Coraline Yes
por Nathan Elias Fernandes
Antes de tudo, Coraline é uma enganação. Porque quando crianças dizem “eu tô com medo, quero ir embora” no meio de um filme, quer dizer que ele não é lá muito infantil. Mesmo porque nada que seja baseado nos quadrinhos de Neil Gaiman, o mestre de Sandman, poderia ser de todo ingênuo. E Coraline realmente não é. Não fosse a temática fantasiosa e por vezes colorida com estética animada, Coraline passaria por um filme mais sério qual O Labirinto do Fauno.
As mães no cinema que não leram a história não sabiam para onde estavam levando seus filhos. Era uma viagem sem volta tão perigosa quanto a da personagem de cabelo azul, roupas excêntricas e nome incomum do filme. (Não confundir com apresentadores da MTV).
Tudo acontece quando Coraline descobre um mundo paralelo a uma parede de distância em sua nova casa. Um lugar onde seus pais são atenciosos, seus brinquedos têm vida e, certamente, Faustões & Gugus não passam na tv. Enfim, um mundo perfeito… exceto pelo pequeno detalhe macabro que estampa os rostos de quem vive lá. Todos nesse mundo têm botões de camisa no lugar dos olhos, o que lhes garante um aspecto assustador. E para permanecer ali, Coraline terá de trocar seus olhos também. Uma troca justa proposta pela sua mãe falsa, uma mulher esquelética ao melhor estilo Vitória Beckhan de ser – a diferença é que a megera adora comer vidas.
Para falar dos personagens coadjuvantes seria necessário mais que três parágrafos, talvez um livro. A começar pelas vizinhas de baixo, umas velhas atrizes malucas tomadoras de gim, com seios enormes que empalham seus cachorros e aguardam a morte do próximo mascote como quem espera um ônibus. Numa das cenas mais incríveis, as senhoras fazem uma apresentação para uma platéia composta de cães schnauzer-miniatura que, de certo, não entendem as referências a Botticelli ou a Shakespeare. Mas talvez prestem atenção nos peitões desnudos que saltam pra fora da tela (e saltam mesmo, se o filme for visto em 3D). Os cachorros ainda são obrigados a assistir ao espetáculo humanista que eleva o ser humano a “adorno do mundo”, como se eles se importassem com isso.

Há ainda o vizinho adestrador de camundongos, que é definido como um bêbado pela mãe de Coraline. Não que ele seja realmente, mas suas atitudes não depõem a seu favor. Além disso, há o garoto falador que é único amigo da idade de Coraline. O que ele tem de bobo no mundo real, tem de triste e misterioso no mundo paralelo, já que a cruel outra mãe o obriga a sorrir o tempo todo, chegando mesmo a costurar um sorriso quando o menino cansa de fingir felicidade.
Mas o personagem mais importante da história sequer é humano. Com toda a elegância e charme que só os gatos podem ter, o Gato Preto (“Gatos não tem nomes… Vocês pessoas têm nomes. Isso é porque vocês não sabem quem vocês são. Nós sabemos quem somos, portanto não precisamos de nomes”) é um personagem essencial nas empreitadas de Coraline mundo (paralelo) afora. É o personagem mais sábio e dono dos diálogos mais marcantes do filme.
Todos os personagem ali parecem ser problemáticos. Como na vida real, ninguém é perfeito, mas, no filme, essa máxima parece ser levada a sério demais. Cada um tem uma bizarrice escondida nos bolsos, pronta para aparecer a qualquer momento. E é exatamente isso que alimenta Coraline e a faz continuar. E é exatamente isso que enriquece a história e nos faz continuar.
Qualquer semelhança entre o mundo secreto de Coraline e o país das maravilhas de Alice não é mera coincidência. Ambas flutuam entre um mundo e outro e encontram em um animal as respostas que precisam para não se deixarem iludir com um lugar aparentemente simpático. E mais. Tanto o universo de Gaiman quanto o de Lewis Carroll parecem ser sombrios e perturbadores demais para serem contados para crianças antes de dormir. Mas fazer de Coraline uma Alice moderna seria exagero.
Ainda assim, todo o lirismo de Gaiman pode ser encontrado nessa história nascida de uma ideia maluca. “Maluca” no melhor sentido da palavra, porque como já dizia o físico Neils Bohr, a questão não é saber se a idéia é maluca, mas se é suficientemente maluca para ser verdade. E Coraline é uma história suficientemente maluca para ser verdade. Talvez disso ninguém possa duvidar.

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