Olhos de Metal
Por Bocajão
Sou pagão e cristão ocidental num mundo onde não se sabe de nada por mais que saiba-se tudo. Essa língua portuguesa me deixa rouco. E sou participante deste mesmo mundo. E, claro, anticapitalista. Não sei negociar, como se isso fosse o fim de tudo, e estou hipócrita quando me considero um “antihipocrisisa”, antitudo, sou até e, principalmente, contra mim mesmo. Sou loco de atar e lúcido de desatar. Por que nunca ninguém veio me perguntar o que acho dessa vidinha? Por que como carne ainda? Por que nessa língua portuguesa a gente pergunta com por que e responde porque? �? por causa do “why” e do “because”? Por que ainda saio à noite? Por que gosto de tomar cerveja de tarde e, quando era jovem gostava de tomar cerveja à noite? por que não gosto de tomar cerveja à noite? Por que gosto de ouvir música dos cinco continentes?
Olha, porque eu não sei. Cada vez mais sei menos e cada vez menos sei mais. Detesto “veja bem” e mais ainda “disponibilidade”, mas não tenho grandes traumas após ser assaltado. Troco minha solidão por tudo que exista no mundo. Acho que o Velho Testamento tem que ser substituído por uma obra de lances mais elevados, nunca subtraí-lo. Ah o Novo Testamento! Ele diz coisas nunca dantes navegadas. Faz você se parecer com Jesus Cristo. Mas, por que, me diga, estou escrevendo essas linhas aqui, com vírgulas em vez de Virgulinos, com crases em vez de crises, com letras em lugar da memória, com máquina de escrever em lugar de computador? Por que estou escrevendo sem ter a mínima vontade de escrever? Por que deixei recado na sua secretária eletrônica? Por que deixei os caras esperando e não compareci? Ah não sou nada, sou um zero à esquerda, o que só não é pior que ser um zero à direita. Sou um merda e você é Todo-Poderoso. Sou bom, dócil, você é violento; quero ser violento também. Quero ser hacker, bandido do Tarantino, mau caráter, bebum que bate na mulher, juiz do Tribunal de Contas corrupto, presidente da CBF, prefeito de Passo Fundo, advogado, médico e, se sobrar um tempinho, ser preso por ser ladrão de galinha. Quero ser o ídolo das empregadas domésticas feias e amigo das mais bonitas. Quero viver à beira da estrada e não sair do lugar. Quero nunca mais escrever nada. Não quero escrever tudo. Não sei o que escrevo e sei o que não escrevo. Não gosto e gosto dos filósofos, mas as traças comem os livros, sejam de Ezra Pound, Sartre – meus primeiros livros lidos foram do francês Jean- Paul Sartre – Descartes, o velho Nietzsche e o jovem sociólogo Fernando Henrique Cardoso, ou do Freud. Eu explico: no limbo não havia vitória, lá, não há vitória, quem vence é time de futebol, banqueiros, políticos, empresários, advogados espertos, médicos sem ética, etc., mas depois até eles mesmo perdem. E têm que se livrar do hábito. E a vida passa como uma lufada do inseticida.
Não quero nada com esse papo de conhecimento. Chega! Não quero amor nem piedade, quero o ódio de seus olhos sangrentos. Quero uma camisa escrita pelo vento. Uma dispnéia mortalmente noturna é igual ao amor com medo. O sexo é diferente: é o próprio medo, é o sebo, é o cabo da morte. Mas não vou morrer sem te botar medo, vou botar meu selo, minha marca, meu talento, meu desencanto e meu canto. Ah você não sabia que assim como o velho Pound tenho cantos? Como o velho Hemingway tenho livros, como o velho Bob Dylan tenho discos, como o velho Fellini tenho filmes, como o velho Piazzolla tenho tangos modernos, como o velho Cicarelli como ostras, como o velho Jack Dempsey bebo um litro de uísque, ao molho gelado, assim como as folhas servem para animais deitarem. Ah se acaso você soubesse! Deveria descobrir se ainda estou vivo ou escrevendo post mortem como meu amigo – conversei ao vivo mas ele não lembra mais de mim – Chico Xavier de Uberaba, Minas. Sol no norte, frio no sul. Aqui na faixa de Bom Jesus (sic) e Passo Fundo (outro sic) faz dois abaixo de zero. Tem que morrer na praia.
O velho Bukowski tem o Hino da Tormenta. O Pedro Juan Gutierrez tem o Animal Tropical. Eu tenho a Brahma, os Hare Khrisnas, O Bhagavad-Gita de Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, a Bíblia, os discos dos Beatles, as críticas sobre o cinema sonoro de Vinicius de Moraes e um CD do Tom Jobim bêbado. Tenho uma aura e o caminho da auto-realização . Tenho chulé e não tenho livros de auto-ajuda. Mas tenho livros de destruição como, por exemplo, o Assim Falava Zaratrusta, e como carne, o que é pior ainda. Mas tenho a esperança de que na terra é que começa o céu. Tenho um anjo torto, outro morto embora, por élfico que seja, esteja atento a tudo ao lado da catedral de Stonehenge. Aqui ao lado tem a fruteira Santos Dumont, uma casa de massas que faliu, mas ainda tem internamente, o Quinto Peccato, o 10% e outros como usam na publicidade de interior. Sou mais eu na High Street Kensington a ser assaltado em Passo Fundo. Menos que charme é decepcionante. Se morrerem todos habitantes desta pequena cidade Dog Ville – uns 120 mil- ninguém vai notar nada, muito pleno contrário: será melhor. Estou escrevendo daqui desse fundo que tem uma propaganda “Terra de Gente Boa” que é mais ou menos como lutar pela paz em tempo de guerra. Mas, báh, mesmo que eu seja o pior escritor de todos os tempos e um poeta não editado, essa cidade não merecia nunca fazer parte da minha obra (outro sic), mas assim que é, como diz o povo do nordeste do Brasil (vide o Auto da Compadecida). Assim é que não é digo eu que não sou ninguém e sou parte de todos. E procuro minha outra metade embora saiba onde está: é meu lado espiritual, sexual e mornal. Uhm. Mas nem Robin nem Batman poderão salvá-lo como Jesus que veio ao mundo para nos salvar. Espero estar incluído.
Vamos ver, vamos melhorar o texto. O Nasi do Ira, o Celso Blues Boy e o Ozzy Osborne são a mesma pessoa. O pai do Hemingway, o Ernest e a filha também. Eu não, o meu departamento é de criação, ou não. Tem o Dante, o Sócrates, O Kierkegaard e o Jean-Paul Sartre, já disse. E o Freud. Existem pneus de todas as marcas e meus amigos sabem que minhas pernas não me levam para onde quero ir. Vão acabar me levando para o inferno. Ou para o céu, não sei. Agora, o que gostaria mesmo era escrever um longo texto sem pontos, vírgulas ou sinais – a não ser os analógicos e digitais – tipo James Joyce, mas eu continuo escrevendo com toda essa “burocracia”. O Oasis, Blur e o White Stripes, além da velha líder dos Pretenders que tem uma corcova no queixo, sei. Estamos na época do conhecimento não-confidencial. O conhecimento desleixado e assumido. Será que o conhecimento será sempre conhecido? E o conhecido será conhecimento? Ah jogos de palavras não me entendem e são como comer sopa sem letrinhas. Prefiro o beijo da adivinhação.
Agora sim vou melhorar o texto. Kill Bill. A garota chega perto do velho, ela de 14, ele de 60 anos, e pergunta:
- Você quer casar comigo?
- Claro, imagina, eu te amo – diz o coroa.
- Mas se eu casar com você, você vai me penetrar?
- Claro, faz parte, vou até penetrar devagarinho, não se assuste.
- Então vou te penetrar antes – responde a garota puxando um punhal e enfiando na barriga do cara.
Kill Bill.
Eus somos todos deuses. Eu amei todas as mulheres que namorei desde os meus 14 anos, desde os desenganos. Mas agora mudei sem medo: não sei mais mentir. Não consigo. Quando todos buscam os seus interesses sou um pouco mais verdade do que vida terrestre; a verdade e a vida. Não me perturbo mais com as coisas que dizem contra mim. Ainda sei dar bons conselhos e acalentar os outros com minhas palavras. Mas não sei dizer não, na hora da tribulação sinto pânico e fraqueza. Sou mais você em todas as ocasiões. Sou puro sim e malgrado ou não. Toda a vida pela paz e por isso perdi os amigos da concorrência, mas se ainda der para conseguir uma teoria completa, então todos os filósofos, cientistas, ricos e pobres homens de rua estaremos fazendo parte da discussão sobre porque nós e o universo existimos. Essa é a única resposta que espero para um triunfo definitivo sobre a razão do homem viver, o homem morrer, o homem sem ser, mas então terei atingido o conhecimento da mente de Deus, meu Pai Todo Poderoso. Quero só um sinal enquanto procuro por uma vida melhor…
(Roberto Justi, o Bocajão)
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Roberto Justi, o Bocajão, é tradutor, jornalista gonzo, poeta maldito, professor, um dos Trinta em Transe e colunista d�??Os Armênios. Beto Bruno, vocalista da Cachorro-Quente, saiu do seu escroto.
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