Entrevista: Beto Bruno
Pouco antes da gravação de Todos os tempos, Os Armênios fizeram uma longa entrevista com o vocalista da Cachorro Grande, na casa de seu pai (o poeta e colunista armênio, Bocajão). O resultado é um dos documentos mais extensos que você pode encontrar sobre o grupo, retratando um período particular na sua trajetória. Um dos destaques foi a reunião de todos os integrantes da ancestral “Aliás, comemos” (uma das primeiras bandas do Beto) no local do bate-papo. A entrevista tornou-se famosa, especialmente pelo fato do cantor ter solicitado que diversas partes da conversa fossem suprimidas, 24 horas após sua postagem n’Os Armênios. O resultado, você confere aí abaixo.
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Garras – Qual foi o último disco que tu comprou?
Otis Reeding ao vivo, live in Europe 67. Selo da Stax.
Maíra – Fala algo da morte do Billy Preston.
(imitando o Nérso da Capitinga) Mórreu, né? Deve se porque morreu gente que nunca tinha morrido antes. Eu acho muito engraçado porque um dia antes a gente tava assistindo o Bangladesh e nós ficava voltando toda hora na música que o Billy Preston toca. E é muito engraçado no dia seguinte saber que ele mórreu. Muito triste. Ele e o Nicky Hopkins são as principais influências do nosso pianista. Desde que a gente conheceu ele nós colocamos Nicky Hopkins e Billy Preston na cabeça dele. Ele usa os pianos do Hopkins e do Preston, o Wulitzer e o Rhodes. É realmente muito influenciado pelo Billy Preston. Então prá nós foi foda. Tomamos um trago monstruoso.
Garras – O último disco que ele gravou foi o Stadium Arcadium, dos Red Hot Chili Peppers.
Ele gravou com o Jet também. No Get Born.
Garras – E disco novo de vocês?
Nós vamos gravar em novembro prá lançar um pouco antes do carnaval. As músicas já estão todas na cabeça, tá tudo pronto.
Garras – Em uma outra entrevista, pouco antes do lançamento do Pista Livre, tu me falou que o quarto álbum seria um duplo, mesclando raridades, sobras e material ao vivo. Isso ainda vai rolar? Ouvi boatos de que talvez saísse algo novamente pela revista do Lobão, a Outra Coisa.
Não sabia disso. Agora nós estamos numa gravadora. Nosso lance tá totalmente vinculado a eles. Nós temos que apresentar prá eles mais dois discos. E a gente tá curtindo trabalhar com eles. Não podemos fazer nada por nós. E esse negócio de lançar sobra é coisa de banda que já terminou, que não tem mais nada prá colocar no mercado. Os Stones não lançaram os Anthology ainda porque eles estão aí até hoje. Não tem porque concorrer com um disco deles mesmos. E até porque as nossas sobras são tudo umas merdas. Senão não seria sobra.
Garras – E o show do Supergrass, como é que foi lá com os caras? Eles foram assistir o show de vocês…
Bá, foi foda cara. Pareceu um sonho. É uma das pouquíssimas bandas que hoje eu pago pau mesmo.
Roberta – Quais são as outras bandas?
Eu gosto muito do Oasis, dos Rolling Stones. E o cara que a gente tem escutado mais, que de um ano prá cá a gente só escuta isso aqui ó (aumenta o volume do som ao máximo por uns 20 segundos, foto ao lado)… Ian Brown. Eu não porque eu deveria ouvir outra coisa que não sejam os discos do Ian Brown. Eu não sei porque eu deveria assistir outra coisa que não seja o DVD do mestre (se aproxima do microfone e fala bem pausadamente) Ian Brown.
Bocajão – E do Jet tu não gosta?
Gosto! Tô louco prá ouvir o disco novo. (Nota do Editor: na época da entrevista, o segundo álbum da banda ainda não havia sido lançado).
Garras – Será que rola logo? Já tá na hora…
Tão gravando. Tão em estúdio…
E assim cara, o lance da gente ter tocado lá com o Supergrass foi foda. E eles terem assistido o nosso show ali, eu perdi o rebolado. Eu admiro os caras muito e não tenho vergonha de dizer. O show deles, prá mim, foi monstruoso. Fizeram versões novas das músicas. A gente admira isso. Se é prá ouvir igual ao disco eu fico em casa. O legal é tu ir ao show e ver algo novo. E o Supergrass fez uma coisa que os Rolling Stones fazem, que é do caralho. Na hora de excursionar com um disco novo, as músicas antigas ganham uma roupagem para soar como as do disco novo. Sabe, então não é só sair prá estrada num lance meio pega ratão, só prá ganhar dinheiro. Tudo, tudo, tudo no trabalho soa como novo.
Garça – Tu não acha que é bem natural isso?
É vagabundagem tu ir lá tocar igual.
Garça – Não é natural adequar as músicas ao trabalho novo?
Claro, não tem porque. Tem que tocar com as guitarras que eles gravaram o disco novo. Se mudou o timbre de caixa num disco, é a maior ilusão esperar que seja igual ali. Até porque as versões velhas nós ouvimos mil vezes.
Garça – Vocês não tem projeto de tocar fora do Brasil?
Nós quase fomos agora.
Garça – Em Portugal?
Não. Portugal já faz tempo que tinham cortado. Mas nós tínhamos um outro lance, bem mais recente.
Garras – E onde ia ser?
Seis cidade pela Europa. Mas passou adiante. Nosso produtor achou que não era uma boa hora. Melhor solidificar melhor o lance aqui.
Garras – O Pista Livre vai continuar sendo promovido? Vão ter mais singles e clipes?
Mais dois clipes.
Juliana – De quais músicas?
O Bom Brasileiro e Velha Amiga. E periga rolar mais uma ainda. De novo vamos emendar um disco no outro. Quando estivermos lançando o último clipe do Pista Livre vamos estar mixando o trabalho novo prá ser lançado no mês seguinte.
Bocajão (pai do Beto, bêbado e incomodando) – E quantas músicas estão prontas pro disco novo da Cachorra?
(Irônico) Tem quarenta músicas. Vinte duas estão prontas e quatorze nós estamos apaixonados por elas.
Garça – Quem escolhe as músicas que entram no disco? São vocês ou a gravadora participa?
Não! Senão não tem porque, meu. O mais importante é a liberdade artística. E a gente está numa gravadora que nos dá essa liberdade. Já deixamos de lançar um disco pelos judeus da Orbeat porque queriam mexer no repertório. Daí ia acontecer com nós o que acontece com essas bandas de merda gaúchas, que ficam paradas aqui fazendo campeonato gaúcho.
Renato – Qual tua relação com a crítica?
Na verdade não levo muito à sério. Até porque eu não conheço nenhum crítico que saiba afinar um violão. Não conheço ninguém que escreve sobre música que saiba afinar um violão.
Juliana – Tu acha que são todos uns músicos frustrados (rindo)?
Não digo isso. Não foi o Zappa que falou que crítico de música…
Juliana – Escreve para quem não sabe ler…
E é muito imbecil. Tu grava um disco e alguém acha que pode falar do teu disco. Qualé? O que o cara acha que pode falar do teu disco? Criticar o teu disco? Faz uma resenha, foi gravado em tal, tal e tal, tem tantas faixas e se encontra por tal gravadora, e tchau cara.
Roberta – Tem algum crítico no Brasil que tu respeita?
Ah… tem o guri da Zero lá…
Juliana – André Moreira?
Não… Eu respeito vários.
Renato – O XXXXXXX (nome suprimido pelo editor Aminoácido)?
Quem é que respeita o XXXXXXX cara? Olha só cara… ele é o cara mais chato da história de São Paulo. Eu tava lá na Galeria do Rock, na Baratos Afins, discutindo por um meia hora com uma turma, todos falando que o XXXXXXX era o cara mais insuportável do mundo. Tá sempre cherado, tomando cerveja no camarim de todo mundo. E até que entrou uma menina que trabalhava na loja e disse assim: – Não sei de quem vocês estão falando, mas não pode ser mais chato que o XXXXXXX. Não tem cabimento. Não tem consciência nenhuma…
Mas eu não lembro muito o nome dos críticos. Lembro mais o nome dos músicos… Eles é que tem que lembrar o nosso nome.
Garça – Como foi vencer a barreira de São Paulo? Tem aquele lance do som gaúcho…
A gente parou de se preocupar com isso. O negócio é que a gente nunca levantou bandeira do tipo “nós somos uma banda gaúcha”. Não temos vínculo nenhum. E a coisa começou a acontecer prá nós depois de um ano meio, dois, que foi bem na época em que a gente se mudou prá São Paulo. E não tem como negar isso.
Garras – Qual é a melhor música da Cachorro na tua opinião?
A primeira música do As Próximas Horas Serão Muito Boas. Eu queria que todas as músicas fossem iguais aquela. Ou fazer um show tocando quinze vezes ela.
Garras – E qual é a pior música da Cachorro na tua opinião?
A que a gente ainda não fez.
Juliana – Achei que tu ia dizer isso prá melhor música…
Não, a pior música da Cachorro tem. Tem umas que a gente gosta menos. Tem uma música no As próximas horas que é… que tem problemas, a gente nunca tocou ela. E… porra, Sexperienced tem uma letra que não dá prá engolir, né? Porque, “quero uma garota que tenha sexperienced”, como se eu fosse um grande comedor, sabe? Como se eu fosse o Wando. Então foi uma coisa de adolescente da época. Uns punkinho gostaram e tal… mas eu morro de vergonha de falar uma coisa dessas. Tanto que não fui eu que escrevi… Acho que essa é a pior.
Garras – E as músicas novas, como vai ser a sonoridade da Cachorro de agora em diante? Dando continuidade a sonoridade de Velha Amiga…
Não cara, vai ser parecido com os outros três discos. Não queremos nos prender a um estilo, ou ficar querendo imaginar o que que vai sair se a gente ainda não entrou em estúdio. Porque por mais que a gente imagine a cara que vai ter, depois que se entra em estúdio muda tudo. Não tem como premeditar isso.
Garça – E quem vai produzir?
Ah, vai ser o Rafael de novo. O mesmo desse último disco.
Garras – O que vocês acharam do trabalho dele?
Ele interferiu muito pouco. Só ajudou nós a escolhermos as melhores idéias. Ele escolheu junto. E o cara respeita muito o trabalho da banda. Prá ele foi legal também.
Garça – Qual a diferença de trabalhar com um produtor e trabalhar sem produtor algum?
Depende do produtor. Por exemplo, o As próximas horas eu e o Gross decidimos produzir por conta. E foi meio que loucura. Pegamos uma fita de duas polegadas e gravamos ao vivo. Coisa que não se faz desde 1974. Nós meio que nos perdemos no meio da produção. Demorou muito mais prá mixar do que prá gravar ali. E o produtor no meio faz a gente beber um pouco menos, que no estúdio é importante.
Chegou um boato lá, na época da gravação, que ninguém ia levar em consideração qualquer idéia que um bêbado tivesse.
Bocajão – Quando vocês gravaram lá prá Ême Tê Vê o acústico, eles davam trago lá prá vocês ou vocês ficaram de cara?
A Ême Tê Vê deu trago e nós levamos trago também.
Garras – Uma ópera-rock ou um álbum psicodélico, o que seria mais a cara da Cachorro fazer?
(Incisivo) Um álbum psicodélico. Mas acho que já passou a fase da Cachorro fazer um álbum psicodélico. Se nosso primeiro disco tivesse uma capa colorida, e não preto e branco, iam falar que é um álbum psicodélico. Porque as músicas são coloridas.
Juliana – O processo de criação, como é? Tu lê um livro, vê um filme, ouve uma frase, tu tá na rua…
Tudo isso. Não existe regra. Não é aquela coisa: – O Gross, vâmo fazê uma música agora. Ela vai falar sobre isso, isso e isso. E o refrão vai ser em tom menor. Não há regra. Ela aparece desse jeito que tu falou. Filme… filme é do caralho.
Juliana – Qual foi o último filme que tu assistiu? Que diretor tu paga pau?
Eu sou meio retrógrado com cinema. Gosto mesmo de Fellini e Buñuel… e Kubric. Godard um pouco menos, até porque tem coisas dele que eu odeio. Pretensioso e tal… E tenho que concordar que muitos filmes dele eu não entendo. Não sei se eu que sou burro… Tem muita gente aí dizendo que entende mas não entende. Tem muita gente lendo dizendo que entende o livro mas não entende. Um monte de pseudo-intelectualzinho de merda, que eu vejo muito por aqui, no sul. Uma geração meio perdida aí. Desnecessário.
E o último filme que eu vi… aí tu me pegou. Quando eu tô em Porto Alegre assisto uns quatro filmes por dia. Mas o que eu fui pegar na locadora foi Uma canção para Bob Long. Com o John Travolta, que eu sou fã demais. Mas eu gosto de ver muita porcaria. Tô numa fase que não tô vendo muito filme de arte. Tenho odiado poesia e cultura em geral. Acho tudo isso uma bosta. Meio que largo isso.
Juliana – E o Woody Allen?
Adoro! Já assisti todos os filmes mais de mil vezes.
Juliana – Assistiu o Matchpoint?
Não. Não sabia nem do nome. Também, ele tá na melhor fase, lançando três ou quatro filmes por ano.
Juliana – E o último livro que tu leu?
Foi… According to the Rolling Stones.
Garras – E o que tu achou daquele filmizinho, Stoned?
Não vi Garras… quando tava passando em São Paulo em tava em Porto. Daí eu fui prá São Paulo e entrou em cartaz aqui. E todos da banda viram, e é muito chato quando eles tão falando sobre o filme e eu não tenho o que dizer. Mas a idéia de ter um filme sobre a vida do Brian Jones é genial.
Agora, o filme que eu mais me chapei nos últimos tempos foi o After Translation. Eu recomendo para todos os meus melhores amigos.
Juliana – Esse filme é o bixo! Tu assistiu o anterior da Sofia Coppola? O As Virgens Suicídas?
Não, minha mulher assistiu e não gostou muito.
Garça – Banda brasileira?
Cascadura, de Salvador. Bá… muito foda. Laboratório de São Paulo… Eu gosto de muita banda, mas todas já consagradas. Pô, maior tesão ver um show dos Titãs. Não consigo ficar parado. Mas não vou ficar falando dos Titãs… é uma banda que todo mundo sabe que é legal.
Garça – Mas não é uma banda que tu compraria o disco, né?
Não compraria o disco… mas vou nos shows prá me divertir.
Juliana – Agora que eles voltaram, me diz, quem no Brasil faz música com a cara dos Mutantes?
Acho que ninguém! Nenhuma banda conseguiu aquele liga deles. Várias tem influência, mas ninguém tem aquela liga deles. O bom humor deles. A criatividade que eles tiveram. Não acredito que outra banda faça uma coisa parecida. Tem umas mais criativas, como os Beatles por exemplo. Tem uma banda da ilha de Wight, que é super influenciada por eles, que é The Bees. É a coisa mais perto que tem… mas é “perto”. A banda que excurciona com o Brian Wilson. São fãs dos Mutantes e tal… gravaram uma música até. Mas é uma coisa caretinha, tipo Pato Fu. A última coisa que os Mutantes eram era caretas. Então tem umas releituras caretíssimas.
Garras – O que tu achou do Uma Tarde na Fruteira?
O melhor disco do Pêra. Só que o Pêra tem que me pagar o que me deve, daí eu falo bem dele.
Garça – Tu tá por dentro do Rock atual?
Tô!
Garça – Tu acha que ele se recuperou dessa má fase que vinha vindo?
Eu acho que tão aparecendo muitas bandas, muito rápido e tudo muito parecido. Não gosto dessa linhagem Franz Ferdinand. Fica todo mundo fazendo squad, manchester dance. Ou aquelas coisas que o Television fazia com categoria. Que eram originais. Continuo com o Oasis e o Supergrass. O Ian Brown é o cara que mais tá por cima de todos. Ele fechou Glastowbury no ano passado. E fechar Glastowbury não é bem assim. Os Stone Roses não conseguiram isso.
Juliana – Pois é. Eles lançaram aquele disco deles e não conseguiram ir adiante, dar a volta por cima.
A cagada dos Stone Roses é que eles foram lançados no meio, bem no meio da fase grunge. Então eles passaram despercebidos fora da Inglaterra. Aquelas bandas horrorosas que vieram junto com o Nirvana apagaram eles. Só veio a refletir de novo o rock inglês com bandas que se influenciaram pelos Stone Roses, que foi o Blur, Oasis e o Supergrass. Daí, porra, a grande volta por cima mesmo é a do Ian Brown. Que os Stone Roses não tinham o reconhecimento que ele tá tendo, e isso é coisa de uma ano prá cá, a partir do quarto disco.
Juliana – Escutou o Raconteurs?
Não!
Juliana – É o trabalho paralelo do Jack White.
Ah, eu vi o clipe. É legal. O clipe é legal, a música é legal. O White Stripes é bem legal, tem sido legal de uns dois discos prá cá, menos indie e mais rock. Porque essa indiada não dá prá aguentar.
Garras – O que tu não gosta nos indie?
A música.
Juliana – Mas que bandas tu enquadraria no indie que tu não gosta?
Weezer. O Sonic Youth começou essa merda.
Roberta – Tu acha que eles viraram tia velha?
É muita despretensão cara. O punk que era legal. Tu aparecer ali no meio de 77 quando tinha um monte de banda progressiva. Sabe? Quando tu tinha que tocar igual ao Jimmy Page, rock de arena e pá. Tava xarope. Então veio o punk com três acordes. Clash, Pistols e deu prá bola, saca? Mas foi legal naquela época. Do mesmo jeito que o glitter foi legal prá aquela época e hoje é ridículo. Até os glitters, hoje, renegam aquilo. Então, o Sonic Youth começou essa merda toda de não querer saber tocar. A gente tocou num festival ali com os Stooges, e no outro palco lá, tinha uma coisa pior que a outra. Completamente irrelevante na história do rock. Não sei como é que as pessoas conseguem ouvir. Flaming Lips, saca? Coisa mais careta. Saca? Coisa mais bundinha. Essa coisa que não dá prá aguentar. Muita despretensão. Sou muito mais o Cansei de ser sexy que é muito melhor que isso aí tudo.
Garras – Eu acho uma bosta!
Juliana – Eu acho legal.
É uma bosta mas é melhor que isso aí tudo. Os shows são divertidos. O cara toma um trago lá dentro.
Bocajão – O que tu acha do Reggae e do Heavy Metal?
Que pergunta xarope. Eu gosto do Black Sabbath, mas não consigo acreditar que os metaleiros façam música prá homem ouvir.
Bocajão – E a mitificação do Bob Marley?
Bob Marley é o bixo. Que dúvida?
Garça – Mas uma coisa que tu tem que respeitar no Heavy Metal é essa mídia alternativa que eles tem. Eles são unidos.
Mas o grande lance inacreditável do Heavy Metal é que no show só tem homem. Não dá prá dançar. Não dando prá dançar mulher não vai. Tem coisa mais chata ir em show sem mulher? Pros músicos então, imagina… Mas eles gostam.
Bocajão – Então tu acha que os caras do Heavy Metal são viadão?
Principalmente das bandas da Suíça que dão o cu prá não gastar a piça.
Juliana – Um colunista do nosso site também, como tu, detonou o Franz Ferdinand e o Weezer. Mas meteu no mesmo saco o último disco do Paul O que tu achou do Chaos and Creation in the Backyard?
O último disco do Paul é maravilhoso. Eu tenho o vinil. É um disco lindo. Não precisa esperar mais de um disco bonito. Tu tem que ouvir música bonita. Mas continuo sem entender porque o cara, esse aí que tu falou, porque ele tem que meter pau nas outras bandas. Ele pode influenciar as outras pessoas. Quem quer saber? Uma coisa é tu perguntar pro músico. As pessoas não querem saber se fulano tem mal gosto ou bom gosto. Elas tem que ouvir o que gostam prá se sentir bem. Tem muita gente aí falando que ouve os Byrds e os Kinks, só prá andar aí na rua com camisinha e dizer que ele é cult. Na verdade não sabe nem o que é aquilo. Não agüento abrir uma revista e ver crítico metendo pau numa banda, por mais que eu odeie aquela banda. Que direito ele tem de fazer isso? Acho que não é o papel dele. A gente tava falando de cinema. Já teve atrás de uma câmera? Já teve num set de filmagem? Falando sobre livro, já escreveu um livro? Não é o crítico que tem que falar. Agora, me admiro muito as pessoas lerem e levarem a sério. Quem quer saber a opinião de um crítico? Vocês não acham? Tô sendo pau no cu? Deixa o público formar a sua própria opinião.
Renato – A banda Repolho estava comentando o fato de não existir uma gravadora de porte médio no Brasil. Existem as grandes gravadoras ou tu não tem nada. No exterior tu vê gravadoras de porte médio que conseguem dar uma vida digna pro artista. Aqui, o que existe é um cenário independente.
Quem perde são as bandas de médio porte. Ou tu consegue entrar numa grande ou tu é uma merdinha independente. Realmente, está certíssimo. Não tem um selo de porte médio no Brasil. Quem perde são as bandas e o público que não pode escolher o que ouve. Hoje te fazem engolir goela abaixo. Eu sei que vocês tem discos maravilhosos em casa e não precisam ligar um rádio. Porque hoje, o grande público, que não é interessado, não escolhe. Qualquer merda que tu colocar tocar no rádio cinco vezes por dia vai fazer sucesso e todo mundo vai sair cantando.
Renato – Vocês são um exemplo de banda que se consolidou no cenário local e estão em ascensão.
Tudo que sobe rápido, desce rápido. Temos sete anos de banda. De pouco em pouco fomos conquistando um espaço. Nunca foi de uma hora para a outra que estourou a Cachorro. Estamos numa posição cômoda. Fomos construindo isso de degrau em degrau. Se cairmos, é no degrau de baixo. Sabe? Fizemos Porto Alegre, o circuito no interior, no sul. Lançamos disco pela gravadora local. Começamos a fazer o circuito de festivais pelo resto do Brasil. Daí sim seria o esquema de porte médio que tu tava falando. A Cachorro era uma banda de porte médio antes do terceiro disco. Que o melhor para nós era optar pela OutraCoisa, porque o disco ia estar no mínimo em todas as capitais do Brasil, nas bancas. E nós estivemos nos festivais. Depois disso, foi natural encontrar uma gravadora. Não foi de uma hora pra outra. A gente teve que ralar pra caralho. Subi foi difícil. Cair também vai ser.
Bocajão – Banda pré-Beatles, que tu e o Gross destacariam como influência.
Banda seria os Shadows. Agora, importante foi o Elvis, Chuck Berry, Litlee Richard, Jerry Lee Lewis, Carl Perkins.
Bocajão – Blues não?
Blues? É o filho do Blues. Robert Johnson… isso aí é cartilha, né?
Maíra – Tão fazendo show no norte do país? Como é a receptividade?
Ba, do caralho. É muito foda chegar em Salvador e ter duas mil pessoas, de terninho, gravatinha, chapéuzinho, cantando tua música. Essas cidades todas que a gente faz, parece um sonho, a gente tem medo de acordar.
Maíra – Lá o pessoal é mais participativo.
No norte o pessoal é muito mais louco. Aqui no sul é cheio de italianinho, alemãozinho… tudo muito careta. Chega lá é todo mundo louco por rock’n'roll. Aqui ficam preocupado se vão dizer o que vão dizer no outro dia se ele estiver dançando. (imitando uma velha) “Máquelalá me tava dançando lá”.
Bocajão – Eu queria saber se a tua banda tem alguma consciência política?
Não. A banda não tem consciência política nenhuma. A nossa geração não passou por ditadura. Eu vejo mulher pelada na televisão desde os anos 80. Ninguém nunca censurou uma música nossa. Nunca precisei fazer uma barricada. Enquanto não acontecer alguma coisa na política que nos envolva, vamos continuar assim, ignorantes. A gente gosta mesmo é de rock’n'roll.
Garras – Estão satisfeitos com o baixista novo? O nome dele não ta no site, e tal. Ele é membro efetivo?
O Rodolfo já ta efetivo e inclusive ta ganhando o mesmo que eu. E a gente ta satisfeito porque entrou mais um compositor e cantor na banda. É um cara que fechou uma colinha que a banda precisava ter e nunca teve. A alegria entre nós é o mais importante. E musicalmente ele é muito mais interessante. As influências dele, como músico, são mais próximas de nós, de mim e do Gross. Hoje é uma banda. É uma família. Coisa que a gente nunca tinha conseguido ser, porque tinha alguém diferente.
Roberta – Já ouviu Jesus Buceta?
Já! Sensacional! Um pouco difícil pra minha compreensão. Me senti ignorante quando eu ouvi. Ainda pretendo entender aquilo. Acho que é a mesma sensação que as pessoas tiveram quando apareceu o Sell Out.
Roberta – Além do Ian Brown, quem mais é grande, em termos de rock, no mundo?
Os Rolling Stones são a maior banda de rock, ainda. Desde aquele show do Manchester Square Garden , quando falaram, pela primeira vez, “the greatest rock’n'roll band in the world, The Rolling Stones”, eles continuam sendo. É a maior turnê. Poxa, esse é o melhor disco dos Rolling Stones, em todos os sentidos. Composição, gravação, produção, saca? Todo mundo fica com aquela coisa meio sensível em relação ao passado, de que a época gloriosa deles é do Aftermath ao It’s Only Rock’n'Roll. Eu acho a melhor época essa aqui. São os Rolling Stones, cara!
Juliana – Eu vi numa entrevista o Keith Richards falar que nesse disco, finalmente, o Jagger aprendeu a tocar.
E ficou melhor do que nunca. O Charlie Watts nunca tocou do jeito que ta tocando hoje. Se ele gravasse de novo o Exile hoje, onde cada som de bateria é diferente. Era uma bagunça, saca? Hoje, vem um sonzão compacto de batera na tua cara, demais… Muito melhor. É o melhor discos deles. São os maiores.
Juliana – Mais alguma?
Oasis é uma grande banda. O último show deles que a gente viu em São Paulo foi uma coisa poderosíssima. Uma presença, a música… dizer que é uma banda do mundo, saca? Ele exerce um poder sob o público, quando aquele cara sobe no palco e fica olhando praquela galera, uma coisa incalculável.
Garras – E como foi que vocês fizeram pra roubar o Pelotas dos Small Faces? Apesar de tocar desde o primeiro disco, ele foi um acréscimo substancial ao som da banda a partir do segundo.
Ele gravou três músicas no primeiro disco. Hoje são cinco membros efetivos que tem a mesma disposição dentro da banda. Claro que eu e o Gross tomamos mais a dianteira. Sempre tem que ter alguém que tome a dianteira, por sermos mais velhos.
Roberta – Eu estava lendo ontem sobre vocês e o texto comentava que mesmo lá no norte, nordeste, tem uma galerinha de chapeuzinho, vestido como vocês. Dá onde veio a idéia de ter uma roupa…
Do A Hard Days Night, dos Beatles.
Roberta – E é mais no Rio Grande do Sul?
Agora é igual. Em todo lugar. Como tem muita gente daqui que não aceita que a banda é de Porto Alegre, tem muita gente de Porto Alegre que não aceita que a gente ta morando em São Paulo. Querem o que? Querem a gente pra eles. A gente já dá a nossa música pra eles. A banda é de lá. Eu sou daqui. Deu uma polêmica quando eu falei no Jô. Quando formei a banda em Porto Alegre tinha gente que nunca tinha ouvido falar em Passo Fundo. Se a gente ficasse aqui não ia virar merda nenhuma. É pura ignorância.
Bocajão – Ta cheio de Pittyzinha por aí nas ruas. Pelo Brasil tem os Cachorrinhos que se vestem como vocês?
Tem! São eles que compram nossos discos. Eles que vão nos nossos shows. É por causa deles que eu posso queimar tudo em play. Se vestem igual e eu acho legal. Eu sempre quis me parecer com meus ídolos.
Morto – Tu acha que a turnê no “Aliás, Comemos” foi importante pra tudo que veio depois?
Eu acho. A turnê do aliás foi curta, mas foi significativa.
Morto – Tu acha que existe chance de uma reunião, no futuro?
Eu não gosto de prever o futuro, mas foi uma banda significativa.
Os Armênios
Abaixo: Duas fotos da antológica “Aliás, Comemos”

“Aliás, Comemos” em duas ocasiões: na turnê
de 1994 (acima) e no dia dessa entrevista (abaixo).

Nota do editor: Por solicitação do entrevistado, a entrevista precisou ser EDITADA 24h após a publicação nesse site.

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