“Importa o que está escrito”: entrevista com Clarah Averbuck
Clarah Averbuck. Escreve pro coração não parar de bater, ama o rock e os gatos. Um dia resolveu ir para São Paulo morar em um apartamento com o banheiro rosa. Lá escreveu Máquina de Pinball (que virou peça de teatro) e começou sua vida alucinada nos blogs e sites com o Dexedrina (compilação de escritos anteriores e outros diversos). Depois seria a vez do Das Coisas Esquecidas Atrás da Estante, uma reunião de escritos que estão no Brazileira Preta e outras coisas mais. Em seu último livro, Vida de Gato, Camila Chirivino encara todas e bebe sozinha em seu bar preferido. Lady Averbuck está cheia de projetos e milhões de idéias. Além de rabiscar no Adios Lounge, teve a estréia do filme Nome Próprio, adaptação de Máquina de Pinball, com Clarah-Camila sendo interpretada por Leandra Leal.
A oportunidade d’Os Armênios entrevistá-la surgiu, mas problemas acabaram impossibilitando o encontro. A pauta seguiu por e-mail. Clarah acordou com uma puta ressaca e saiu atirando por aÃ, falando coisas que nem Lou Reed sabe. Então confere aà as histórias que a mãe da Catarina tem pra contar.
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Na época do lançamento do Máquina de Pinball, teu primeiro livro, sua obra foi (des)classificada como “Literatura de Blog” por alguns crÃticos. O que você pensa dessa questão? Independente do termo se aplicar a sua produção, você acha que existe uma “Literatura de Blog”? E isso seria um atestado de (baixa) qualidade artÃstica?
Não existe literatura de blog. Quem inventou esse termo devia ser enterrado vivo. Blog é um meio de publicação. Tem todo tipo de coisa publicado em blog. Tem que ser no mÃnimo desatento, pra não dizer burro, pra querer criar um rótulo desses.
Você assinou mesmo toda a 1ª edição do Máquina de Pinball? Mas aquela marca de batom não foi feita uma a uma, né?
Você acha que a minha boca é daquele tamanho? Nem o Mick Jagger tem a boca daquele tamanho. Aquilo é impresso e nem foi idéia minha, cheguei e tava daquele jeito. E sim, eu assinei todos. Um por um.
Considera a tua produção para os blogs como parte integrante da tua obra?
Claro que considero.
Porque você abandona certos blogs e passa a se dedicar a outros? Existem diferenças entre as propostas deles ou são apenas fases da tua vida?
Porque algumas coisas precisam de renovação. Continuar o que ficou estagnado não faz parte da minha filosofia.
Você é uma autora que produz textos confessionais, autobiográficos, e isso acaba sendo um reflexo das tuas próprias influências. Quais os limites entre realidade e ficção na tua obra?
Não importa. Importa o que está escrito, apenas.
Dos livros que você escreveu, qual o teu predileto? Por quê?
O Vida de Gato, por ser um momento de solidão completa e quase delirante. Acho que nunca mais vou ter um momento desses. Mas o meu preferido é sempre o que estou escrevendo: Eu Quero Ser Eu.
Se pudesse apagar algo da tua obra, o que seria?
Eu me preocupo mais com o que eu quero escrever do que com as coisas que eu gostaria de apagar.
Você tem pelo menos outros três livros praticamente prontos: Toureando o Diabo (romance), Cidade Grande no Escuro (crônicas) e Eu Quero Ser Eu (novela infanto-juvenil). Fale um pouco deles.
Calma lá. Toureando o Diabo ta mal e mal começado, parei no começo e não quis continuar. Talvez um dia retome. Cidade Grande No Escuro não tem editora. Eu Quero Ser Eu vai sair pela Cosac Naify – pra ganhar o prêmio da Petrobrás precisava entrar junto com a editora -, mas eu mandei só 40 mil caracteres, não é nem um terço do livro, e eu só vou voltar a escrever quando começar a receber. E o DelÃrio de RuÃna vai sair pela Editora do Bispo em março.
E poesia, não lhe interessa?
Interessa quando é boa. Tudo me interessa quando é bom. Eu ando me arriscando.
O que você anda lendo no momento?
Crônicas do Bob Dylan e Primeiras Histórias do Guimarães Rosa. E Danislau Também. Esse é o nome dele, Danislau Também. O livro se chama O Herói Hesitante.
Nos últimos tempos, vários tÃtulos do Hunter Thompson e do Lester Bangs foram lançados no Brasil. Até então, eram quase desconhecidos por aqui. O que você acha desses escritores?
Eles são os únicos motivos que me fazem tentar ainda alguma incursão no jornalismo.

Como você vê a questão das adaptações que fazem da literatura para o cinema? Cite algumas que você tenha curtido.
Trainspotting.
O Nome da Rosa.
Butcher Boy (Nó na Garganta em português).
Qual o pior livro que você já leu?
Eu nunca li nenhum livro ruim até o fim. Não tenho tempo pra ficar perdendo.
Que livros você acha que deveriam fazer parte dos currÃculos escolares?
Acho que alguns contemporâneos deveriam ser incluÃdos. É muito árdua a tarefa de fazer um adolescente sentar a bunda e ler um livro. Ele precisa de identificação, senão vai pro orkut, pro second life, pro Messenger ou sei lá mais pra onde. Não serei eu a citar os tÃtulos, mas o critério deveria ser esse: identificação. Depois que a pessoa já virou um leitor, aà pode aplicar qualquer coisa que pega.
Histórias em Quadrinhos: você curte? O que costuma ler?
Curto. Eu gosto muito, muito, MUITO de Transmetropolitan, que tem um personagem baseado no Hunter Thompson, de V de Vingança, Watchman, Elektra, Groo, tem uma que eu adoro que chama Kill Your Boyfriend, enfim, sim, eu gosto de quadrinhos.
Tem descoberto novos escritores interessantes?
Tenho muita coisa pra descobrir ainda, velhos e novos. Minha descoberta agora é o Danislau.
Você já comentou que Pergunte ao Pó, do Fante, é o livro da tua vida. Porque? A Camila Chivirino seria a Camilla do Arturo Bandini?
Jamais. A Camila Lopez é a musa do Arturo Bandini. A Camila Chirivino não é musa de porra nenhuma, ela é que tem musos.
Fora Fante, Leminski e Bukowski, que outras influências foram marcantes na tua formação como escritora?
João Antônio, Fiona Apple, LuÃs Fernando VerÃssimo, milhares de letras de música e a vida.
Quem você acha que não conquistou repercussão no meio literário e que, na sua opinião, mereceria maior destaque? Por quê?
Acho que um cara injustiçado na literatura foi o próprio Fante. Ele ia ficar perdido se não fosse o Bukowski. Depois foi esquecido e novo só redescoberto agora. No brasil, o João Antônio, que foi republicado pela Cosac Naify mas mesmo assim ninguém dá muita bola. O cara era demais. os dois eram demais.
E no Rock?
No rock, uma banda de San Francisco que eu sou apaixonada chamada Flamin’ Groovies. Amo pra caralho. Mas se você quer saber, eu acho que prefiro mesmo que algumas coisas continuem desconhecidas e sem máculas, longe dos olhos e ouvidos das pessoas que sofrem da doença de querer fingir que falam com propriedade do que elas mal conhecem.
Como está a tua filha?
Grande e genial, cantando Beatles e Velvet Underground.
E se ela um dia resolver virar uma patricinha?
Não vai acontecer. Ela já é punk. Mas se ela quiser ser uma patricinha… Bom. Ela vai continuar sendo minha filha.
E se ela resolver ser escritora?
Ela pode fazer o que ela quiser da vida. O caminho é dela, não meu.
Se considera uma escritora maldita?
Maldito é o Zé do Caixão.
Como foi fazer uma visita ao velho Buk?
Foi legal. Deixei uma Ypióca lá pra ele.
No Adios Lounge você falou que faltou trilha no filme. Qual trilha você colocaria se pudesse editar Nome Próprio?
Ah, meu. Eu ainda vou fazer a minha versão e você vai ouvir.
Como foi a construção do personagem da Camila com a Leandra Leal?
Isso você vai ter que perguntar para ela.
Você ainda chupa o gelo do copo no final do whisky?
Eu cuspo gelo, tenho dentes sensÃveis.
Existe homem glam ainda?
Sei lá. Existe tudo nesse mundo moderno de meu deus. O David Johansen está vivo, não está?
No “Vida de Gato”, você diz que não pode ser mulherzinha. Que você precisa de mais. Como é ser uma mulher de culhões?(como você mesma diz)
Trabalhoso. Mas é assim que é.
Se a tua unha não estiver vermelha…
Está descascada.
Qual foi a última vez que tu perdeu a linha no baile com “vódega”?
Eu não bebo mais vodca. Mas ontem eu fiquei bem bêbada na festa da Mostra de Cinema.
Você ainda tem o conto do Pinheirinho?
Tenho.
E os Jazzie e Os Vendidos?
Acabou. Foi bom enquanto durou. Novos projetos em mente e em breve.
O Leminski diz tudo de ti? Qual poema dele que te define?
Quem diz tudo de mim sou eu. Mas se você quer Leminski… Não é um poema. Mas ó.
“O primeiro personagem que um escritor cria é ele mesmo. Só os imbecis procuram um eu atrás do texto literário. Em literatura, a própria “sinceridade” é apenas uma jogada de estilo.
Um escritor medÃocre não consegue ser “sincero”. Técnica, coração.
Para ser sincero, é preciso dispor das técnicas que indiquem, signem, sinceridade. Sem isso, a mais pura das explosões verbais, a mais direta, a mais espontânea, será apenas mais uma manifestação de imperÃcia literária. Um amontoado de bobagens que o tempo vai se encarregar de destinar ao lixo, onde jazem as ilusões.”
Mas já que quer um poema:
quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta adolescênciavou largar da vida louca
e terminar minha livre docênciavou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeitovou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direitoentão ver tudo em são consciência
quando acabar esta adolescência
ou
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
Quantas paixões platônicas você tem por dia?
Eu não acredito em platonismo, eu gosto de sexo. Platonismo não mata desejo.
“Se você for tentar, vá até o fim”. Com essa citação de Charles Bukowski, você abre “Das Coisas Esquecidas Atrás da Estante”. Essa frase diz muito do que tu escreves no teu Adios Lounge, e escrevia nos antigos, do modo como você vive, deixando ser, deixando sangrar (Let it Be, Let it Bleed…).Comente sobre isso…
Não. O que está escrito, está escrito e dito.
As coisas continuam lá esquecidas? Não vai ter uma nova edição?
Não. Não quero.
Cite 3 filmes que você gostaria que todos os teus melhores amigos assistissem:
Trust, do Hal Hartley, Warming by the Devil’s Fire, da série de documentários de blues do Scorsese, dirigido por Charles Burnett e Nome Próprio, CLARO.
Quais são teus 5 diretores de cinema prediletos?
Ah cara. Eu não sou uma grande conhecedora da obra de cineastas pra ficar falando assim “meus diretores de cinema prediletos”. Mas eu gosto do Woody Allen, do Hal Hartley, do David Fincher, do Oliver Stone e do Scorsese.
Tu foi uma das precursoras dos Strokes no Brasil, muito antes de qualquer um sonhar que a banda seria a grande sensação do Rock no inÃcio do milênio. Como você avalia a trajetória da banda, e qual o seu álbum predileto?
Preguiça. Estou de ressaca. Mas posso dizer que gosto mais do Is This It mesmo.
Quantos shows deles você já assistiu?
Dois.
Já que conheceu os caras, sabe de alguma novidade sobre o que andam aprontando?
Eu não conheço os caras. Eu conheci eles na Inglaterra brevemente porque fui entrevistá-los em Liverpool e passamos a noite juntos como pessoas da mesma idade que curtem rock num clube de rock entre outras pessoas que curtem rock em um clube de rock; nada demais.
E Black Rebel Motorcycle Club?
O que tem eles? É uma pergunta, isso?
Primeiro disco: incrÃvel. Segundo disco: meia-boca. Terceiro disco: redenção total.
Recentemente você dividiu os vocais com a banda Identidade, num tributo aos Rolling Stones. Fale um pouco da tua relação com eles:
Bom, o Cabelo me escreveu querendo marcar show na minha festa, eu ouvi e achei o som ótimo. Quando nos conhecemos nos demos bem de cara. O Cabelo já tinha visto show do Jazzie & Os Vendidos e curtia pra caralho. Daà pra se juntar pra fazer algo foi um pulinho. Já fiz uma letra pra eles e eles têm a chave da minha casa, literalmente. Quando eles vêm tocar em São Paulo minha casa vira uma comunidade hippie com todo mundo espalhado pela casa. E eu ganho um harém de meninos me fazendo mordomias. Rarara.

Nos vocais, com a banda Identidade.
O que tem te chamado a atenção no Rock, no Brasil, atualmente? E lá fora?
No Brasil, Vaguart, que eu acho absurdamente bom e fiquei amiga deles, especialmente do Helio Flanders. Foi um puta encontro. Adoro aquele rapaz, me identifico muito com ele e vemos parcerias em breve. Nos conhecemos por causa do já citado Danislau, que além de poeta toca na banda Porcas Borboletas, que é o outro grande encontro de 2007 pra mim. Nem de 2007, da vida. Eles me fizeram prestar atenção no Brasil, acordaram as minhas raÃzes. O Brasil pra mim sempre foi Brazil. Eles têm toda a influência de música brasileira e me pegaram de jeito. Foi do caralho. Está sendo ainda. Eles entraram na trilha do filme  foi assim que conheci eles, foi o único cd que mandei sem ouvir e os únicos entre os 40 discos que eu mandei que o Murilo escolheu e tocam na festa da pré-estréia do filme.
Fora, estou apaixonada pela Amy Winehouse. Caguei pro colunismo social que se mete na vida dela. Ela escreve fodidamente bem e tem voz, carga de podreira e postura de diva. Fim. Amo.
Qual o último disco que ouviu antes dessa entrevista?
Velvet Underground, VU
Teus 10 discos preferidos:
Ê porra. Isso vai mudando. Os discos importantes vão se adicionando, essa lista nunca é imutável. Mas bora lá: no dia 19/10/07, a lista é essa:
Let it Bleed, Rolling Stones
Loaded, Velvet Underground
Teenage Head, Flamin Groovies
Little Girl Blue, Nina Simone
Mother’s Milk, Red Hot Chili Peppers
Fiona Apple, Tidal
Raw Power, Stooges
Blue Valentine, Tom Waits
Mutantes e Seus Cometas no PaÃs dos Baurets, Mutantes
Go Bo Diddley, Bo Diddley
Como você vê a questão das drogas no contexto criativo, já que teus textos abordam essa questão?
Eu me dou muito bem com as drogas. Não sou nenhuma junkie, mas nos damos bem. Acho que existe um tipo de artista que pode fazer bom uso delas e eu sou esse tipo. Como diria o Hunter Thompson, “I hate to advocate drugs, alcohol, violence or insanity to anyone, but they’ve always worked for me.”
No final de Vida de Gato, você fala as sete vidas dos gatos, são sete amores. E você já morreu uma vez. Se não fosse teus amores felpudos…
Os gatos não têm tanto a ver com isso. É uma vida perdida apenas.
“Tudo tinha mudado. Menos o que ficou igual”. O sofá vermelho continua lá?
Continua. Mas todo fudido das unhas dos gatos.
FabÃola Hauch & Rodrigo de Andrade (GARRAS)

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