.
– Mãe – sussurrei.
A freira tremeu. Colocou a mão em meu rosto e disse que eu ardia em febre. Pôs gelo em meu corpo e dormi novamente, sonhando que eu era menina e corria pelo pátio de casa em que fui criada. Chamava por minha mãe. E ninguém aparecia. As portas e janelas estavam fechadas.
Na cama do porão da igreja, comia sopas e tomava água. E me fortaleci. Levantei-me em duas semanas e já ajudava as freiras a cuidar dos mendigos. E observava aquela freira que me ajudou como se fosse minha mãe. Acarinhava suas mãos rugosas e em troca eu recebia cafuné.
Consegui trabalho. Dobrava e cortava panfletos e jornais em uma gráfica da igreja. Dormia em uma pensão para mulheres ali perto. Comia massa pura no almoço e pão com manteiga na janta. Mas estava feliz. Nunca mais soube da amiga que morava comigo. Sumiu. Nem quis a procurar.
Imaginei que você deve ter pensado que eu estava morta. Se encontrasse minha amiga, provavelmente você ia descobrir que eu estava viva. Ia começar a me perseguir de novo. Ficava horas no escuro tentando imaginar um motivo para você sentir ódio de mim. Nunca descobri. Parecia que eu era um rato de laboratório, um experimento científico de uma criança cruel.
Conversava com a freira e ela pedia para eu o perdoar. Concordava, verbalmente, mas nunca consegui deixar de pensar em vingança. Você destruiu minha vida. E eu queria destruir a sua. A freira morreu, em uma tarde de domingo. Chorei e pedi a deus para morrer com ela. Essa era a única pessoa que me escutava. Era a única que me acalmava.
Parei de trabalhar na gráfica e passava os dias na pensão, sozinha em minha cama. Falei com o padre e ele conseguiu um trabalho em um lugar que não desejo revelar. Comprei um velho computador, com um monitor preto e branco.
Comecei a escrever nossa história. E descobri que essa será minha vingança: descobrir quem você é, porque quis me destruir e colar a sua e a nossa história pelas ruas da cidade. Ainda tenho lágrimas nos meus olhos. Contudo eu juro: sentirei orgulho de mim. Serei forte.
* * * * *
Leandro Malósi Dóro é cartunista, jornalista, produtor gráfico e aspirante a escritor. Entre um rabisco e outro, produziu o livro de ficção baseada em fatos reais Revolta dos Motoqueiros.
Aqui n’Os Armênios, mantém a coluna Repimbolantes que traz textos literários, quadrinhos e ilustrações. Pra conhecer mais o trabalho do Dóro acesse Contos em Quadrinhos & Contos e Mais Literatura & mais esse AQUI!


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