Os Armênios

Conto: Iago

Postado em 20 de junho de 2006

por Leandro Dóro

Moto Voadora.jpg

A motovoadora de Iago sobrevoa o asfalto das ruas do centro velho de Passo Fundo. O veículo está no piloto automático, permitindo que vislumbre arquitetura antiga dos hotéis e prédios residenciais e comerciais, convertidos em camelódromos e cortiços. O excesso de edifícios gerou umidade e limo, que recobrem as paredes.

Pousa em uma marquise da rua Morom. Paga, com cartão de crédito, um guardador de veículos e desce por uma escada circular plástica. O bolor penetra em suas narinas e o limo emporcalha suas botas assépticas.

Ajusta a temperatura de seu sobretudo de fibra de soja. A maioria dos passantes transita sentados sobre Unomotores ?? veículo que se assemelha a um banco que se locomove graças a uma turbina movida a hidrogênio. Os mais pobres, utilizam Unomotores com rodas e os paupérrimos, a pé, com tênis ortopédicos, lutam para não serem abalroados pelos veículos ou mordidos por cães transmutados geneticamente, transmissores da síndrome de regressão gênica, que causa deterioração corpórea dos seres mordidos.

Iago não possui um Unomotor. Prefere caminhar com botas de cano alto ou circular de moto. Adentra a Catedral Nossa Senhora Aparecida, convertida em templo evangélico após a derrocada da Igreja Católica provocada pelos ataques da mídia norte-americana durante o século XXI.

Faz, via celular, uma cópia eletromagnética da foto de uma mulher nua de cabelos e olhos castanhos, sorrindo na praça nudista Marau, no centro novo da cidade. A imagem é projetada em 360 graus e emana o calor de uma tarde morna de janeiro daquele 2087.

Apresenta-a a um engravatado pastor que lhe responde com um sinal da cruz e pergunta se deseja que a moça seja convertida em holograma eterno. Iago diz ??sim? e oferece seu cartão para pagamento da contribuição para manutenção do holograma.

Enquanto a operação é efetuda, Iago observa o conjunto de hologramas de pessoas mortas, que encobrem os vitrais que reproduzem a via sacra católica. O Ministério do Patrimônio negou o pedido de descaracterização da Catedral. Porém os evangélicos cobriram as referências católicas com esses monitores holográficos, desligados para visitação de historiadores.

O pastor agradece a contribuição de Iago e leva a imagem em um projetor manual rumo ao centro do templo. A imagem é reproduzida em proporções humanas no teto do templo. Flutua rumo ao chão e caminha em direção a Iago.

? uma mulher de proporções iguais � amada de Iago. Enlaça-o e o beija. Sente a maciez de sua pele e o calor de seus lábios. Transita suas mãos sobre as nádegas dela e a enlaça pela cintura. O pastor informa que o casal pode ir a um dos quartos na ala anexa ao templo.

Iago agradece e a leva para reviver o sexo perdido desde o dia em que estavam a beira mar, em Porto Alegre ?? cidade que se tornou litorânea após o degelo dos pólos. Iago e sua namorada planejavam visitar uma extinta plataforma petrolífera da Petrobrás, convertida em hotel submerso após o fim comercial dos combustíveis fósseis e do aumento do nível do mar.

O casal foi a praia da capital gaúcha vestindo macacões higiênicos para eliminar os efeitos da poluição. Iam surfar ondas de três metros, geradas pelo vento quente das indústrias de gaiastico ?? espécie de plástico a base terra vermelha, da África do Sul.

A cidade estava protegidos pela campânula eletromagnética que rechaça os raios ultravioleta e mantém temperatura e umidade constantes. Onde não há esse recurso, inicia um irreversível processo de desertificação, reduzido pela irrigação aérea realizada periodicamente pelo trem intercontinental que sobrevoa os cinco continentes graças a uma estrada de supercondutores subterrânea.

Ela beijou Iago e sussurou:

- Sou Lillith, a primeira esposa de Adão.

Despiu-se do macacão protetor e tragou um anarguilé portátil de Tetra ?? droga produzida a partir da essência da maconha, o tetrahidrocanabinol. Correu, com sua prancha, e mergulhou. Iago percebeu uma perigosa mancha esverdeada nas águas. Correu para resgatá-la, mas ela já estava com o corpo recoberto pelos fungos gerados pelo contato dos coliformes fecais com uma alga transgênica presente no mar.

Levou-a, de moto, ao hospital, porém a degradação cancerígena, gerada pelo fungo, já atingia o cérebro de sua namorada.

Reviu fotos e depoimentos dela e descobriu que desejava morrer, para encontrar a vida eterna. Queria voltar holograficamente e reencontrá-lo no templo. Assim fez Iago, mantendo-se fiel aos reencontros holográficos com a amada a partir do dia em que entrou na antiga catedral de Passo Fundo.

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12 comentários

Ana Paula

esses teus contos são um barato!!!!!!! mora????

Roberto

Pensei que, no futuro, quem ia montar uma igreja era o Bocajão

Rodrigo Timm Nessi Carnacini

Até que enfim publicou esse aí Dóro! Legal demais… Viáááááááági!!!!!!

Me obriguei a ler novamente! Parabéns!

Roberta

Puuutz Dóro!
Do caralho! Poa cidade litorânea pelo degelo dos pólos foi o máximo.
Conto monstruoso.

Renato

ótimo texto!!!!

Jorge

O Iago é o namorado da Dara…..

Glauco Roberto Polita

Cara! Será que não dá para adiantar a fórmula do TETRA. Esse troço deve ser o maior barato!! Eh!Eh!

Rodrigo Timm Nessi Carnacini

Olhaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!

O Glauco saliente! Desde o caso com a Lurdinha, na novela ele tá desse jeito!

Bibiana

Minino Dóro,

há tempos queria comentar teus contos e depois desse não resisti: boníssimo! Só espero mesmo que reste alguma arquitetura antiga em 2087, porque no ritmo que a coisa anda, até lá, já terão transformado tudo em estacionamento, o que seria péssimo para o cenário da história…

espera dos próximos episódios!
Abraços

Dóro

Valeu pelos comentários, galera. Mesmo. O próximo conto é estilo Beatnik ou, ao menos, uma tentativa de o sê-lo. O outro, esse sim, voltará a ser Ficção Científica de Passo Fundo (FCPF).

Jivanildo

Dóro os de FCPF são so melhores
grande conto

Julmencio Andrade

NHACA. PEIDO E MIJO E BOSTA.

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