Esquartejamento de cadáver em praça pública
por Maurício Rigotto
A arte, independente da forma como se manifesta, precisa ser febril e instantânea. O mundo está abarrotado de artistas fabricados pela mídia, por gravadoras e grandes empresas que fazem meticulosos estudos mercadológicos para lançar seus artistas-marionetes que nada criam, apenas necessitam ser belos e fotogênicos, estudar a forma de se portar em público e decorar as falas que lhes é preparada para serem simpáticos a tudo. Nem cantar o sujeito tem que saber, pois com o advento dos estúdios com o programa pro-tools, qualquer desprovido de talento grava um disco e o sistema corrige qualquer imperfeição e deixa tudo afinadinho.
Também existem os artistas de verdade, pessoas que criam, contestam o que está estabelecido apresentando outras possibilidades e, por ousarem trazer elementos novos e diferentes, acabam desafinando o coro dos contentes. Muitas vezes suas obras acabam não recebendo atenção justamente por não possuírem os padrões enlatados e medíocres que a mídia nos empurra goela abaixo. Os acomodados esquecem de exercer seu discernimento e senso crítico e deixam as paradas decidirem por eles. A mentalidade é a seguinte, por exemplo, se as músicas do Latino, da Kelly Key e do KLB não fossem boas, não tocariam maciçamente nas rádios, já as do Tom Zé e do Van Morrison devem ser uma droga, pois jamais são executadas nas ondas do rádio. Desconhecem que são alguns grandes executivos da indústria fonográfica, que não entendem nada de música, mas são especialistas em ganhar grana, quem decide o que será sucesso devido a um trabalho de superexposição. Hoje as bandas em que o primeiro CD não vender bem não conseguem lançar o segundo, e os critérios nem levam em consideração se a música é boa ou não, só o que pesa é o retorno financeiro.
Um fenômeno curioso ocorre quando a morte abate um grande artista, no sentido mais literal que a palavra pode ter. O homem que era evitado e desprezado por colocar o dedo na ferida e não fazer concessões para o mercado, ao desencarnar vira um santo, alvo de todo tipo de homenagens e tributos oportunistas. Quando John Lennon estava vivo, incomodava muita gente com sua música. Era persona non grata pelo governo norte-americano, que colocou a CIA para monitorá-lo e tentou a todo custo sua deportação, argumentando que um estrangeiro que foi pego com maconha alguns anos atrás precisava ser extraditado. Na realidade não era nada interessante para o governo Nixon ter em seu país um artista que contestava sua política opressora e fazia as pessoas pensarem sobre o assunto. Canções subversivas como ??Working Class Hero?? se tornaram uma pedra no sapato da Casa Branca. Assim que o ex-beatle foi assassinado, transformaram-no em um mártir pacifista que ficava o dia inteiro tocando ??Imagine?? em um piano branco ao lado da esposa oriental, suplicando pela paz mundial. Resumiram toda sua obra a essa imagem e colocaram uma estátua dele no Central Park. Não se odeia um morto, pois agora ele não incomoda mais ninguém, não contesta mais nada, é melhor transformá-lo num babaca e faturar em cima. Até o presidente Fernando Collor declarou ser fã de Lennon. Collor não representava exatamente a antítese do que Lennon colocou em sua obra? Deveria era ser fã de Richard Nixon.
Aqui no Brasil quem colocou uma mosca na sopa do sistema foi Raul Seixas, artista da maior grandeza, venerado por seu público na mesma proporção em que era odiado pela mídia. Brigou e foi expulso de todas as gravadoras por não fazer concessões aos mandatários. Entendia que a gravadora era pra gravar e distribuir o disco e conseqüentemente lucrar com isso, não admitia que influíssem no processo criativo e por isso foi boicotado. Chegou ao cúmulo de ser dispensado por uma delas ao se recusar a fazer um disco em homenagem a Lady Diana. Nos seus últimos anos de vida, com a saúde severamente debilitada pelo alcoolismo e em sérias dificuldades financeiras, todas as portas eram fechadas na sua cara. Um executivo até declarou estar ??vacinado contra Raul Seixas?. Dois de seus últimos discos foram lançados pela Copacabana, gravadora tradicional de músicas caipiras que não sabia produzir um disco de rock, mas foi a única que abriu as portas. Muitos desses executivos gostavam de vê-lo por baixo, tripudiavam sobre onde estaria a arrogância do malucão de outrora.
Em detrimento as nefastas expectativas desses empresários, Raul morreu em pé, lotando ginásios e sendo aclamado por seu enorme público em sua derradeira turnê, em parceria com Marcelo Nova. A indiferença da mídia não foi levada em consideração pelos fãs deste artista detentor de inigualável carisma. Mas os abutres já farejavam a carniça, e com a morte do roqueiro, os espertalhões de plantão correram pra pegar carona na cauda do cometa. Enquanto Raul estava na rua da amargura, com problemas no pâncreas, diabetes que exigiam doses diárias de insulina e necessitando tratamento dentário, estas mesmas bandas que agora o homenageiam declaravam que seus ídolos e principais influências eram Gil, Caetano, Jorge Ben, Djavan, etc? Jamais citavam Raul. Nas suas exéquias, uma impressionante multidão de fãs se fez presente, mas a classe artística não estava lá, Raul não fazia parte da ??turma?. Para impulsionar a carreira de bandas iniciantes e levantar os grupos veteranos que estavam em baixa, s gravadoras os orientava a gravar covers de Raul e bradar na imprensa sua genialidade. Pessoas que não saberiam citar o nome de três canções do Maluco Beleza se declaravam fãs desde criancinha. Ainda hoje o esquartejamento de cadáver de roqueiro em praça pública continua, cada um quer o seu pedaço para poder ouvir sua caixa registradora tilintar. ??Eu sei até que parece sério, mas é tudo armação, o problema é que tem muita estrela pra pouca constelação?.

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