No inferno de sua “cabeça”
por Pablo Tavares
A Internet facilitou muito as coisas. Quando, uns quinze anos antes, poderia fazer uma entrevista com alguém que morasse fora do Brasil? Quando a pessoa estivesse aqui, ou quando eu fosse para lá, ou por telefonema interurbano…
Foi simples conseguir uma entrevista com o Wry. Simples como foi para a revista Caros Amigos fazer Fidel Castro ser seu colunista. Por e-mail.
Mandei um e-mail para o Mario (vocalista da banda) explicando sobre a entrevista e tal. Ele respondeu: “Claro, sem problemas, respondemos a entrevista, sim”. Pronto, o primeiro chute já estava dado. O que eu não contava era os percalços que a internet, tão facilitadora, me causou.
A banda trocou de e-mail. Foram duas semanas vasculhando Orkut, site oficial, My Space para descobrir o e-mail novo, até que o Mario me mandou o e-mail novo deles, e pude mandar a pauta.
O Wry, para quem não conhece, é uma banda de Sorocaba, São Paulo, que começou suas atividades em 1994. E começou bem. O primeiro show dos caras fora de Sorocaba foi no Juntatribo, realizado em Campinas, onde a banda dividiu palco com Pelvs, Raimundos, Planet Hemp e outras bandas que, se não foram todas para a grande mídia, tornaram-se grandes bandas no underground brasileiro. Nesse período a banda lançou um disco, abriu shows do Superchunk e do Man or Astroman? no Brasil.
Em 2001 lançaram “Heart-Experience” pela Monstro Discos, e logo depois juntaram as guitarras e foram para Londres, onde estão até hoje.
Voltaram em 2005, com o disquinho que muita banda gostaria de fazer. “Flames In The Head” foi produzido por Gordon Raphael (produtor dos primórdios dos Strokes) e por Tim Wheeler (vocalista da banda Ash, figurinha carimbada quando se vai falar de britpop). Seu último lançamento foi o EP “Whales and Sharks”, com uma nova formação (confira resenha no final da entrevista). Onde antes se lia Mario nos vocais e guitarra; Lou Marcello na guitarra solo; Chokito no baixo e Renato Bizar na bateria, agora lê-se o nome de André Z nas baquetas.
Bom, confira o resultado do percalço feito com o vocalista Mario. Enjoy!
Indie, shoegaze, alternativo. O Wry é uma banda difícil de rotular. Como
vocês definem o som da banda?
Talvez, se procurar Wry numa loja de discos, seria normal estarmos nas seções de indie rock, shoegaze ou alternativo. Ao lado de bandas como Amusement, Parks on Fire, My Bloody Valentine ou Bloc Party. Eu considero o Wry uma som muito original, até estranho às vezes aos ouvidos frios e virgens. Nossa sonoridade essencial foi estabelecida no começo da banda, quando começamos sem saber fazer uma nota musical ou tocar musicas de outras bandas.
Ryan Adams, certa vez, disse em uma entrevista que odeia o rótulo de
“alternativo”. Vocês se assumem assim?
Não, não odiamos nada nesse sentido. É vazio dizer isso, pois voce está ao mesmo tempo se rotulando, quando não quer se rotular. Eu acho idiotice, às vezes falam o que quiser, mas tem que estar prontas a ouvir também, se houver discordância, sabe. Eu não ligo que rotulem a gente não, sempre dou risadas se é algo totalmente fora de questão, mas geralmente acertam. Se alguém vier e dizer que eu copio outra banda, aí são outros quinhentos. Posso me inspirar, querer usar uma partezinha ou uma outra e transformar e aí posso me influenciar, mas copiar não…
Vocês começaram em 1994. Individualmente, vocês já tiveram outras bandas, ou o Wry foi a primeira?
O Chokito tocou numa banda de rock’n'roll bem legal chamada Carne de Pescoço e o André Z, o baterista do Wry, tocou na banda gaúcha Good Morning Kiss (banda que abriu o show do Pearl Jam em Porto Alegre em 2005), que por sinal é bem legal e tocam por aíi e ate fizeram shows na Europa.

“Um tijolo no muro”
Vocês sempre cantaram em inglês?
Sim, até o momento.
Existe algum registro do Wry cantando em português?
Estão gravadas 14 musicas de bandas nacionais brasileiras pra sair no nosso álbum National Indie Hits, e lá eu canto uma musica do Astromato e outra do Walverdes, em português. Adorei a experiência e quero fazer mais com o Wry um dia. Morando na Inglaterra, muitos conceitos mudaram, pois aqui se entende, ou quase, tudo que cantamos e amei a experiência de saber que estão entendendo e mexer ainda mais com a emoção. Na ultima turnê no Brasil eu senti falta disso, pois não entendiam o que eu estava querendo dizer, talvez eu coloque umas musicas em português por causa disso, pra saberem do que eu realmente falo nas musicas. Vamos ver…
Como foi a decisão de ir para a Inglaterra? Foi por motivos pessoais, ou só “pra ver o que ia dar”?
Quando adolescentes ainda, muito antes do Wry, já falávamos que queríamos ir pra Inglaterra, e assim aconteceu. Demorou muito, mas aconteceu. Muita gente não entende isso, mas é incrível morar fora do país – mas sabendo que vai voltar, é lógico. Isso eu sempre soube, nunca tive na cabeça ficar aqui pra sempre. Rico ou pobre, meu lar é Sorocaba. Adoro minha terra e não vejo a hora de morar lá de novo. Eu amo aqui também, mas já estou morando há seis anos e já vale a pena pra caramba, tudo que aprendi, todo frio que senti e o rock que celebrei. Ainda tem mais, eu sei, mas não quero sentir tudo isso como cidadão inglês, mas como visitante em viagens posteriores. Mas por enquanto estou aqui, ainda não vou voltar.
Vocês têm um longo caminho pelo rock no Brasil. O sucesso de vocês é notório. Isso já vinha da época que vocês moravam no Brasil ou começou mais forte depois que a banda foi para a Inglaterra?
Já existia quando morávamos aí, tocávamos no Brasil inteiro e vendíamos bastante CDs. Depois que viemos para cá e coisas aconteceram com a gente aqui, esse sucesso mudou um pouco, deu uma cara mais profissional se posso dizer assim. Quando vamos ao Brasil, muitas vezes somos tratados como banda internacional. É justo, já que moramos tanto tempo fora e não é tão perto assim, são 12 horas de avião de Londres a São Paulo, então você imagina né?
No encarte do disco “Flames In The Head”, vocês agradecem ao Rakes, ao Subways. Como é o contato com as bandas locais?
Eu sou promoter em Londres, tenho uma noite semanal aqui e faz parte do circuito mais legal da cena de Londres, tipo, muita banda quer tocar na minha noite. Agendo por volta de 16 bandas por mês e repito bandas bem pouco, para você ter uma idéia de quantas bandas eu vejo ou agendo em um ano. O contato é legal, muitas bandas se conhecem e se cruzam em shows. Tem muito lixo também. Seiscentos shows de bandas novas ou não rolam toda noite na Grande Londres, é banda pra caramba. The Subways é a banda que mais consideramos próxima, pois temos uma amizade quase que familiar com eles. O resto é mais bandas que tocamos juntos e somos amigos e tal.
Perguntei como é o contato com as bandas britânicas, e agora pergunto: como é o contato de vocês com as bandas brasileiras, principalmente com as contemporâneas ao Wry?
Imenso. Adoro. Biggs, Volpina, INI, Os Telepatas, Ludovic, The Name e Mellotrons. Essas são bandas geniais na minha opinião. Principalmente o Ludovic no momento, escuto bastante e gosto muito do Jair que o único que conheço da banda. Gostaria muito de fazer uma turnê com o Ludovic e o The Name quando formos ao Brasil de novo, sabe?
Como vocês conheceram Gordon Raphael?
Foi na noite mesmo, sempre nos encontrávamos e ainda nos encontramos por ai.
Ele é um roqueiro clássico, daqueles que está velho, mas continua pegando as brotinhas, sabe? Teve um dia que resolvi chegar nele e perguntar se queria produzir a gente, ele pediu pra ouvir material, ouviu e gostou e foi assim.
Um amigo meu que morou em Londres disse que nas rádios só toca rock
britânico. O som de vocês rola nas rádios daí?
Rolou algumas vezes sim, na XFM, ótima radio londrina e também na Ressonance FM, uma radio mais experimental. Nada demais, mas rolou. O jabá aqui é muito maior, hehehehhe.
Vocês ainda fazem turnês periodicamente pelo Brasil?
Fizemos a última entre dezembro e janeiro de 2006. Pretendemos voltar o ano que vem no lançamento do outro novo disco. Esse ano ainda sai, aí no Brasil, dois lançamentos nossos: “Whales and Sharks” e “National Indie Hits”, mas sem turnê. Vamos deixar pro próximo disco que estamos gravando no momento.
Recentemente foi lançado o EP “Whales and Sharks”. Nota-se um som mais “maduro”, mais elaborado, até um pouco mais experimental nas canções, se compararmos a “Flames In The Head”. Alguns compararam a sonoridade das canções ao Verve, outros ao My Bloody Valentine. A banda amadureceu, ou é apenas reflexos das influências da banda?
A banda amadureceu ainda mais com a entrada do André na bateria. Criou-se uma química que não existia, ou que antes era diferente. Abriu-se mais portas, as composições, e ao mesmo tempo deu mais liberdade para a criatividade. Eu acho que é isso. Amadurecimento grupal, se posso dizer assim.
Falando em influências, que bandas influenciaram ou influenciam o Wry?
My Bloody Valentine, Legião Urbana, U2, Bloc Party, Amusement Parks on Fire, Sigur Rós e nossa própria amizade. Nós nos influenciamos uns aos outros bastante.

O que vocês acham da música em formato digital? É sabido que ela está
derrubando o formato CD. Isso acaba sendo bom ou vocês ainda preferem o
disco com arte, encarte, etc.?
Eu sou a favor de tudo, gosto do formato digital. Mas ver o CD ou vinil com a capa e encarte e o cheiro é ainda mais legal sem duvidas. Sempre vai existir, as pessoas só terão que ser mais criativas nesse sentido, sabe, criar idéias que farão as pessoas quererem comprar o CD ou vinil e também o digital. Radiohead são os reis disso tudo, né? Acabaram de lançar um álbum na internet que você pagava o quanto você queria, mas ao mesmo tempo poderia comprar o CD com um puta encarte nas lojas a um preço super caro, mas justo, deram ainda mais valor ao pacote e a arte. Ou seja, acabaram ganhando a mesma coisa como antes.
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CRÍTICA
Different from all (e, mesmo assim, GREAT)
Li em muitas críticas sobre o disco anterior do Wry (Flames In The Head) que, só o que prestava, eram as faixas produzidas por Gordon Raphael, e que a banda precisava de “estrada”.
Parece que Mario e cia quiseram calar a boca dos críticos com esse EP. Whales and Sharks, lançado no Brasil pela Pisces Records, reflete, ressoa, ressente toda a estrada do grupo.
A Inglaterra fez bem demais à banda. Com o EP, a banda já foi comparada ao Verve, ao My Bloody Valentine em sua melhor fase, mas Whales and Sharks é mais do que isso.
Never Sleep (When I Go) é puro Flames escondido atrás de um paredão de guitarras distorcidas. Bitter Breakfast ecoa uma agonia que te faz esperar por um refrão explosivo quase que como esperar por uma garota por cinco minutos, mas que parecem uma vida inteira resumida a acordes.
Sister parece com uma In The Hell Of My Head (”hit” do disco anterior), só que com Blips e blops.
Agora, uma banda que faz uma música como Different from Me merece aplausos. Uma música que, se fosse vendida como se fosse de uma banda britânica virava hit na hora. Citando Ryan Adams, “existem músicas feitas para serem ouvidas com fone de ouvido”, o Wry fez mais que uma boa música, lapidou uma obra prima em quatro minutos de canção.
É, esse EP foi para dar um tapa de luva na crítica musical. Com essa, a banda disse para eles (nós): “fiquem com a poeira da estrada!”. Se essa é só a poeira, quero a estrada pra mim!
Matéria: Pablo Tavares
Fotos: Stuart Nicholls

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