Os Armênios

Virada Cultural 2008

Postado em 26 de maio de 2008

por Fernanda Peres Rocha

Eram quase 18h00min quando consegui (depois de muito procurar) chegar à avenida Pedroso de Moraes, número 631. A ressaca de uma noite cheia de amigos e pós-show dos baianos Retrofoguetes (com direito a after mais que animado) devorava meu cérebro. Cada cigarro tragado era um soco em meu estômago, mas estava lá, ao lado do pessoal da Rolling Stone para retirar minha credencial da quarta Virada Cultural – direto para Os Armênios.

Virada Cultural é sempre bem vinda. Um dos pontos altos, sem dúvidas, é poder andar por um iluminado e seguro centro de São Paulo à noite com o pensamento voltado somente à diversão. Lembro que foi Rogério “Big” Britto (Bigbross Records, ABRAFIN e ABASIN) quem me contou, numa quinta-feira de Fun House (really fun), sobre o palco da Abrafin, que realmente me interessei. Não que eu deixasse de ver os grandes shows para ficar no Pátio do Colégio, mas aquela idéia de ter um palco com as principais bandas que rodam o país inteiro nos grandes festivais espalhados por aí – tocando para um público que (bem provável) como eu, não tem acesso à todos – caiu como uma luva e me motivou à enfrentar mais uma vez 24 horas malucas de auge, bagunça e cansaço.

E foi justo ali, no palco independente, que a Virada começou para mim.
Mesmo hospedada em um hotel na São João, não consegui chegar a tempo ao Pátio do Colégio para ver a Mundo Livre S.A. (PE). Na verdade, o palco independente era ligeiramente longe dos outros palcos e próximo das pistas de eletro, psy e da Pista das Casas (onde as maiores casas de São Paulo apresentavam seus melhores DJs durante aproximadamente uma hora cada), ou seja, não era tão fácil assim.

Lembro que numa casa Faichecler havia surgido um comentário sobre a banda Luísa Mandou um Beijo (RJ), foi em frente ao palco quando essa minha amiga (ao responder minha pergunta sobre a banda que sucedia Mundo Livre), disse: “é bonitinha”, peguei mais uma cerveja e saí com ela para descobrir o que acontecia na redondeza. Não que a banda fosse ruim, mas aquele som “bonitinho” não correspondia a minha vontade naquele momento.


Voltas & cervejas & papos furados & encontros… depois começou o show da Vanguart. Honestamente fico até sem jeito de escrever sobre a Vanguart aqui. Todos já estão mais que cansados de saber o quanto admiro o trabalho desses cuiabanos. Falo a mais de dois anos e não canso de repetir que eles são uma das melhores bandas que surgiram por esses tempos no Brasil. Me limito a dizer hoje que, apesar de um pocket show, os meninos agitaram o segundo maior público do palco independente (o primeiro foi do Mundo Livre S.A. e ainda não me conformo em ter perdido) que dançava e cantava todas as músicas tocadas (fossem elas em português, espanhol ou inglês), até o final. Mesmo que o som não ajudasse muito… (by the way, dos shows que vi, foi a única banda que o equipamento não ajudou).


Depois de abraços, comentários e brincadeiras, resolvemos jantar. Virada Cultural é um pulo para entrar em uma bebedeira sem fim, ou seja, era o início e ninguém queria ficar de porre… ao menos não ainda. Mais algumas cervejas, estátuas vivas, alguns carboidratos, artistas plásticos (que não deveriam ser alimentados) e outros curtas trash mais tarde, estávamos prontos para encarar mais um show. E neste instante, quando já havia reencontrado vários amigos e feito amizade com desconhecidos, me sentia a pessoa mais legal da noite (percebi quem realmente era legal).


A organização do evento esteve de parabéns durante todo o tempo, mas como não é todo o dia que se vê Zé Ramalho. Não teve jeito, ninguém escapou da muvuca. Quando digo ninguém falo com autoridade, já que até na frente das grades, aos pés do palco o empurra-empurra era inevitável. Um Zé Ramalho que brilhava não só por seu talento, como também por sua roupa ultra-reluzente, dominou a todos com seus maiores hits. Era só olhar em volta e perceber que aquele era o show mais esperado da noite. De crianças a idosos, ninguém parecia acreditar no que estava vendo. Desde a abertura do show com “Beira Mar”, passando por “Chão de Giz”, “Brilho de Facas”, “Táxi Lunar”, “Avôhai”, até o final, dava para se ouvir o coro retumbar no centro paulistano. O auge, sem sobra de dúvida, foi “Admirável Gado Novo”, tema da novela global “O Rei do Gado”, de 1996.

Para fugir da baderna, fomos dançando (e mesmo se não quiséssemos nos fariam dançar) para um prédio ao lado, nos preparando para mais uma longa, e agora bagunçada, caminhada. Alguns bons minutos e várias pessoas empurrando, já estávamos de volta ao palco da Abrafin, onde subia o trio de instro surf soteropolitano Retrofoguetes. O show era mais que familiar. Tirando o fato de já tê-los visto dois dias antes, no Clube Belfiore e ter ficado com gosto de “quero mais” (dizem as más línguas que por luxúria de um pseudo-famoso, e até admito concordar), estava cercada de amigos que iam desde uma querida conhecida de tempos, Dani Luquini, passando por Big (falei dele lá no início), Bruno Montalvão (produtor da Vanguart), à Tuba (Faichecleres) e Joe (Pitty). Fazendo daquilo uma parte reduzida do que estava ainda fresco em nossas memórias.


Big normalmente me falava dos Retrofoguetes, mas vocês sabem como funciona. Não é sempre que lembramos das várias bandas que nos falam por aí, principalmente quando quem fala é alguém que conhece várias e as despejas uma atrás da outra. E em noites nas quais não conseguimos, e nem queremos, raciocinar muito. Ele tinha falado, e eu deveria ter do em busca deles antes, mas não… Retrofoguetes é (parafraseando muita gente por aí) de cair o cu. Surf music, misturada com psychobilly, música tradicional mexicana, boleros e rockabilly, mistura que não cabia em minha cabeça até ficar frente a frente com eles. “Surf o matic”, “A Fantástica Fuga de Magnólia”, “O Espetáculo Continua no Circo” e outras músicas da banda, fizeram todos requebrar sem parar, no meu caso, nem para pegar uma cerveja.

Fim dos Retrofoguetes. O plano era correr para a São João e ver os Mutantes. Dava tempo. Aliás, daria se não tivéssemos esquecido o óbvio: vocês não acham terrível quando a memória falha? Pois é, um detalhe chamado Tuba havia sido esquecido. Quando se anda com Tuba, aquela uma quadra que você e eu fazemos em um minuto ou um minuto e meio, é feita em cinco. Todos o reconheciam, mesmo às vezes com a memória mais defasada que a minha. Xavier, Cachorro Grande, Vanguart ou o “cara que tava na MTV”, não importava. O que valia era conversar com ele. Claro que chegamos ao fim do show… São João vazia comparada àquela em que Zé Ramalho fez seu show. Como não vi o show (e nem me atrevo a comenta) digo que as conversas laterais sobre os Mutantes, não eram das mais animadoras.

A partir dali, alguns foram ver Lafayette e os Tremendões, que além do grande ex-tecladista do rei, contava com Gabriel (Autoramas), Renato (Canastra e Acabou La Tequila), Nervoso (Nervoso e Acabou La Tequila), Melvin (Carbona), Marcelo (Canastra) e Érika Martins (Érika Martins e os Telecats e ex-Penélope), e segundo comentários, foi excelente. Preferi obedecer minha cabeça, que não parava de girar, e minhas pernas que gritavam pelo hotel. Não estou acostumada ainda ao centro de São Paulo e tinha no mínimo mais umas seis horas de Virada Cultural pela frente. Optei pelo mais sensato: hotel, alguma porcaria salgada comestível, um chocolate, uma saideira, um programa qualquer de televisão em que não precisasse raciocinar, e por fim, o descanso.

Quatro horas de sono e um café da manhã bem servido, me preparei para um show que deixou uma pulga atrás da minha orelha. Explico: todos haviam falado bem e/ou mal de Mallu Magalhães, e para não cometer mais injustiças, disse que só teceria comentários sobre a adolescente depois de vê-la no palco. Adivinhem?! Mallu Magalhães derreteu meu coração! Tudo bem que no palco o que acontecia era o show do Overcoming Trio, projeto indie ultra-badalado e formado pelos queridos e talentosos Hélio Flanders (Vanguart) e Zé Mazzei (Forgotten Boys). E tudo para tocar canções de Dylan, justamente por ser um “trio”, contava (já explico o “contava”) com a presença de Mallu Magalhães. Agora, vamos conversar: era bem óbvio que eu gostaria do show, você pensa. Fã de Vanguart e Forgotten, não tinha como falar mal. Pois é, realmente estava claro que ou eu gostaria do tio ou do Overcoming, sem opções. Poderia ser outra garota prodígio ali, que tanto Hélio quanto Zé iriam segurar o tranco, mas não era outra, era Mallu Magalhães. 15 anos, voz doce, jeitinho de alguém que tinha sido largada naquele palco sem muito que fazer, com uma qualidade e consciência musical incontestável.


Aproveito agora para explicar o “contava”. Sempre surge alguma fofoca na cena rock-indie-funk-punk-n’ roll-now-folk-hype-true-from-hell, logo após um grande evento, e a da vez foi a saída da teenager do Trio, que mandou muito bem no Palco das Meninas na Virada. Sai Mallu e entra Nasi (extinto IRA!), mas não vou entrar em detalhes, o assunto agora é Mallu Magalhães. Nasi é conversa para outra hora em alguma mesa de bar.

Voltando à Virada… Muitos reclamaram da situação gerada em volta da “garota do momento” e por alguns segundos, quando criaram (digo “criaram” porque dar nome aos bois a essa altura do campeonato não irá somar em nada tanto no texto, quanto em minha ou sua vida) problemas para a imprensa chegar até o fenômeno folk tupiniquim, tive que concordar que aquilo era realmente um exagero. Passou um tempo e comecei a acreditar que ela até estaria certa em aceitar esse tipo de tratamento, já que apesar de todo seu talento, nunca se sabe quando uma moda vai acabar para dar lugar à outra. Overcoming Trio terminado. O negócio era correr embaixo de um sol escaldante até a República onde o bom e velho iria rolar.

Vou dividir algo muito pessoal sobre a Virada Cultural. Nunca consigo ver o show que digo ser o mais esperado das 24 horas. Ano passado foi Cauby Peixoto, e esse a Orquestra Imperial. Desde as 18h00min do dia 26, eu dizia aos sete ventos que não perderia o show da Orquestra (ao menos não pela quarta vez), mas como diz um grande amigo: “uma vez no rock, sempre no rock” e lá estava eu, palco Rock República, sem conseguir sair até o final da Virada.


Beto e a cachorrada já faziam o público enlouquecer sob o sol do meio dia, quando consegui chegar à frente do palco. Pausa para a cerveja e para os amigos espalhados pelo backstage, mais umas cinco, seis músicas (uma delas, o cover “My Generation”, do The Who mais que esperado) e pronto. Mais um pocket e mais um de qualidade. Ainda acho que a melhor música não foi tocada, mas com aquele terno preto levando sol na cara, tem que “deixar foder” mesmo.


Conforme os amigos chegavam e a cerveja rolava, não dava mais para saber o que era palco, backstage e camarim. Todos brindavam da forma que achavam melhor. Até Papel (Locomotores) deu o ar da graça, enquanto Tuba ressurgia das cinzas, Marimoon (Scrap MTV) andava de um lado para o outro em meio a conversas, Mahê “Madrasta” Machado me dava sua coroa e Arnaldo Antunes chegava (e foi Arnaldo Antunes, meu já querido do Prêmio Dynamite, que tietei… fazer o quê?! Foi mais forte que eu).

O show do Arnaldo foi um dos melhores que vi na Virada!!!

Sempre fui fã de Titãs (tipo coisa passada de geração para geração) e o único show que vi da banda, ele já não estava mais. Dessa vez a Virada não deu um pocket show (ainda bem) e o que se via no palco era um Arnaldo flutuante, sorridente e fazendo danças robóticas enquanto cantava “Fora de Si”, “Socorro”, “O Pulso”, “Não vou me adaptar” e tantas outras. Com sua banda formada de guitarra, violão e sintetizador (não, não havia bateria) na música “Silêncio”, rolou acordeon, mas nada de bateria.

Ainda ardia o sol em cima do palco, o que fez com que tudo aquilo parecesse melhor do que já era, mais honesto. Ali não rolavam as “caras e bocas” de rockstar. O que acontecia era o Sr. Arnaldo “Titãs/Tribalistas” Antunes com você, independente de você estar ali comigo ao pé do palco ou na última fila, ao lado do globo da morte (sim, havia motoqueiros brincando disso!). Arnaldo fez um show tão impecável quanto sua postura de músico e na última música que entendi o porquê foi o único (entre todos que encontrei na Virada e fui capaz de tietar).


Mais alguns goles e conversas furadas enquanto fugíamos do sol, después Lobão subiu ao placo com seu acústico. “Vou te levar”, “Essa noite não”, “Decadence avec alegance”, “Vida louca vida”, “Me chama”, “A vida é doce” e até “Gita” do Raul, fizeram parte de sua set list. Volta e meia eu lembrava do show da Orquestra Imperial, o qual estava perdendo naquele momento (e muitos classificaram como o “melhor show da Virada”, mesmo com as quedas de energia), mas não conseguia sair do lugar. Era um Lobão visualmente diferente daqueles que alguns conheceram na Jornada ou momentos de encontro em São Paulo. Era um Lobão sentado e calmo, mas na essência toda aquela contestação estava lá, em críticas ao governo e piadas sobre a epidemia de dengue no Rio de Janeiro.


Ok! Dispersei um pouco no show e acabei me metendo naquela festa que rolava atrás do palco. Mas vi, e vi mais da metade, e isso já valeu muito a pena. Ultraje a Rigor entrou às 18h00min do dia 27, finalizando a Virada no Rock República. Devo confessar que minhas alternativas me deixavam com Roger e sua trupe por dois motivos: o primeiro era que o último show do palco da São João era do Jorge Ben, show o qual assisti não fazia muito tempo e não havia me apetecido muito (aliás, ouvi reclamações no after); o segundo motivo é que se hoje gosto de rock foi porque há alguns anos atrás me ensinaram com Sui Géneris, Mutantes, Titãs e Ultraje, ou seja, era questão de família.


O show do Ultraje teve tema. Foi todo em cima do álbum “Nós vamos invadir sua praia” (1984), e ninguém parou de pular um segundo no embalo de “Ciúme”, “Zoraide”, “F.D.P”, “Independente F.C.”, “Mim quer tocar”, “Pelado” e tantos outros hits conhecidos, engraçados e cafajestinhos da banda. Lobão, que participou da gravação original do disco há mais de duas décadas atrás, voltou ao palco para tocar bateria na música faixa título do disco. Além disso, a “festa” do Ultraje contou com “Hey Ho, Let’s Go”, dos Ramones e (acreditem) “Paranoid”, do Black Sabbath, sem contar da música sensação dos bailes funks: “Créu”. Uma festa, de verdade. Depois do show, camarim lotado, correria, cervejas e tudo que se tinha direito para um digno encerramento da Virada Cultural.

Foram mais de 800 atrações (todas pontuais) em 24 horas seguidas. Só no centro de São Paulo, havia 26 palcos (isso sem falar nos “Céu”, cinemas, SESCs e teatros espalhados pelo resto da cidade) que além de música, apresentavam dança, teatro, performances circenses, filmes, exposições e até rodas de capoeira.

Dentre tantas coisas legais para se fazer, fica até chato admitir que vi somente oito shows, alguns curtas trash e intervenções (artistas plásticos, caminhões passando com uma banda tocando em cima, estátuas vivas e mais tantas coisas bárbaras que nem cabiam aos olhos).

Não vi Tom Zé porque era longe; não vi (de novo) Cauby Peixoto porque também era longe; não vi o Peréio declamando poesias às 4 da manhã porque não sabia onde ele estava; não vi Mutantes porque não cheguei a tempo; não vi Lafayette porque estava muito cansada; não vi Luíz Melodia porque a fila do Municipal estava muito grande; não vi Jair Rodrigues porque estava vendo Ultraje e não vi Orquestra Imperial porque uma vez no rock, sempre no rock (e no RJ deve ser mais legal).

Virada Cultural é assim, deixa com um gostinho de quero mais e com uma idéia absurdamente maluca de que poderiam ser mais 24 horas. E que venha a de 2009!

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2 comentários

Renuska

a idéia da virada é realmente animadora. Animadora, mas ao mesmo tempo, parece um desafio. E não deixa de ser.
Pena morar tão longe e não fazer muita idéia de como é essa sensação sentida na pele. Mas já dá pra imaginar lendo tua resenha! beijos

Maíra R. Martini

Deve ser uma loucura mesmo!

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