Chegando se sola: o esporro punk
Músicas de 10, 20 minutos. Uma única composição era o suficiente para encher um álbum inteiro. Introduções homéricas, sons viajantes, instrumentistas virtuosos. Esse era o cenário no início da década de 70, quando o rock progressivo dava continuidade às chapações alucinadas do psicodélico. As principais lideranças do estilo eram: Pink Floyd, Yes, Gênesis e Emerson, Lake e Palmer. Ao mesmo tempo havia o hard rock com um combo instrumental pesado, solos de guitarra agressivos e riffs marcantes, junto com um vocal esgoelado. Os maiores representantes eram o Led Zeppelin, o Deep Purple, o The Who na sua fase Next e o Black Sabbath. Esse seria o som dos anos 70, se não existisse Nova York. 
Retrocedendo no tempo: 1967. O mundo estava tomado pela psicodelia apontada pelos Beatles. Muito ácido, roupas coloridas, sexo livre, quadrinhos alternativos, protestos estudantis, religiões orientais e lemas de paz e amor. Todos estavam nessa onda, e São Francisco era o QG da loucura. Paralelo a isso, em Nova York, 1967 era bem diferente.
Numa das maiores metrópoles do planeta, no bairro Greenwich Village, uma banda trocava o som lisérgico por batidas sujas e aceleradas. Substituía o LSD por drogas injetáveis pesadas. Roupas coloridas, por jaquetas de couro. Essa foi a banda seminal do punk, o legendário Velvet Underground. Não é por acaso que eles levam o título, apadrinhados pelo artista plástico Andy Warhol, o grupo explodia em cacofonia embalada por letras poéticas e decadentistas. Para entender melhor, o líder e compositor, Lou Reed, é uma mistura de Bob Dylan com Marquês de Sade.
Um dos maiores equívocos do rock é achar que o punk surgiu com os ingleses. Muito antes, na América existiam grupos como os Stooges, New York Dolls, MC5, Patty Smith Group, Television e Ramones. Bandas que chutavam o balde com composições cruas, rápidas, obscenas e toscas ao extremo. É nesse cenário urbano, onde a vida é ressecada pelos males do capitalismo, que esse estilo rude nasce. Em meio a junkies viciados em heroína, michês, bêbados, prostitutas, traficantes, mendigos e travestis.
Os Stooges e o MC5 vieram de Detroit, uma das cidades mais industrializadas e artificiais do mundo. Os primeiros logo de cara fizeram a cabeça dos nova-iorquinos. Grandes performances de palco eram encenadas pelo porra-louca do Iggy Pop, que ensandecia e estremecia os maiores pontos punks, o CBGB e Max Kansas City. Os MC5 eram politizados, faziam letras de cunho anarco-socialista e incluíam discursos em seus shows.
Da própria cidade de Nova York, os New York Dolls eram os mais singulares. Vestiam-se de mulher com direito a todos os adornos possíveis. Mas a música que eles faziam não era nada feminino e delicado. Um som cru, que gritava nos tímpanos de qualquer um que estivesse passando a menos de uma quadra de distância deles. A Patty Smith era “a” poetisa. Fã de William Burroughs, queria ser como seus ídolos: escrever como Rimbaud, ter os cabelos do Keith Richards, fumar e caminhar como o Bob Dylan, mas tinha um som autêntico e de lírica rebuscada. Os “Ramonão” chegaram de coturno nas “paleta”. Suas músicas duravam no máximo dois minutos e, às vezes, com um acorde só.
Simultaneamente, na Inglaterra, surgiu um estilo esteticamente diferente, mas chocante e rebelde em igual proporção e semelhante na sonoridade: foi o glam rock. O glam é como se fosse o irmão mais novo do punk, só que bicha. Vestiam-se com roupas femininas, maquiagem e saltos plataformas. O principal expoente era David Bowie, que, com seus vocais agudos, liderava uma legião de fãs, que muitas vezes também eram músicos. Como o caso do Marc Bolan, líder do T. Rex, uma das melhores bandas do gênero, diga-se de passagem.
Além do glam, um pouco mais tarde, a Inglaterra desovou duas máximas do punk: o The Clash e o Sex Pistols. Essas duas bandas conquistaram enorme sucesso na época, algo que os americanos nem sequer sonhavam. Em virtude disso, muitos acreditam que o punk rock é, na verdade, um produto cultural britânico. Ledo engano. Merecedores ou não do título de “pais do punk”, é inegável que o Clash e os Pistols eram bom demais. Muitas músicas suas viraram clássicos do rock. Foram eles que levaram o gênero ao extremo.
Mais que um estilo musical, o punk é uma filosofia de vida. Seu principal lema é “faça você mesmo”. E foi isso que eles pregaram e viveram. Se só havia rock progressivo e hard rock, eles foram lá e retomaram as origens. Músicas à la anos 50, com três acordes e nada mais.
Os anos 70 foram ótimos. Tinha o Led, o Floyd, os Stones com uns baita discos e tal, mas foi o punk que resgatou toda a simplicidade e rebeldia dos primórdios do rock. E a história é essa: o primeiro punk foi o Groucho Marx.
* Texto publicado originalmente no jornal UPF Cultura, em setembro de 2005.

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