Caeiro e Alberta
Por Leandro Dóro
Caeiro vestiu uma calça branca e pernaneceu nu da cintura para cima. Acessou, através de seu computador de mão, a página Convivências. Escolheu o bairro Tristeza, novo ponto de encontro dos jovens internautas. Uma imagem holográfica projetou a rua e seus freqüentadores. Muitos se acotovelavam ou surpreendiam-se onde apareciam, pois o programa lançava-os em locais inesperados, calculados pela quantidade de freqüentadores da rua.
Procurou Alberta, garota de lábios protuberantes e pernas grossas que a cada noite, no mesmo horário, freqüentava aquela rua virtual. Já haviam feito sexo virtual, em uma das casas da rua, na última madrugada. Apesar das carÃcias e da penetração, o gozo pareceu masturbação, pois o programa não simulava, com perfeição, as carÃcias sexuais verdadeiras que poderiam ser obtidas através do contato fÃsico.
Viu os cabelos negros e longos da amada circularem por entre os hologramas. Gritou seu nome e se encontraram na praça central, entre passantes que a chamavam para conversas sexuais. Ela vestia um macacão justo e curto, que destacava o rego dos seios e a forma arredondada de suas ancas. Acariciaram-se no rosto e, como se fossem gatos, roçaram as maçãs do rosto um no outro, sem qualquer palavra.
Beijaram-se sofregamente e com um leve encostar de lábios, interromperam-no, olhando-se e tateando seus cabelos e pele. Ela disse:
- Quero te encontrar, pessoalmente, aqui mesmo, nessa rua â?? disse, enquanto brincava com o cabelo curto de Caeiro.
Suas têmporas e veias do pescoço latejaram e gotas de suor frio atravessaram a testa do rapaz, parando nas grossas sobrancelhas morenas. Com uma voz grave aveludada, concordou. Encontrariam-se em meia hora. SaÃram da sala. Ele banhou-se em seu chuveiro de ar umedecido. Vestiu a parte de cima do macacão. Regulou o controle da vestimenta, fazendo-a mudar de branco para ciano e implantando golas largas, ao estilo anos 1970.
Através de uma ordem vocal, pediu para o apartamento se desligar, aguardando seu retorno. Sentou-se em sua cadeira-propulsora, que através de imãs elétricos, magnetizados com hidrogênio, o transportou há oito centÃmetros do solo pelas ruas recobertas de cerâmica super-condutora. Percorreu os bairros Bela vista, Partenon, Azenha, Menino Deus e Cristal sem preocupar-se com o trânsito, pois o piloto-automático o dirigiu ao local ordenado. Os veÃculos de transporte público e familiar deslocavam-se entre três e 25 metros do solo e somente as cadeiras-propulsoras tinham permissão de se deslocar próximas ao solo, conforme as leis do Departamento Estadual de Trânsito.
Em 32 minutos, chegou ao centro do bairro de pequenos arranha-céus, Tristeza. Sentiu-se chocado ao notar as ruas vazias. A imagem holográfica do lugar era de mesas lotadas e pessoas caminhando pelas ruas. Notou que esbarrava em campos eletromagnéticos de repulsão. Pôs óculos para identificação dessas ondas e viu todos os freqüentadores que percebia através do computador de mão. Aguardou-a, sentado em um banco da praça.
Augusto, amigo virtual, sentou ao seu lado.
- Você está aà de verdade? â?? pergunto o amigo. â?? Meu computador disse que sua presença é fÃsica.
- Sim, espero por Alberta, aquela guria com quem eu fiquei, ontem.
- Bom, espero que tenha sorte. Vou deixá-lo sozinho. Conte-me como foi, depois.
O zunido dos magnetos de uma cadeira-propulsora surgiram � s suas costas. Beijaram-se, sem palavras, e apalpando os sexos de um e outro, resolveram conectar as cadeiras-supercondutoras rumo ao apartamento de Caeiro.
Começava, ali, a primeira de muitas noites sem internet.

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