Manias nacionais
por Gabriela Willig
Se você perguntar para qualquer pessoa quais são as manias brasileiras, é bem provável que ela irá responder jogar futebol, sambar, tomar caipirinha, tomar chimarrão e comer churrasco no sul, etc. Todo brasileiros reclama de que os estrangeiros acham que o Brasil se resume a esses clichezões. Mas é muito difícil ver alguém dizendo, em poucas palavras, alguma coisa diferente. Porém, a verdade é que este país tem várias manias bem próprias e que chegam a ser estranhas. Só quem sair daqui, para dar uma respirada fora e voltar, pode notá-las.
A primeira que me vem cabeça são os canudinhos. Não aqueles canudinhos deliciosos que se comem em festa de criança, recheados com maionese ou salpicão (se bem que isso também deve ser uma coisa bem brasileira). Mas aqueles canudos que se usa para tomar refri e que alguns chamam de ??palheta?. Só no Brasil se vem canudinhos tão pequenos. Pequenos não no comprimento, mas na grossura por onde passa o líquido.
Fico me perguntando como será que surgiram esses canudinhos minúsculos? Será que foi numa crise nacional do plástico? Ou numa resolução do Ministério da Saúde, que diminuiu a quantidade de refri que passa pelo canudo para diminuir o consumo de refrigerantes no país? O fato é que essa mania não pegou e acabou gerando outra mania. Hoje em dia ninguém vai numa lanchonete, daquelas que têm canudinhos minúsculos, e pega só um canudo. Os canudos pequenos só saem em duplas e muitas vezes, não só os pequenos.
Depois que a crise passou e o Ministério da Saúde comprovou que o tamanho não faz a diferença, os fabricantes de produtos plásticos voltaram a produzir canudos no tamanho habitual. Mas, nessas alturas do campeonato, a mania de pegar dois canudinhos já estava tão enraizada na cultura brasileira, quanto a mania de tomar chimarrão no Rio Grande do Sul. Hoje, os próprios atendentes das lanchonetes já entregam dois canudos para os clientes. Ninguém se importa, ninguém questiona e quase ninguém agüenta tomar refri com um canudo só. Demora demais.
Outra mania nacional, que não tem nada haver com canudinho a não ser um formato parecido, são os palitos de dente. Esses objetos são encontrados por todo o mundo, com a diferença que só aqui eles têm a função de palitar os dentes. Enquanto no Brasil desde o boteco da esquina até o restaurante mais fino têm paliteiros encima das mesas, (com exceção de alguns que os colocam no banheiro para o cliente não expor seus dentes com pedaços de carne e alface), em outros países os palitinhos têm a única função de palitar aperitivos, batatinhas fritas e esse tipo de coisas. Porém, a função de palitar os dentes, diariamente depois das refeições, não é apenas uma questão de higiene.
Observe uma pessoa palitando os dentes. Esse é quase um momento filosófico. ? o momento em que a pessoa está em contato com seu interior, ela sente o almoço passando do esôfago para o estômago. Enquanto palita os dentes ninguém fica agitado, todos olham para um ponto infinito e pensam na vida. ? como se ao tirar aqueles restos de comida que ficam no meio dos dentes, estaria se livrando de seus principais problemas, ou pelo menos dos mais visíveis. Depois ela joga fora o palito e sai, enfrentar a correaria do dia a dia. Mas antes, pára para pegar uma Coca. Com dois canudinhos, é claro!

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