Erasmo foi foda!
por Al-e.ssandro.co.uk
Peraí, não é o tremendão, não. Desiderius Erasmus Roterodamus é como o cara assinava, em latim. Não apenas dominava esta língua, mas sacava muito de grego e hebraico. Segundo ele, somente assim poderia compreender a real essência dos textos antigos, de onde (virtualmente) tudo veio no mundo ocidental. Sacaram quem foi o loco? Erasmo de Rotterdam, o mais influente pensador do século XVI.
Erasmo estudou em monastério. Foda. Muita disciplina, estudo pra caralho. Humanista por essência, prezava acima de tudo seus amigos. “To send and receive letters” - dizia ele – “is the sole means of uniting absent friends”. Com vinte e poucos anos, largou a papagaiada e foi tocar a vida. Sem grana, foi tutor de crianças ricas na França, UK, Bélgica e mundo afora. Ganhou prestígio. By the way, porra, que tal ter um filósofo como educador infantil? Putz, que besteira. Afinal, pra que pensar se basta decorar …
Erasmo passou então a estudar na Sorbonne – queen of the medieval universities. Nesta época, ainda buscava por direções intelectuais e livros para aumentar seu conhecimento. Lá no tempo do Sabbath não tinha esta barbadinha de downloadiar tudo pela internet; não existia Wikipedia. Livros eram caros, em especial obras originais. Inclinou-se por poesia e publicou seu 1º livro, “The room where Jesus was born”. O cara era obcecado pelo lance. Tá bom, agora vou também meter um pouco o pau. Era conservador ao dizer que deveríamos ter apenas uma religião (claro, cristianismo), e todo tipo de superstição deveria ser esquecida. Nenhum autor teria valor – na visão dele – se não tivesse por objetivo maior a busca de Cristo. Ah, e teria que ser em latim, a maior das línguas. Afinal, por que estou então fazendo referência a este porra??
Bueno, Erasmo foi um baita crítico e, como tal, metia o pau na igreja. “Men is wolf for man”. Dizia que o cristianismo havia se tornado decadente, com um árido racionalismo, rígida sistematização, autoritarismo moral, lógica estéril e (muito) blá-blá-blá. Dizia que o pagão Sócrates era muito mais importante que a maioria dos grandes teólogos da Idade Média; considerava-o o mais santo dos filósofos. Após Sócrates, admirava Platão. Aí tirei o chapéu pro cara.
Em 1504, Erasmo publica o “Handbook of the Christian soldier”. Aí vai um trecho (antes, imaginem o tabefe que foi no ouvido do papa, em pleno século XVI!):
- Do not tell me know that charity consists in being an assiduous churchgoer, prostrating yourself before the statues of the saints, lightning candles, and repeating a certain number of prayers. God has no need for this.
Mais tarde, Erasmo publica “The imitation of Christ”, outro tabefe, desta vez direcionado ao clero e religiosos. Dizia que o princípio da religião deveria ser a “imitação” da vida das grandes figuras como o próprio Cristo, ou seja, princípios baseados em simplicidade, caridade e virtudes. Tudo a ver com o luxo e a balbúrdia em que viviam os porcões. Erasmo criticava absolutamente a pompa de Roma, o estilo monárquico e absolutista do papa, o patrimônio de São Pedro, o esplendor das cerimônias, o luxo das vestimentas e a conversinha-mole interminável dos sermões. Escandalizava-se com a tropa de empregados, servos, guardas e parasitas que rondavam os religiosos.
“The praise of Folly” (1511) é o principal livro de Erasmo e possivelmente um dos maiores livros da Renascença. Sem evitar o sarcasmo, Erasmo pega pesado, avacalhando o papa e todos os promotores de guerra em nome do “Cristo”. Monstruoso, abominável e execrável são palavras freqüentes no texto.
Puta merda! Tchê, parece que estes textos seguem atuais (guardadas as devidas proporções) após 5 séculos! Erasmo foi o progenitor do humanismo, e um satirista anti-clerical cujos escritos fizeram mais do que o Luther para balançar as certezas dentro da igreja católica romana. Erasmo atacou frontalmente o absolutismo da igreja e foi de grande importância para a Reforma. O cara tinha, definitivamente, atitude, algo que muito precisamos ver nos dias atuais. Afinal, como no bom rock’n'roll, se não houver atitude, não há nada …

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