Os Armênios

Dissertando acerca de Rock??n’Roll

Postado em 4 de junho de 2006

por Maurício Rigotto

Sempre que dissertamos sobre o bom e cada vez mais velho Rock??n??Roll, um argumento geralmente é uma unanimidade: os anos sessenta foram os mais influentes e criativos. Nas intermináveis listas de melhores discos da história do Rock, discos lançados nos sixties costumam ocupar uns noventa por cento do rol. O culto a esta década é cada vez maior e roqueiros que não eram nem um espermatozóide naquela época falam dela com nostalgia.

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Realmente se pensarmos nos maiores nomes do rock, de Beatles a Rolling Stones, de Bob Dylan a Jimi Hendrix, de The Who ao Led Zeppelin, de Lou Reed a Neil Young, a esmagadora maioria iniciou sua carreira nos anos sessenta. Bandas boas surgiram em todas as décadas e continuam fervilhando aos borbotões. Então qual o grande diferencial daquela turma? Analisando minha singela coleção de discos, observei que as bandas sessentistas foram em sua totalidade influenciadas pelas mesmas pessoas, ou seja, os roqueiros pioneiros dos anos cinqüenta: Chuck Berry, Little Richard, Carl Perkins, Elvis, etc?, e também pelos bluseiros Howlin?? Wolf, Muddy Waters, John Lee Hooker, Jimmy Reed e Lighting Hopkins entre outros. Começaram tocando suas covers e, mesmo com as mesmas influências, buscaram o seu som, a sua sonoridade própria. O The Who não se parece com o The Doors, que não se parece com o Grateful Dead, que não se parece com o Steppenwolf, que não se parece com o Jefferson Airplane, que não se parece com os Byrds, que não se parece com os Kinks, que não se parece com os Yardbirds. Cada banda tinha a sua sonoridade própria que a diferenciava das outras. A partir da segunda metade da década, pôde-se notar uma evolução surpreendente a cada disco lançado por esses grupos. ? notável como o segundo disco é melhor que o primeiro e como no terceiro estão tocando melhor que no segundo. Ouvir a discografia dessas bandas de forma cronológica destaca consideravelmente o processo evolutivo em que estavam empenhados. Bandas de relativo sucesso comercial no início da década como os Herman??s Hermitts e Gerry And The Pacemakers acabaram devido s limitações musicais de seus integrantes em conseguir acompanhar o que acontecia, literalmente ficaram pra trás.

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Claro que a mitificação é exagerada, também havia muita mediocridade nos anos sessenta. Alugue o filme do festival de Woodstock e constate que entre as apresentações do The Who e do Ten Years After tocaram também porcarias como Country Joe And The Fish e Sha-Na-Na. Há também o culto superestimado por artistas que sucumbiram aos excessos e não sobreviveram ao final da década. Hoje enquanto Joe Cocker, um dos grandes destaques do Woodstock e de toda a época em questão, está no ostracismo lançando discos que os roqueiros nem se dão ao trabalho de ouvir, a molecada cada vez mais veste camisetas com os rostos de Jim Morrison e Janis Joplin estampados. O que torna Cocker menos importante que Morrison ou Joplin? Unicamente o fato de ter ficado vivo ao invés de morrer na época certa.

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Nos dias de hoje a mentalidade é opositiva quela de outrora em que cada grupo buscava sua própria identidade. Quando, por exemplo, aparece uma banda boa como os garotos dos Strokes e faz um grande e merecido sucesso, surgem logo a seguir centenas de bandas tentando soar exatamente igual aos Strokes, pois se eles estão fazendo sucesso é só fazer igual para também galgar os degraus da escadaria da fama. Os sub-Strokes se vestem da mesma forma, as poses desleixadas são iguais, os CDs tem os mesmos timbres, a mesma mixagem, mesma masterização e muitas vezes até o mesmo produtor. Os vídeoclips exibidos pela emetevê também são muito semelhantes aos originais. Enfim, se uma fórmula funciona, é só copiar, reproduzir tudo igualzinho e capitalizar em cima.

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Se um dia você for analisar seus acetatos para descobrir o porquê das bandas da atualidade parecerem iguais, sentirá uma pontinha de nostalgia dos áureos tempos em que os grupos possuíam personalidade própria.

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13 comentários

Jota

Estimado Maurício, e caros armênios:
Grande artigo! Gostaria de comentar alguns pontos: creio que a afirmativa sobre os ??maiores nomes do rock? é apropriada, mas – nisto acredito convictamente – transitória. Quando falamos em rock, costumamos (como fizeste em teu texto) dividir o bolo em décadas, e destas fatias, a única que até agora pôde receber a devida atenção, com alguma distância histórica que nos permita separar joio do trigo, foi a de sessenta. Por exemplo, estão contrapostos The Who e Sha-na-na como ícones woodstockianos. Alguém tem alguma dúvida sobre a magnitude das duas bandas, tanto em termos de representação do momento histórico quanto em termos de influência s gerações futuras? Neste ítem exato está algo que não nos permite destrinchar a década de 90, por exemplo, com maior profundidade: a separação de efemeridades e arte leva tempo para ser depurada. ? só lembrar-mos do famoso concurso onde J. S. Bach entrou em terceiro, quase desprezado por seus contemporâneos julgadores.
Outro ponto importante, senão fundamental, são a identidade e qualidade (aqui leia-se o trinômio composição-performance-produção) que a franca maioria destas bandas buscou durante suas carreiras. Neste sentido, concordo plenamente com tua afirmação: ??? notável como o segundo disco é melhor que o primeiro.? Claro que há exceções, e em tópico tão delicado quanto esse há divergências. Exemplo: algum dos discos do Doors supera o homônimo de estréia? Do Velvet Underground, VU & Nico ou White Light/White Heat?
Quando li o nome ??Joe Cocker? no contexto de teu artigo, a primeira coisa que me veio mente foi: Rolling Stones. Todos surpreendentemente vivos. Bem, aqui não vou me posicionar, mas o que os amigos acreditam que separa o sucesso atual dos dois artistas? Alguém apontaria meio momento de inspiração stoniana pós Exile on Main Street? E qualquer coisa próxima deste na produção de Joe? No further comments?
Voltando questão da solidez, o exemplo dos Strokes é definitivo: após o brilhante e profético álbum de estréia, o que fez a banda, além da citada inseminação de subprodutos? Ela própria não teria se tornado um subproduto de si mesma? Este fenômeno, por sinal, não é exclusivo dos Strokes, nem do novo milênio, mas parece-me crescente: as bandas de um disco só. Quais fatores colaboraram neste sentido? MTV, acefalia do público, imediatismo de nossa sociedade?
Buenas, apenas alguns pensamentos que gostaria de compartilhar. Antes de encerrar, entretanto, deixe-me discordar frontalmente do que afirmas no último parágrafo: a ??personalidade? não se perdeu num matagal em 71. Há dezenas (se não forem centenas) de bandas com identidade própria posteriores aos sixties. Por outro lado, uma análise das bandas sessentistas (e este adjetivo já é uma chave da resposta) nos mostrará quase tantas semelhanças quanto há diferenças (que não colocas, mas que estão claramente subentendidas pelos exemplos comparados).
Mais uma vez, curti muito o artigo. Imagino que com reflexões como a tua (e, acima de tudo, com o que recomendas: ???analisar os acetatos??) podemos nos encaminhar para uma compreensão cada vez maior de elementos culturais a nós tão caros. Desculpo-me pela extensão deste comentário, mas espero poder contribuir um pouco para a discussão.
Saudações cordiais.

B.

Maldito sobrenome, hein?

Rodrigo de Andrade (GARRAS)

Porra! O primeiro do Country Joe & The Fish, o Electric Music for the Mind and Body, é bem legal!

Renato

Bom, aproveitando o gancho, gosto do terceiro disco do velvet?.?velvet underground??.

Matheus

Seguinte, tá o texto é interessante, mas é datado?.datado demais?.será que só rola isso, a evolução de qualquer coisa é crime? No mais, parabéns aos armênios!!!! levem adiante e tomara que a comunidade daqui não decepcione voces!!!! valeu galera!!!!!

Lucas

eu curto o country joe

jivanildo

olha eu prefiro o primeiro do velvet

Fábio Elias

Muito interessante o seu ponto de vista. Essas divagações sobre rock e suas (p)referências aos anos sessenta são muito válidas, por se tratar de um período mágico para a música e a contra-cultura no século 20.
Sou fã de rock de todas as fases e épocas. Nada se construiu e nada se destruiu de lá pra cá. Tudo se explica e nada se entende sobre rock. Seria a música dos incompetentes para os incompreendidos? Ou as grandes bandas tiveram que tocar (e muito!) pra conquistarem os corações e mentes mundo afora?
Levemos esse debate até o fim dos tempos, quando o rock estiver mais velho e saboroso, como um uísque deve ser!
Um brinde aos amantes desse tal de rock??n’roll!!!

Rodrigo de Andrade (GARRAS)

E o meu preferido do Velvet é minha caixinha Peel Slowly and See (hehehehehehehehehe)!!!!

Roberta Scheibe

Massa o teu texto Morto! Gostei muito! Também concordo com a opinião do Jota sobre os Strokes. Eles são do caralho, mas precisam cuidar para não se tornarem um subproduto de si mesmos. Por isso eu amo Los Hermanos! Hehe!

Rodrigo Timm Nessi Carnacini

Perspicaz e contudente confrade Morto!

Excelente texto, bela abordagem? Uma aula!

Valeu! Nessa se superou! Curti mesmo!

João Carlos

tá…alguma novidade?

Daniela Luquini

?tima fluência Morto!!!

Que tal uma avaliação do Rock na atualidade?

Muita coisa surgindo…o que será o futuro?!!!

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