Os Armênios

Conto: Biebdomadário

Postado em 5 de junho de 2006

por Leandro Dóro

pelado.gif

Ele pôs as chaves em cima da estante, próximas a porta para pegá-las no dia seguinte. Juntou os sacos de lixo da cozinha. Amarrou-os e os levou a frente do prédio. Retornou e se despiu, deixando as roupas sobre uma poltrona do quarto.

Nu, na sala, zapeou o televisor. Ligou o computador, também na sala. Viu seus e-mails, enquanto digeria pipocas doces. Deixou o saco ao lado do teclado. Serviu-se de um copo de refrigerante. Colocou-o vazio sobre o tampo do vaso. Pegou uma toalha limpa e foi se banhar.

Barbeou-se sob a ducha morna.Retirou o excesso de pêlos do barbeador, batendo-o nos azulejos do box. Secou-se como em uma propaganda de sabonete ?? rápido e impreciso. Largou a toalha ao chão. Com pés úmidos, foi ao quarto. Pôs um blusão de lã e retornou a frente do computador. Selecionou, de seu HD, músicas da coleção Clássicos do Chorinho.

O saxofone de Carinhoso percorreu a sala, o quarto, o banheiro, a cozinha e a exígua área de serviço. Temia que aquela melodia atrapalha-se os vizinhos de prédio, afeitos a assistirem telenovelas.

Arrotou.

Sentiu os odores azedos de seus tênis, que esquecera sob a mesa do computador. Colocou-os na área de serviço,onde em um espaço de um metro por um metro se acumulavam uma máquina de lavar, um cesto de roupas, quatro vassouras, uma pá de lixo e um aspirador de pó, impregnados pelo cheiro da caixa de gordura, que repousava, ali.

Uma parede separava a área da cozinha. A pia, abarrotada de copos, talheres e pratos, estava salpicada por farelos de pão. Pegou uma esponja, que pela umidade já começava a trocar sua cor amarela para a marrom. Passou-a sobre os farelos, realocando-os para dentro da pia. Ligou a torneira até os farelos boiarem sobre talheres, copos e pratos.

Retornou a sala.Deitou-se no sofá .Olhou para as fotos sobre o balcão, onde está o televisor de 20 polegadas. Havia sua imagem, ao lado da ex-namorada. Na estante, pegou contos de Rubem Fonseca. Leu dois, um deles, no vaso banheiro.

Deixou o livro sobre a toalha úmida,no chão do banheiro. Pegou uma revista semanal – Carta Capital. Leu duas reportagens sobre conjuntura econômica ?? uma sobre a brasileira e outra sobre a italiana. Parecia, nas matérias, que o Brasil era uma potência em desenvolvimento e a Itália uma máfia dominada pela extrema-direita.

Repousou a revista sobre o sofá e procurou, entre os livros, uma coletânea de contos de Amílcar Betega. Não os encontrou. Deixou a pilha de livros que pesquisara em cima da mesa da sala e voltou ao computador, para procurar narrativas de Amílcar. Descobriu que o sobrenome do escritor era com dois tês e não com um. Encontrou matérias sobre o Prêmio Camões de Literatura, que o contista recebeu em 2006. Releu a biografia do autor, imaginando um dia ter uma respeitável, também.

Incomodou-se com a mistura de odores ?? tênis, caixa de gordura e pia. Acendeu um incenso, em uma atitude que classificou como barroca. O barroco, recordou, utilizava-se da pompa e do requinte para esconder a sujeira das ruas e dos corpos.

Abriu um novo documento de texto e tentou rabiscar um conto. Infrutífero. Sua mente estava excessivamente cansada pelo dia de trabalho. No quarto, deitou-se sobre as cobertas desalinhadas,deixadas da noite anterior.

Ressonou pensando em contratar uma faxineira.

« anterior próximo »

10 comentários

Paula

Li todo o texto com uma ida de oxigênio só. Muita-vida. Pouca-vida.

Ele podia comprar um papa-bolinhas, seu blusão está de dar dó?

Me lembrei do Chico Buarque agora? seus personagens? sua pedra?

Muito bom, muito bom

Rodrigo Timm Nessi Carnacini

? Doro! Legal como sempre. Bem escrito como sempre. Impagável como nunca. Se bem que ainda sou mais fã das histórias futurísticas, pois ali você viaja legal mesmo!

Parabéns!

Roberta Scheibe

Grande texto Doro! Gostei da descrição. Putz, eu tenho um amigo que tem os tênis fedendo iguais ao desse cara?

jivanildo

os meus fedem

Leandro Camargo

Dóro!!!
Um texto que reporta o leitor ao dia-a-dia de um morador solitário que, em seu lar, faz coisas rotineiras e que, em muitas vezes, as esconde de tudo e de todos. Quem, um dia, não atirou roupas pela casa, não desfilou nu ou semi-nu pela morada e, enquanto pensava na vida, no agir e, no amanhã, sapeava pela televisão, pelos livros, pela liberdade de ter, como opção, o viver na solidão de sua própria companhia. Tudo isto regado a um texto singelo, inteligente, expressivo e com um palavreado acessível e de fácil entendimento.
Parabéns por mais esta conquista, estimado ex-colega de trabalho, ainda em Passo Fundo. Muito mais sucesso para você do amigo tocaio que, aqui, de Balneário Camboriú/SC, torce pelo teu crescimento profissional.
Abraços

Rodrigo Timm Nessi Carnacini

Rotundo e ás vezes Saliente Doro!

Valeu pelos seus comentários na coluna. Seguinte, um dia quando você for contratado pela Marvel ou DC, vai ter que me mandar todas, TODAS as revista de GRÁTIS!

Eu acredito! Te vira aí para ser contratado de uma vez, pô!!!!

E se quiser um resumo de quantas andam esses dois universos, posso tentar ajudar. Qualquer coisa tem o Garras e o Fio para ajudar também!

Rodrigo de Andrade (GARRAS)

Ficou ótimo Doritos!!! E isso que tu utilizou método, hein!!!

Renato

?timo!!!!

Liliane

Adorei os farelos da pia!! Beijos e mais sucesso, Dóro, querido.

Kiti

é quase o meu Apê… incrível! a gente se reporta para dentro da história e se confunde com o personagem…
grande Dóro!

Faça seu comentário

Obrigatório.

Obrigatório; não exibido.

Opcional.

Artigos recentes

Copyleft Permitida a livre reprodução de todo o conteúdo do site. Pirateie e não peça para ninguém.
Login | RSS | Anuncie no site