Conto: Biebdomadário
por Leandro Dóro

Ele pôs as chaves em cima da estante, próximas a porta para pegá-las no dia seguinte. Juntou os sacos de lixo da cozinha. Amarrou-os e os levou a frente do prédio. Retornou e se despiu, deixando as roupas sobre uma poltrona do quarto.
Nu, na sala, zapeou o televisor. Ligou o computador, também na sala. Viu seus e-mails, enquanto digeria pipocas doces. Deixou o saco ao lado do teclado. Serviu-se de um copo de refrigerante. Colocou-o vazio sobre o tampo do vaso. Pegou uma toalha limpa e foi se banhar.
Barbeou-se sob a ducha morna.Retirou o excesso de pêlos do barbeador, batendo-o nos azulejos do box. Secou-se como em uma propaganda de sabonete ?? rápido e impreciso. Largou a toalha ao chão. Com pés úmidos, foi ao quarto. Pôs um blusão de lã e retornou a frente do computador. Selecionou, de seu HD, músicas da coleção Clássicos do Chorinho.
O saxofone de Carinhoso percorreu a sala, o quarto, o banheiro, a cozinha e a exígua área de serviço. Temia que aquela melodia atrapalha-se os vizinhos de prédio, afeitos a assistirem telenovelas.
Arrotou.
Sentiu os odores azedos de seus tênis, que esquecera sob a mesa do computador. Colocou-os na área de serviço,onde em um espaço de um metro por um metro se acumulavam uma máquina de lavar, um cesto de roupas, quatro vassouras, uma pá de lixo e um aspirador de pó, impregnados pelo cheiro da caixa de gordura, que repousava, ali.
Uma parede separava a área da cozinha. A pia, abarrotada de copos, talheres e pratos, estava salpicada por farelos de pão. Pegou uma esponja, que pela umidade já começava a trocar sua cor amarela para a marrom. Passou-a sobre os farelos, realocando-os para dentro da pia. Ligou a torneira até os farelos boiarem sobre talheres, copos e pratos.
Retornou a sala.Deitou-se no sofá .Olhou para as fotos sobre o balcão, onde está o televisor de 20 polegadas. Havia sua imagem, ao lado da ex-namorada. Na estante, pegou contos de Rubem Fonseca. Leu dois, um deles, no vaso banheiro.
Deixou o livro sobre a toalha úmida,no chão do banheiro. Pegou uma revista semanal – Carta Capital. Leu duas reportagens sobre conjuntura econômica ?? uma sobre a brasileira e outra sobre a italiana. Parecia, nas matérias, que o Brasil era uma potência em desenvolvimento e a Itália uma máfia dominada pela extrema-direita.
Repousou a revista sobre o sofá e procurou, entre os livros, uma coletânea de contos de Amílcar Betega. Não os encontrou. Deixou a pilha de livros que pesquisara em cima da mesa da sala e voltou ao computador, para procurar narrativas de Amílcar. Descobriu que o sobrenome do escritor era com dois tês e não com um. Encontrou matérias sobre o Prêmio Camões de Literatura, que o contista recebeu em 2006. Releu a biografia do autor, imaginando um dia ter uma respeitável, também.
Incomodou-se com a mistura de odores ?? tênis, caixa de gordura e pia. Acendeu um incenso, em uma atitude que classificou como barroca. O barroco, recordou, utilizava-se da pompa e do requinte para esconder a sujeira das ruas e dos corpos.
Abriu um novo documento de texto e tentou rabiscar um conto. Infrutífero. Sua mente estava excessivamente cansada pelo dia de trabalho. No quarto, deitou-se sobre as cobertas desalinhadas,deixadas da noite anterior.
Ressonou pensando em contratar uma faxineira.

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