Os Armênios

Expresso do Rock: gaúchos mostram como se faz Rock em SP

Postado em 30 de novembro de 2006

Os pingos caiam. Aliás, não caiam, se jogavam desesperadamente sobre as pessoas que caminhavam pela noite de São Paulo. Olho pela janela do ônibus e me preparo psicologicamente. Salto na Paulista. Meu guarda-chuva quebrado e eu. Ascendo um filtro vermelho embaixo de uma marquise, enquanto aqueles tipos estranhos da noite paulistana correm para dentro das bancas de jornal espalhadas pela avenida mais cosmopolita da cidade.

Uma tragada, um suspiro e lá vou eu primeira esquina � esquerda (ato já quase mecânico). Começo a descer a Augusta. Começo a descer a deserta Augusta, sem seus indies, mods e emos de costume. Vazia. Começo a descer o lago Augusta, que com seus bueiros entupidos de lixo, inunda. Os pés encharcados já na primeira quadra me irritam. Era quase como se eu andasse descalça. Molharia da mesma forma. Com meus pés nesse estado, todo cuidado é pouco para não escorregar na areia. A Augusta vira um perigo quando chove graças as suas reformas de calçadas. Areia por tudo quanto é lado. Areia molhada. Um convite ao chão.

Continuo. Faltam mais umas seis quadras até a padaria Vitória, onde começa a noite. Dou ??Oi!? para o Gene, da pizzaria Vitrine. Em pensamento ele me convida a dançar. Até poderia. Aquela rua estava tão vazia quanto a dele quando dançou. Também em pensamento, agradeço e digo que não posso. Meu guarda-chuva está quebrado. E não onde todos os guarda-chuvas quebram, mas no cabo. Não teria como.

Mendigos dormem entre a areia e o ??lago?. As putas se escondem do dilúvio dentro de seus locais de trabalho, dividindo espaço com os seguranças. Aparentemente só eu pretendo fazer algo hoje. Falta uma quadra para a primeira parada quando olho para a rua sem motivo algum. Simplesmente olho. Surge um ônibus, e reconheço quem está na frente com o motorista. Olho para as janelas e reconheço mais alguns rostos.

Eis uma das coisas que mais apaixona em São Paulo. As pessoas, por maior que seja a cidade, se encontram. Bizarrices como pegar em três dias e locais diferentes o mesmo táxi (lê-se o mesmo taxista) podem acontecer. Acreditem em mim. E isso é lindo! O ônibus passou reto, e aquele foi o meu primeiro contato com o Expresso do Rock. Eu para um lado e os guris, para outro. Então a chuva para e começo a rir sozinha já em frente � Vitória.

O segundo contato viria uma hora depois. Depois da chuva. Depois de uma cerveja na Vitória. Depois de fazer amizade e divagar sobre o rock independente com o novo amigo baiano (de coração, segundo ele). Motores (não confundam) e Identidade no Oásis. Segundo e bom contato. Dessa vez, quem estava lá me enxergou também.

Galera no bar.jpg

Indico a banda Motores. São muito bons, mas não posso me deter � eles. Ao menos não dessa vez. Quero contar do terceiro contato. Do verdadeiro. 16h do dia 26. Saio correndo. Era para estar � s 15h no Vale do Anhangabaú. As quatro quadras que separam minha casa da Avenida Santo Amaro (onde eu pegaria o ônibus) parecem minúsculas, tamanha minha pressa. O Terminal Bandeira chega minutos depois de mim. Peço ao cobrador para me avisar onde devo descer. Nunca havia ido para aqueles lados. 25 minutos de ônibus e ele me explica como fazer. Deveria estar com uma cara terrível, já que um rapaz se propôs a me levar até lá, era seu caminho. Sempre dependi (também) da bondade de estranhos. Posso afirmar que, se não fosse aquele menino, não digo que não encontraria o lugar, mas demoraria no mínimo umas duas horas para faze-lo. Um labirinto. Seria mais fácil encontrar Wally do que o palco.

Cheguei na primeira música do show da Identidade. Para variar, me atrasei. Eu sou um tipo atrasado. Acabei perdendo o show da Jeans, que pelos comentários, foi muito bom. No Vale, enquanto os Identidade tocavam, fui em busca do restante do Expresso. Papel (Locomotores) apontou para um bar, a poucos metros dali, onde estaria boa parte do pessoal. Ouvi mais duas músicas dos ??Backstreet Boys do rock? (juro, eles mesmos se denominaram assim na noite anterior) e fui � caça do resto.

Vandu.jpgBeijos e abraços no boteco enquanto saboreava minha água. Estava lenta demais para beber. Ajojada demais para chumbar. Resolvo voltar ao show. Entre alguns cães e um gato siamês, a galera do Rio Grande do Sul começa a se encontrar. Os mendigos, que faziam a festa, dançavam freneticamente, quase que acompanhando as reboladas alá Jagger de Vandu. O show termina e o tempo começa a se armar. Que choveria, era um pouco óbvio, aqui sempre chove. Principalmente naquele domingo quente. Era só questão de tempo.

No pseudo backstage, mais confraternizações em meio aos novos CDs da banda (Identidade) sendo vendido. Eram elogios, abraços, CDs e cervejas passando de mãos em mãos. A chuva que estava por vir, e o calor que comia pareciam não importar muito. O que estava se criando ali valia muito mais.

Locomotores.jpgAos poucos, o público aumentava. Locomotores no palco. ??Nessa Vida? abre o show da banda, que ao contrário da Identidade, nunca havia tocado em Sampa City. As palmas, que começaram tímidas, cresciam com o passar das músicas. Os mendigos, que já estavam serelepes, pulam salientes, ao ritmo de ??Vermelha?, empolgando mais ainda aqueles que na frente do palco cantavam as músicas junto com a banda.

??A Festa? chama a chuva, fazendo do Vale do Anhangabaú o lugar propício para dançar sem preocupação alguma. Até um ??frevo do rock? se fez ali, com aqueles guarda-chuvas abertos, que continuaram sendo sacudidos enquanto a banda tocava ??O Gato?. Termina o show e a chuva não pára. Backstage novamente. Mais abraços, mais trocas de elogios. O show da Locomotores foi um soco no estômago de muitos por ali que achavam já saber o que esperar da banda.

Uma fã, uma moradora de rua, que ficou o show inteiro na frente do palco, balbuciando as letras e dançando foi até lá e pediu para chamarem seu atual ídolo. ??Fuinha, aquela mulher está te chamando.? E lá foi o Fuzo, dar atenção � nova fã da banda.

Pata.jpgEnquanto a chuva aperta, a Pata de Elefante se monta no palco. A galera dividida entre a frente do palco e encima do palco se une para ouvir a banda que não precisa de vocal. Seus instrumentos falam por si só. Uma verdadeira patada. Com Luciano (Locomotores) ainda nos teclados a Pata começa a derrubar seu som impressionante � todos que babam, as vezes pulando, as vezes sacudindo a cabeça por não acreditar naquilo que se está fazendo ali na frente. Para a Pata, até a chuva pára. Todos bobos. O show passa rápido. E vem o pedido quase que implorado pelo público de mais uma música. E a Pata atende sorrindo. E a Pata atende monstruosa.

As bandas só perderam para um. Para o bicho menino. Para o Roy ‘Cauê’ Orbison que fez uma participação especial no palco e deu o ar da graça também na MTV, arrancando gargalhadas de quem estava por lá.

Ao fim, todos voltam � quele bar, metros dali. Gargalhadas, conversas misturadas, cervejas, cigarros, tudo ali acontece. Até o hino do (glorioso) Internacional é cantado. Agora, com aquele suspiro de trabalho cumprido, ninguém segura a gauchada. Do bar para o ônibus. As bandas e seus amigos intrusos correm para continuar a festa dentro do real Expresso. Me perguntei ao entrar, ??existe mais algum ônibus no mundo que tem uma bateria montada na parte de traz?? não, só aquele deveria ter. Rumamos ao hotel em meio a risadas e gritos de ??Soltaram o Cauê!?.

Naquele hotel de japonês (sim, o F1 é hotel de japonês) em cada quarto se fazia uma função diferente. Mais histórias, mais piadas, mais ??gaitadas?. O trabalho havia terminado e a diversão só continuava, e se mostrava durar até a noite. Ali me despedi do Expresso, lá pelas 23h. Agora sou uma pessoa trabalhadora, não posso me estender num Domingo � noite daquela forma. Meu sorriso estampado no rosto, sorriso de satisfação, escondia o meu cansaço e o aperto que sentia no coração por ter acabado tudo.

Final de semana saudoso. Final de semana do rock. Final de semana junkie. Final de semana que nenhuma banda de SP havia me proporcionado até então.

[Mais detalhes sobre o Expresso do Rock]

E semana que vem, Expresso do Rock no Jornal da MTV. Aguardem.

Pública e Efervescentes

Além do Expresso do Rock, pude acompanhar mais duas bandas gaúchas que deram o ar da graça na terra da garoa nesse quente e chuvoso Novembro. Pública e Efervescentes passaram pela cidade tocando com bandas já bem conhecidas da cena paulistana e não deixaram nada a desejar.

Efervescentes no Clube Belfiore - SP.jpg

Ambas lotaram as casas onde tocaram, fazendo com que muitas pessoas que mal as conheciam virassem fãs assumidos. Quem folhar a Rolling Stone desse mesmo mês aliás, vai encontrar uma resenha feita pelo glorioso (para não dizer maluco) Humberto Finatti (colunista do site Dynamite e entusiasta do rock independente) sobre o cd da Pública, que veio a ser lançado por esses lados também. Isso me remete a uma outra matéria que fiz e que agora posso complementar. Era � isso que me referia. Rock gaúcho de qualidade em SP. Já era hora.

Identidade

E a banda Identidade continua em São Paulo até o dia 08 de Dezembro fazendo shows e vendendo os poucos cds que sobraram (os meninos foram assaltados em Curitiba) pelas casas paulistanas.

Texto: Fernanda P. Rocha (correspondente armênia em sampa)
Fotos dos artistas do Expresso: Daniel Bacchieri

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28 comentários

Garras

MAZÁÁÁÁ! Que afudê, Fer! Baita texto!

Maíra Martini

Olhaaa… baita texto!
Beijos!

Clébio

Legal, legal saber como está acontecendo com o pessoal.

No youtube tem outros vídeos deles! Na estrada.

Daniel Bacchieri

Que texto ducaralho! Que massa…
Galera, soh peço q creditem as minhas fotos (do show do Expresso em Sampa e da galera no bar), pode ser?

Grande abraço!
Daniel Bacchieri
imprensa EXPRESSO DO ROCK

Fabí

Muito bom!!!! bem feliz Fer! Parabéns!!!!

garras

\”Que espetáculo! Cobertura matadora do site Os Armênios sobre a passagem do Expresso do Rock por SAMPA!!!\”
Não sou eu que tô dizendo. ? o site oficial do Expresso: http://www.expressodorock.blogspot.com/
Que sirva, no mínimo, prá calar a boca dos recalcados.

Tu é foda, Fer! Se não tivesse categoria, não estaria n\’Os Armênios. Parabéns!

Seka

?timo texto Fer! Adorei!
bjo!

umdos

recalcado eh o cu
questáo de opiniao e qualidade
questao de tomar um tiori(enta) e se ligar e escrever melhor

Garras

Para constar: Os Armênios possuem uma equipe editorial de 4 pessoas, além de colaboradores, submete seu material a uma revisão e correção. Nada tão esdrúxulo vai ao ar. Arruma outra desculpa esfarrapada para encher o saco… Volta pro esgoto, verme. Continua falando, se contorcendo e não fazendo nada além de reclamar.
Chupa meu ovo.

Pedro Klein

Que todos os caras que só reclamam e não fazem merda nenhuma façam um fila única na Avenida Brasil, postados a sua frente todos os caras que fazem alguma coisa, reclamando ou não. Aí os que não fazem giram nos calcanhares e chupam os ovos dos que fazem. ??Caras? serve para homens e mulheres. Pra tudo se dá um jeito.

Cobertura de chocolate. Matando a larica do leitor.

Pedro C.

Boa cobertura. Mas com bandas tão boas fica mais fácil né?
Parabéns

Dóro

essa turma que faz nada adora reclamar de quem faz

Hugo

Recalque!!!
Não tem do que reclamar, o texto tá ótimo. Parabéns!

Guiguiu

Sensacional!

Markito

Mazáááá!
Ficou muito bom mesmo.

Petracco

Muito bom mesmo, mas..
“Ascendo um” é licensa poética ou falhou a equipe de revisores?
Grande abraço armenio-róquer..

renato f.

é que “um espírito ascendeu”….portanto, licenca poética..hehehe

eu

porra, petracco criticando um erro e olha o que tu falou

“licensa”

putz velho!!

e tu ? BEM MAIS COISA do que essa autora, pra errar assim
tu não pode.. ela pode.. até ja eh normal..

Robes

Daí Penny!!! Bombando em Sampa!! hahaha! Bem legal o teu texto!

Bêre

Cool!

tu

“Os pingos caiam. Aliás, não caiam, se jogavam desesperadamente”

é a licen?a poética novamente, ou agora sim a equipe de revisores?

Se é “jogavam”, então é passado, portanto “caiam” (presente) devia ser grafado no passado “caíam”. Hiato leva acento…

bom era isso, valeu

Querem me contratar para revisor??
Tou aceitando propostas.

GARRAS

Para consertar bobagens como essa não precisamos. Por que prá isso até professorinha de colégio serviria.

Bêre

TOU não existe!

Bêre

Mula

Jana Lauxen

Fer, o texto tá muito bom.
? visível a melhora do primeiro para este último. Continue arrasando por aí, mas não esquece de voltar vez em quando né garota? Para matar a saudade…
Parabéns pelo teu trabalho e não deixa essa chuvarada te levar.
Beijos queridíssima

Jana Lauxen

EI!!!
O comentário acima é meu!!!

tu

se nao precisa, entao pq erram ??

bu

“encima do palco”

?, realmente qualquer professorinha consertaria esse erro

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