Os Armênios

Uma Tentativa Frustada De Ser Quem Não Sou

Postado em 15 de fevereiro de 2009

por Felipe Attie

Os puteiros fedem. Fedem a fantasias de carnaval — uma mistura de colônia doce mesclada ao odor de muitas trepadas. As putas fedem. Fedem a promiscuidade. Fedem a falsos orgasmos. Fedem a dinheiro. Mesmo sabendo que lá dentro você nunca encontrará a norinha que mamãe sonha ter, você acaba entrando e freqüentando.

Entrei e sentei em uma das muitas mesas disponíveis. “A casa ainda vai encher”, comentou a gerente, justificando a ausência de vida naquele lugar. Eu e meu amigo compramos umas cervejas e demos início à noite. Sempre é assim: só após algumas garrafas vazias é que as putas começam a surgir e a se esfregar em você de modo desconcertante, feito gatos famintos. Caso você não esteja interessado, nem pense em tocá-las. Pois isso as fará pensar que você deseja desfrutar de seus serviços e ficarão circulando sua mesa como mariposas numa lâmpada.

Em um dado momento da noite, lembro ter visto duas meninas nuas recostadas no balcão do bar. Eram belas e, apesar de estarem nuas num lugar como aquele, conseguiam, de alguma forma, se destacar das demais.  Enquanto isso, meu amigo já estava babando e fazendo um filme pornô em sua mente e, antes mesmo de eu perguntar se ele aceitaria alguma delas como presente meu, ele estava de pé, partindo rumo a seu mais novo sonho de consumo.

“Calma”, disse, puxando-o pelo braço. “Você tem com quanto ai?”
Ele abriu a carteira, me olhou profundamente e sentenciou: “Nada.”
“Ótimo!”, resmunguei. “Então vamos resolver isso. Qual você vai querer?”
“A morena.”
“Essa já é minha.”
“Então, por que você me perguntou?”
“Pra saber se eu estava fazendo uma boa escolha. Vamos.”

Cheguei ao balcão e pedi um quarto. Enquanto isso, meu amigo olhava sorridente para as meninas, como uma criança que namora o brinquedo da vitrine. Apesar de ter topado a idéia, o nervosismo me dominava. Afinal, era a primeira vez que eu tomava uma atitude como aquela e estava sendo estimulado por minha vontade de esquecer um relacionamento recém-acabado. Não há nada que um pouco de álcool e sexo não superem. Conforme nos aproximávamos do quarto, um tremor foi tomando meu corpo até que eu não conseguia sequer sentir meu pênis. Foi aí que notei o quanto as coisas estavam estranhas pro meu lado, e o quanto eu não deveria fazer aquilo. Não naquele lugar. Não daquela maneira. Mas enfim, nunca voltei atrás das minhas atitudes e não seria agora que voltaria. Não de mãos dadas com uma puta.

Entrei no quarto e me tranquei no banheiro decidido a usar algo estimulante, pois, se deixasse as coisas fluírem naturalmente, simplesmente, não iria fluir nada. Quando se entra em contato com “algumas substâncias”, a primeira sensação é um desconforto repentino que logo é acentuado pelas suas percepções alteradas. Sua musculatura não responde ao comando cerebral, pois seu cérebro está muito ocupado, respondendo a todos os impulsos e estímulos promovidos pela química. Seu maxilar não se mantém firme como de costume e você não consegue manter o foco visual por mais de dois segundos. Tudo que sua mente te mostra são imagens desconexas promovidas pela alucinação e, por mais que você reconheça isso e saiba que tudo não passa de delírio, você continua se encantando ao ver fadas seminuas e se assustando com dragões de sete cabeças dispostos a te devorar vivo.

Não demorou até que a minha menina chegasse. Sempre me achei apressado, mas fiquei assustado com a velocidade das coisas. Naquele lugar, tempo é dinheiro. Portanto, se você é um cara como eu, nunca vá num lugar desses. Isso é um conselho. Antes que eu pudesse desabotoar a calça, a moça estava me devorando — ou tentando — e esperando que eu reagisse imediatamente aos seus encantos. Foi justamente o que não aconteceu. Ao olhar dentro dos seus olhos, notei que ela não era quem eu estava procurando. Nem de longe se parecia com a pessoa dos meus sonhos. Desde então, não consegui sentir nada por aquele corpo que se entregava aos meus domínios. Olhei para o meu pau e tudo que vi foi um pedacinho de carne murcha entre minhas pernas.

“O que estou fazendo aqui? Por que estou me enganando?”, pensei, olhando para o meu amigo que metia freneticamente no rabo da loirinha.
“Por que você não para de olhar para eles?”, perguntou minha menina.
“Gostaria de estar fazendo o mesmo com você. Mas você não está colaborando”, respondi ofensivamente, tentando me esquivar da responsabilidade de cumprir meu papel sexual — que consiste em erguer uns 17 centímetros de carne e nervo.
“Não depende só de mim!”, ela resmungou.
“Eu sei meu amor, mas a puta aqui é você! Portanto, a obrigação é sua!”, ironizei.
“Eu não acredito que estou ouvindo isso!”
“Eu também não acredito que você ta me fazendo perder 69 pratas!”, respondi.
“Você quer ou não me comer?”, perguntou.
Meu silêncio me sentenciou.

Pedi para ela me chupar, e ela disse que só chuparia de camisinha — como vestiria a camisinha, levando em consideração que a chupada seria uma tentativa de levantar meu amigo dorminhoco? Achei a situação um pouco contraditória e insisti para que ela desistisse da idéia do preservativo, ao menos na parte do sexo oral. “Depois que eu estiver pronto, eu visto o preservativo, te como e todos ficamos bem”, esclareci meu plano.

“Você é louco? Não faço nada sem camisinha!”.
“Pense comigo, os riscos maiores são meus”, disse, tentando tranqüilizá-la.
“O que você está insinuando?”, ela me perguntou, indignada.
“Que você é suja. Eu não”.
“O que você disse?”, gritou, enquanto começava a se vestir. “Pra mim chega!”
“Vocês vão ficar discutindo ao invés de trepar?”, perguntou a puta loura, enquanto tirava o pau do meu amigo da boca.
“Nós estamos discutindo qual será nosso enxoval de casamento”, brinquei.

Conforme a discussão avançava, olhei o relógio e vi que o tempo já havia se esgotado, e logo apareceriam brutamontes de terno para nos retirar do quarto, caso ficássemos mais um segundo por lá.

“Cara, o tempo esgotou!”, alertei meu amigo. “Goza logo e vamos nessa!”
“Vai! Vai! Mete mais! Vai fundo! Me fode! Eu sei que o tempo acabou, mas mete só mais um pouquinho!”, berrava a vaca loura ensandecida.

Nesse instante, um brutamonte de terno parou na porta do quarto com uma face nada amistosa. Olhei para ele e abri um sorrisinho típico de quando se deseja provocar alguém. Ele me encarou com um olhar maligno e eu pude notar os enormes dentes que saíam da parte inferior de sua mandíbula e se erguiam até a altura do nariz. O enorme nariz, por sua vez, sustentava uma enorme argola que poderia me servir de pulseira. Ao me aproximar, pude notar que o terno não passava de uma armadura medieval, onde manchas de sangue sinalizavam que aquela horrenda criatura acabara de sair vitoriosa de alguma batalha mortal. Mesmo sabendo que tudo não passava de alucinação, tudo que fiz, foi gritar de desespero e correr feito um louco rumo à saída, deixando meu amigo pra trás. “Ele vai ficar bem”, pensava, enlouquecido. “Ele sempre fica bem”.

Na volta pra casa, ainda sofrendo os resíduos da química, refleti sobre o que tinha vivido e o porquê de essas coisas acontecerem comigo. “Tudo bem. Deixa pra próxima”, pensei. “Não rolou e ponto”, assumi, tentando me enganar. A grande verdade é que eu nunca deveria ter entrado lá. Por mais que eu me esforce em manter uma postura transviada, eu, no fundo, não passo de um babaca romântico. E desde então, aprendi que de nada adianta se esconder atrás de atitudes ilícitas para tentar superar uma perda. De nada adianta se esforçar em esquecer alguém. De nada adianta tapar a realidade dos fatos com uma fina camada de prazer artificial. O melhor a fazer é encarar os fantasmas que te assombram, vestir o roupão da derrota e dar tempo ao tempo. Uma hora ou outra tudo é superado. De nada adianta não ser você.

* * * * *

Visceral Literário

Felipe Attie é redator e jornalista na hora de trabalhar, escritor e cartunista nas horas de lazer e hipocondríaco quando não tem o que fazer.

Aqui n’Os Armênios, o kolunista de Visceral Literário apresenta seus textos insólitos & ilustrações peculiares. Felipe também mantém um blog, que é de onde essa koluna se ramifica. Confira clicando aqui.

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2 comentários

Tiago

Isso ja aconteceu comigo, mas com a amiga feia da minha irmã. Foi horrivel.

boo

eu achei genial esse texto.
boas vindas!

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